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O Homem
Alusio de
Azevedo        1
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                    O Homem


I

Madalena, ou simplesmente Magd, como em famlia tratavam a filha do
Sr. Conselheiro Pinto Marques, estava, havia duas horas, estendida num
div do salo de seu pai, toda vestida de preto, sozinha, muito aborrecida,
a cismar em coisa nenhuma; a cabea apoiada em um dos braos, cujo
cotovelo ficava numa almofada de cetim branco bordada a ouro; e a seus
ps, esquecido sobre um tapete de pelos de urso da Sibria, um livro que
ela tentara ler e sem dvida lhe tinha escapado das mos insensivelmente.

No entanto, no havia ainda um ms que chegara da Europa, depois de um
longo passeio que o pai fizera com sacrifcio, para ver se lhe obtinha
melhoras de sade.

Melhoras! Que esperana! - Magd voltou no estado em que partiu, se 
que no voltou mais nervosa e impertinente. O Conselheiro, coitado,
desfazia-se em esforos por tir-la daquela prostao, mas era tudo intil:
de dia para dia, a pobre moa tornara-se mais melanclica, mais
insocivel, mais amiga de estar s. Era preciso fazer milagres para distra-
la um segundo; era preciso de cada vez inventar um novo engodo para
obter que ela comesse alguma coisa . Estava j muito magra, muito plida,
com grandes olheiras cor de saudade; nem parecia a mesma. Mas, ainda
assim, era bonita.

Morava com o pai e mais uma tia velha chamada Camila numa boa casa na
praia de Botafogo. Prdio talvez um pouco antigo, porm limpo; desde o
porto da chcara pressentia-se logo que ali habitava gente fina e de gosto
bem educado; atravessando-se o jardim por entre a simetria dos canteiros
e limosas esttuas cobertas de verdura, e enormes vasos de tinhores e
begnias do Amazonas, e bolhas de vidro de vrias cores com pedestal de
ferro fosco, e lampies de trs globos que surgiam de pequeninos grupos
de palmeiras sem tronco, e bancos de madeira rstica, e tambores de
faiana azul-nanquim, alcanava-se uma vistosa escadaria de granito, cujo
patamar guarneciam duas grandes guias de bronze polido, com as asas
em meio descanso, espalmando as nodosas garras sobre colunatas de
pedra branca. Na sala de entrada, por entre muitos objetos de arte,


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notava-se, mesmo de passagem, meia dzia de telas originais; umas em
cavaletes, outras suspensas contra a parede por grossos cordes de seda
frouxa; e, afastando o soberbo reposteiro de reps verde que havia na porta
do fundo, penetrava-se imediatamente no principal salo da casa.

O salo era magnfico. Paredes forradas por austera tapearia de linho
ingls cor de cobre e guarnecida por legtimos caquimanos, em que se
destacavam grupos de chins em lutas fantsticas com drages bordados a
ouro; as figuras saltavam em relevo do fundo dos painis e mostravam as
suas caras trgidas e bochechudas, com olhos de vidro, cabeleiras de
cabelo natural e roupas de seda e pelcia. Cobria o cho da sala um vasto
tapete Pompadour, aveludado, cujo matiz, entre vermelho e roxo, afirmava
admiravelmente com os tons quentes das paredes. Do meio do teto, onde
se notava grande sobriedade de tintas e guarnies de estuque, descia um
precioso lustre de porcelana de Saxe, sobrecarregado de anjinhos e flores
coloridas e pssaros e borboletas, tudo disposto com muita arte numa
complicadssima combinao de grupos. Por baixo do lustre, uma otomana
cor de prola, em forma de crculo, tendo no centro uma jardineira de
loua esmaltada onde se viam plantas naturais. A moblia era toda variada;
no havia trastes semelhantes; tanto se encontravam mveis do ltimo
gosto, como peas antigas, de clssicos estilos consagrados pelo tempo.
Da parede contrria  entrada dominava tudo isto um imenso espelho sem
moldura, por debaixo do qual havia um consolo de bano, com tampo de
mrmore e mosaicos de Florena, suportando um pndulo e dois
candelabros bizantinos; ao lado do consolo uma poltrona de laqu dourado
com assento de palhinha e uma cadeira de espaldar, forrada de gorgoro
branco listrado de veludo; logo adiante um div com estofos trabalhados
na Turquia.

Era neste div que a filha do Sr. Conselheiro achava-se estendida havia
duas horas, deixando-se roer pelos seus tdios, aos bocadinhos, com os
olhos paralisados num ponto, que ela no via.

Foi interrompida pelo pai.

-- Ah!

-- Como passaste a noite, minha flor?

Magd fez um gesto de desnimo, soerguendo-se na almofada de cetim, e
tossiu. O Conselheiro assentou-se ao lado dela e tomou-lhe as mos com
fidalga meiguice.

-- Preguiosa!...


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Um belo homem! Alto, bem apessoado, fibra seca, barba a Francisco I,
toda branca, olhos ainda vivos e uma calva incompleta que lhe ia at ao
meio da cabea, dando-lhe ao rosto uma fina expresso inteligente e
aristocrata.

Fora da marinha, mas aos trinta e cinco anos pedira a sua demisso,
instalara-se no Rio de Janeiro, e casara, entregando-se desde essa poca 
poltica conservadora. Enviuvou pouco depois do nascimento de Magd,
nico fruto do seu matrimnio; chamou ento para junto de si a irm, D.
Camila, que vivia nesse tempo agregada  casa de outros parentes mais
remotos; a filha foi entregue a uma ama at chegar  idade de entrar
como pensionista num colgio de irms de caridade.

Era a essa infeliz criana, to cedo privada do amor de me, que o
conselheiro dedicava a maior parte dos seus afetos, e era tambm das
suas mos pequeninas que recebia coragem para enfrentar os desconsolos
da viuvez e as neves, que ia encontrando do meio para o resto do caminho
da vida. E era ainda essa criana, j mulher, que o desgraado via agora
escapar-lhe dos braos e fugir-lhe para a morte, arrastando atrs de si um
triste sudrio de mgoas brancas, mgoas de donzela, mgoas flutuantes,
que pareciam feitas de espuma, e contra as quais no entanto se
despedaavam todo o seu valor de homem e todas as foras do seu
corao de pai.

Coitadinha! Havia dois anos que se achava nesse estado. Pode-se todavia
afirmar que comeara a sofrer deste a fatal ocasio em que a convenceram
da impossibilidade do seu casamento com Fernando.

Que romance!

Fernando fora o seu companheiro de infncia, o seu amigo; cresceram
juntos. Quando ela nasceu, encontrou-o j em casa do pai com cinco anos
de idade, e desde muito cedo habituaram-se ambos  idia de que nunca
pertenceriam seno um ao outro.

Segundo o que sabia, toda a gente, este Fernando era um afilhado, que o
Sr. Conselheiro adotara por compaixo e a quem mandara instruir; o certo
 que o estimava muito e no menos verdade era que o rapaz merecia esta
estima; dera sempre boas contas de si, e desde o colgio j se adivinhava
nele um homem til e honrado. Um belo dia, porm, quando andava no
penltimo ano de medicina, o padrinho chamou-o ao seu gabinete e disse-
lhe que, de algum tempo quela parte, observava-lhe com referncia a
Magd uma certa ternura, que no lhe parecia inspirada s pela amizade.



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Fernando sorriu-lhe e fez-se um pouco vermelho.

-- Com efeito, confessou, havia j bastante tempo que sentia pela filha do
seu padrinho muito mais do que simples amizade. E toda a sua ambio,
todo o seu desejo, era vir a despos-la logo que se formasse; tanto assim,
que tencionava, mal conclusse os estudos, pedi-la em casamento.

-- Isto  impossvel!

-- Impossvel? interrogou o rapaz erguendo os olhos para o Conselheiro. --
Impossvel, como?

O velho fez um gesto de resignao e acrescentou em voz sumida:

-- Magd  tua irm.

-- Minha irm...?

Houve um constrangimento entre os dois. No fim de alguns segundos, o
Conselheiro declarou que no tencionava fazer to cedo semelhante
revelao, e que nem a faria se a isso o no obrigassem as circunstncias.

Fernando estava abismado. Sua irm. Visto isto - toda essa histria, que
ele conhecia desde pequeno; essa histria, em que figurava como filho de
um pobre marinheiro vivo, falecido a bordo, era...

-- Uma fbula, concluiu o pai de Magd, sempre de olhos baixos. --
Inventei-a para esconder a minha culpa.

O moo teve um ar de censura.

-- Bem sei que fiz mal, prosseguiu o velho, hesitando em levantar a
cabea. -- Mas no podia declarar-me teu pai sem prejuzo de tua parte e
sem enxovalhar a memria daquela que te deu o ser. Era casada com
outro e tu nasceste ainda em vida de minha mulher. O marido de tua me
estava ausente quando vieste ao mundo; ignorou sempre a tua existncia,
e enviuvou quando tinhas apenas dois anos de idade. Eu ento carreguei
contigo para casa, inventei o que at aqui supunhas verdade e nunca mais
te abandonei.

Fernando deixou-se cair numa cadeira. O pai continuou, aproximando-se
mais, e falando-lhe em surdina:




                                                                         6
-- Minha inteno era esconder esse segredo at no dia em que depois de
minha morte, viesses a saber que estavas perfilado por mim e
contemplado nas minhas disposies testamentrias; mas - o homem pe
e Deus dispe - para meu castigo, quis a fatalidade que te agradasses de
tua irm e, como bem vs, s me restava agora confessar francamente a
situao. Ficas, por conseguinte, prevenido de que, de hoje em diante,
deves empregar todos os meios para afastar do esprito de Magd qualquer
esperana de casamento, que ela por ventura mantenha a teu respeito...

Fernando declarou que preferia desaparecer dali. Partiria no primeiro vapor
que encontrasse.

No! isso seria loucura! Ele estava bem encaminhado e pouco lhe faltava
para terminar a carreira... Que se formasse e partiria depois.

-- Olha, concluiu o velho, passado um instante - caso prefiras estudar
ainda um pouco na Europa, v o lugar que te serve e conta comigo. No
sou rico, mas tambm no s extravagante; apenas o que te peo  que,
de modo algum, reveles a tua irm o que acabas de saber. Ser talvez
uma questo de temperamento, mas creio que morreria se o fizesse.

Quando o Conselheiro terminou, Fernando chorava.

-- E o marido de minha me? perguntou.

-- H dez anos que morreu; no deixou parentes.

E o pai de Magd, vendo que o filho parecia sucumbido, passou-lhe o brao
nas costas: -- Ento! vamos, nada de fraquezas! um abrao! e que esta
conversa fique aqui entre ns dois.

O rapaz prometeu e jurou que ningum, e muito menos Magd, ouviria de
sua boca uma s palavra sobre aquele assunto. O velho agradeceu o
protesto com um aperto de mo; e ficaram ainda alguns momentos
estreitados um contra o outro, at que o Conselheiro se retirou, a limpar os
olhos, e o rapaz caiu de novo na cadeira, dobrando os cotovelos sobre uma
mesa e escondendo no leno os seus soluos, que agora lhe rebentavam
desesperadamente.

Foi Magd quem veio despert-lo dali a meia hora, depois de o haver
procurado embalde por toda a casa.




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-- Ora, muito obrigado... ia dizer, mas deteve-se, intimidada pela
expresso que lhe notara na fisionomia. -- Que era aquilo?... Ele estava
chorando?...

--  senhores! Hoje nesta casa esto todos amuados! Ao outro encontro
chorando, que nem um beb; este diz-me que no est bom e que eu
entretenha-me com a tia Camila! Ora j se viu!

O pai afagou-lhe a cabea. -- Esta tolinha!...

-- Mas, papai, que tem o Fernando?

-- No sei, minha filha.

-- Diz que um amigo dele est muito mal...

-- Pois a tens...

-- E voc, papai, por que est triste?-- No estou triste, apenas
preocupado. No  nada contigo. Poltica, sabes? Mas vai, vai l para
dentro, que tenho que fazer agora.

-- Poltica!...

Magd afastou-se, meio enfiada, mas da a pouco se lhe ouviram os
gorgeios do riso nos aposentos da tia Camila.

J l estava o demoninho a bolir com a pobre da velha!



II

 A tristeza de Fernando, em vez de diminuir com o tempo, foi crescendo de
dia para dia. A irm bem o notou, mas j sem vontade de rir, nem dar
parte ao Conselheiro; estava ento justamente no delicado perodo em que
os ltimos encantos da menina desabotoam nas primeiras sedues da
mulher; transio que comea no vestido comprido e termina com o vu de
noiva.

Quinze anos!

E que bem empregados! Muito bem feita de corpo, elegante, olhos negros
banhados de azul, cabelos castanhos formosssimos; pele fina e melindrosa



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como ptalas de camlia, nariz sereno feito de uma s linha, mos e ps
de uma distino fascinadora; tudo isso realando nos seus vestidos
simples de moa solteira bem educada, na sua gesticulao fcil, na sua
maneira original de mexer com a cabea quando falava, rindo e mostrando
as jias da boca.

Aquela insistente frieza do irmo foi a sua primeira mgoa. Em comeo no
se preocupava muito com isso; quando viu, porm, que os dias se
passavam e Fernando continuava mais e mais a seco e retrado, chegando
at a evit-la, ficou deveras apreensiva. -- "Teria o rapaz mudado de
resoluo a respeito do casamento? -- Estaria enamorado de outra?" Estas
duas hipteses no lhe saam do esprito.

Agora muito poucas vezes achava ocasio de estar a ss com ele e,
quando tal sucedia, Fernando, com tamanho empenho procurava escapar-
lhe, que de uma feita a pobre menina foi queixar-se ao pai.

--  que naturalmente, respondeu o velho, o rapaz no tenciona casar
contigo e procura desiludir-te a esse respeito.

Magd ficou muito sria quando ouviu estas palavras.

-- Ouve, minha filha, tu o que deves fazer  olhar para ele como se fosse
seu irmo; vocs cresceram juntos e no se pode amar de outro modo... E
queres ento que te diga? Estes casamentos, forjados assim, entre
companheiros de infncia, nuca provaram bem. Santo de casa no faz
milagre! Eu, em teu caso, ia tratando de atirar as vistas para outro lado...

-- O Fernando ento  um homem sem carter?

-- Sem carter porque, minha filha?

-- Ora, porque! Porque muitas vezes jurou que no se casaria seno
comigo!...

-- Coisas de criana! Hoje naturalmente pensa de outro modo. Talvez at
j tenha noiva escolhida...

-- No, no creio... Se assim fosse, ele seria o primeiro a contar-me tudo
com franqueza! A causa  outra, hei de descobri-la, custe o que custar!

Contudo no se animou a inquirir o noivo.




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Mas, considerava a moa, como acreditar que Fernando descobrisse um
novo namoro, se agora, mais que nunca, nadava metido com os estudos e
no se despregava dos livros!... Onde, pois, teria ido arranjar essa paixo,
se agora no ia  casa de ningum?... Alm disso, as suas tristezas no
pareciam de um namorado; mostravam carter muito mais feio e sombrio.
O fato de pretender casar com outra no seria, de resto, razo para que a
tratasse daquele modo! Era como se a temesse, se receiasse a sua
presena... Dantes segurava-lhe as mos com toda a naturalidade;
afagava-lhe os cabelos; endireitava-lhe o chapu na cabea quando iam
sair juntos; acolchetava-lhe a luva; trazia-lhe livros novos; gostava de
brincar com ela, dizer-lhe tolices por pirraa, para faze-la encavacar;
pregava-lhe sustos tapava-lhe os olhos quando a pilhava de surpresa pelas
costas; pedia-lhe perfumes quando ele no tinha extrato para o leno. E
agora? Agora bastava que ela se aproximasse do Fernando, para este j
estar todo que parecia sobre brasas e, ao primeiro pretexto, fugir e
encerrar-se no quarto, fechado por dentro, s vezes at as escuras. Ora,
estava entrando pelos olhos que tudo isto no podia ser natural... Magd,
pelo menos, nuca tinha visto um namorado de semelhante espcie!

-- Em todo caso, resolva de si para si, ele deu-me a sua palavra de honra
que me pediria a papai to logo se formasse; por conseguinte no posso
ainda queixar-me. Vamos ver primeiro como se sair do compromisso.

E deliberou esperar at o fim do ano.

Entretanto, o Conselheiro, querendo a todo o custo arredar do esprito da
filha a idia de casar com o irmo, pensava em atrair gente  casa, para
ver se despertava nela o desejo de escolher outro noivo. A dificuldade
estava em arranjar as festas; sim, porque, para receber os convidados, s
podia contar, alm de Magd, com a irm, D. Camila. Mas D. Camila era
uma solteirona velha, muito devota, muito esquisita de gnio e sem jeito
nenhum para fazer sala. -- Uma verdadeira "barata de sacristia" como lhe
chamava nas bochechas o despachado do Dr. Lobo, mdico da casa e
amigo particular do Conselheiro.

-- Ora, se Magd tivesse um pouco mais de idade, considerava este,
estaria tudo arranjado. Como, porm, encarregar uma menina de
dezesseis anos de fazer as honras de um baile?

Salvou a situao, pedindo a um seu amigo velho, o Milito de Brito,
homem pobre, casado e pai de trs filhas solteiras j de certa idade, que
fosse e mais a famlia passar algum tempo com ele. -- A casa era grande e
no haviam de ficar de todo mal acomodados.



                                                                         10
Para justificar o pedido, observou que a filha estava na flor da juventude,
precisava distrair-se, e que lhe doa a ele, como pai, traze-la enclausurada
na idade em que todas as moas gostavam de brincar. O Milito, que
tambm era pai, compreendeu a inteno da proposta, aceitou-a de braos
abertos e teve a franqueza de confessar que aquele convite vinha do cu,
porque ele igualmente via as suas raparigas, coitadinhas, muito pouco
divertidas.

Mudou-se pois a famlia de Milito para a casa do Conselheiro e Magd,
adivinhando os planos do pai, sorriu intimamente. Inauguraram-se os
bailes, e os pretendentes no se fizeram esperar. Pudera! Uma menina que
no  pobre, com certa educao, algum esprito, e linda como a filha do
Sr. Conselheiro Pinto Marques, encontra sempre quem a deseje.

O primeiro a apresentar-se foi um tal Martinho de Azevedo, rapaz de vinte
e poucos anos, filho de um cnsul em que em no sei que parte da Europa;
ares de fidalgo; bigode louro e olhos de mulher; no tinha nada de feio; ao
contrrio, chegava a ser impertinente com a sua inaltervel boniteza
risonha; e vestia-se como ningum, graas a alguns anos que passara em
Paris estudando um curso que no chegara a concluir.

Magd esteve quase a desengan-lo, antes mesmo que o sujeito se lhe
declarasse; resolveu, porm, deixar isso ao cuidado do pai, que no se
embirrava menos com ele. Com quem o Conselheiro no embirrou, e
mostrou at simpatizar, foi um certo ministro argentino, levado  sua casa
por um colega que j l se dava; mas este segundo pretendente no foi
feliz que o primeiro, nem que os outros apresentados depois.

Todavia as festas continuavam, e por fim a casa do Conselheiro Pinto
Marques era tida e havida entre a melhor gente como das mais distintas e
bem freqentadas do Rio de Janeiro; e Magd classificada ao lado das
estrelas mais rutilantes do empreo de Botafogo.

Assim se passou o resto do ano.

Ah! com que ansiedade contou a pobre menina os dias que precederam 
formatura do irmo! Como aquele coraozinho palpitou de susto e de
esperana ao lembrar-se de que em breve o seu Fernando, o nico que aos
olhos dela parecia bom, delicado, inteligente e sincero, tinha com uma s
palavra de apagar todas as dvidas que a torturavam, ou destruir-lhe por
uma vez todos os sonhos de ventura.

Sim, porque a filha do Conselheiro, agora nos seus dezessete anos, estava
bem certa de que amava Fernando; mais se convencera dessa verdade


                                                                         11
nesses ltimos tempos em que ele se mostrara indiferente e esquivo. S
agora podia avaliar o bem que lhe faziam aquelas tranqilas palestras que
tantas vezes desfrutara com ele, ora nos bancos da chcara, ora
assentados junta  janela, perto um do outro, ou em volta da pequena
mesa de viex-chne que havia numa saleta ao lado do gabinete do
Conselheiro, e onde ela costumava ler e estudar no bom tempo em que
Fernando se comprazia em dar-lhe lies de preparatrios.

As lies!... Quanto desvelo de parte a parte! Com que gosto ele ensinava
e com que gosto ela aprendia!

Magd, logo ao deixar o colgio das irms de caridade, entrou a estudar
com o irmo, e foi nesse contato espiritual de trs horas dirias que os dois
mais se fizeram um do outro, e mais se amaram, e mais se respeitaram.
Todavia, nesse tempo ela ainda no lhe tinha observado as feies, nem
notado a inteireza de carter nem a delicadeza do gnio; habituara-se a
estim-lo, e aceitava-o quase que pela fatalidade da convivncia ou pela
natureza efetiva do seu prprio temperamento; mas depois, quando teve
ocasio de compar-lo com outros, amou-o por eleio, por entender que
ele era o melhor de todos os homens, o mais digno de preferncia.

Agora, depois daqueles frios meses de retraimento, Fernando parecia-lhe
ainda mais belo e mais desejvel; aquela transformao inesperada foi
como uma dolorosa ausncia em que as boas qualidades do rapaz
ganharam novo prestgio no esprito da irm, assumindo propores
excepcionais. Magd esperava pelo dia da formatura, como se aguardasse
a chegada do noivo; tinha l para si que o seu amado reapareceria ento
como dantes, meigo, comunicativo e amigo de estar ao lado dela. Agora
idolatrava-o; todo o grande empenho do Conselheiro em substitu-lo por
outro apenas conseguia encarec-lo ainda mais, fazendo-o mais desejvel,
mais insubstituvel. Ela j no podia compreender como  que por a se
amavam outros que no eram Fernando; outros que no tinham aquela
mesma barba, aqueles olhos to inteligentes e to doces, aquela mesma
estatura bem conformada, forte sem ser grosseira, aquela boca to limpa,
to bem tratada, que logo se via no poder servir de caminho  mentira ou
a uma palavra feia. E muita coisa, que at ento no lhe notara, agora a
impressionava; a voz, por exemplo, o metal de sua voz, em que havia uma
certa harmonia corajosa; aquela voz velada, discreta, mas muito
inteligvel; uma voz que no chamava a ateno de ningum, mas que
prendia a todo aquele que por qualquer circunstncia a escutava. -- E a cor
do seu rosto? aquele moreno suave, de pele muito fina, em que ia to
bem, o cabelo preto? -- E aquele modo inteligente de sorrir, quando ele
descobria um ridculo noutrem? aquele ar condescendente com que
Fernando ouvia as frioleiras do Martinho de Azevedo ou as bazfias do


                                                                          12
ministro argentino? aquele sorriso inteirio, de alma virgem, onde no
havia o menor vislumbre de inveja a ningum, nem contentamento prprio
por vaidade; aquele sorriso, que ela supunha ser a nica a compreender.

A prpria indiferena de Fernando agora a seduzia e namorava; achava-o
por isso mesmo fora do vulgar dos outros homens um pouco misterioso,
como que guardando no fundo do corao alguma coisa muito superior,
muito excelente, que ele no queria expor s vistas dos profanos e s
pertenceria quela que escolhesse para inseparvel companheira de sua
vida.

Ah, Magd contava que aquele segredo ainda seria tambm o seu; sua
alma estava aberta de par em par e no se fecharia enquanto no
houvesse recolhido todo o contedo daquele corao misterioso; s se
fecharia para melhor guardar em depsito as gemas preciosssimas que
dentro de sua alma despejasse a alma do seu amado. -- Oh, quanto no
seria bom ser a esposa daquele homem, ser a sua criatura, ser a
testemunha de todos os seus instantes! E ainda lhe passara pela mente a
hiptese de uma traio por parte dele!... Mas onde tinha ento a
cabea?... Pois Fernando l seria capaz algum dia de dizer uma coisa e
fazer outra?... Pois ela no via logo o modo pelo qual nos bailes de seu pai
todas as moas solteiras procuravam request-lo, sem nada conseguir,
nem mesmo alterar-lhe aquela fria abstrao de homem superior?... Oh,
sim, sim! a nica que ele queria, a nica que ele amava, era ela ainda e
sempre! Tudo lho dizia: tudo lho confirmava! Nem podia ser que tamanho
sentimento continuasse a crescer e aprofundar-se no seu corao de
donzela, se, do fundo da aparente indiferena de Fernando no viesse um
raio de calor manter-lhe a vida!

Amparando-se nestes raciocnios, Magd viu chegar a vspera da
formatura, quase tranqila de todo. Nesse dia recolheu-se mais cedo que
de costume; ajoelhou-se diante de um crucifixo de marfim, herdado de sua
me, e do qual nunca se separara, e rezou, rezou muito, pedindo ao pai do
cu, pelas chagas do seu divino corpo, que a protegesse e fizesse feliz.
Falou-lhe em voz baixa e amiga, segredando-lhe ternuras e confidncias,
como se se dirigisse a um velho camarada de infncia, bonacheiro, que a
tivesse trazido ao colo em pequenina e que ainda se babasse de amores
por ela. E contou-lhe o quanto adorava o seu Fernando e quanto precisava
de casar com ele. -- Deus no havia de ser to mau que, s para
contrari-la, estorvasse aquela unio!...

No dia seguinte Fernando estava formado e a casa do Conselheiro toda em
preparos de festa; Magd que havia muito no se animava a dirigir-lhe
palavra, foi ter com ele e, depois de lhe dar os parabns, interrogou-o com


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um olhar cheio de ansiedade. O moo fez que no entendeu, mas ficou
perturbado.

-- Ento! disse Magd.-- Ento o que, minha amiguinha?

-- Pois no ests formado afinal?

-- E da?

-- Da  que havamos combinado que me pedirias hoje em casamento...

Fernando perturbou-se mais.

-- Ainda pensavas nisso?... gaguejou por fim, em nimo de encar-la. E
acrescentou depois, percebendo que ela no se mexia: -- Parto daqui a
dias para a Europa e no sei quando voltarei...

Magd sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo, um punho de ferro tomar-
lhe a boca do estmago e subir-lhe at a garganta, sufocando-a .

-- Bem!

E no pode dizer mais nada, virou-lhe as costas e afastou-se de carreira,
como se levasse consigo uma bomba acesa e no quisesse v-la rebentar
ali mesmo.

-- Ouve, Magd! Espera.

Ela havia alcanado j o quarto; atirou-se  cama. E a bomba estourou,
sacudindo-a toda, convulsivamente, numa descarga de soluos que se
tornavam progressivamente mais rpidos e mais fortes,  semelhana do
ansioso arfar de uma locomotiva ao partir.



III

Terminada a crise dos soluos, Magd sentiu uma estranha energia
apoderar-se dela; uma necessidade de reao; andar, correr, fazer muito
exerccio; mas ao mesmo tempo no se achava com nimo de largar a
cama. Era uma vontade que se lhe no comunicava aos membros do
corpo. Ergueu-se, afinal, mandou chamar o pai, e este no se fez esperar.
Ia plido e acabrunhado;  que estivera conversando antes com o filho a
respeito do ocorrido. A notcia do procedimento de Magd fulminara-o;



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supunha-a j de todo esquecida dos seus projetos de casamento com o
irmo e agora se arrependia de no haver dado as providncias para que
este se apartasse dela; sentia-se muito culpado em ter sido o prprio a
det-lo em casa, e doa-lhe a conscincia fazer sofrer daquele modo a
pobre menina. No entanto, quando o rapaz lhe pediu licena para confessar
a verdade  irm, negou-a a p firme, aterrado com a idia de ter de corar
diante da filha. -- No! Tudo, menos isso!

Fernando protestou as suas razes contra tal egosmo: no era justo que
se expatriasse amaldioado por uma pessoa a quem tanto estremecia, sem
ter cometido o menor delito para merecer tamanho castigo. Ah! se o pai
tivesse visto com que profunda indignao, com que dio, com que nojo,
ela o havia encarado!...

-- No! nunca! Que se poderia esperar de uma filha, que recebesse do
prprio pai semelhante exemplo de imoralidade?...

Foi nessa ocasio que o criado o interrompeu com o chamado de Magd. O
Conselheiro, quando chegou junto dela, sentiu-se ainda mais comovido:
"No seria tudo aquilo um crime maior do que os seus passados amores
com a me de Fernando?... Sim; estes ao menos no se baseavam em
preconceitos e vaidades, baseavam-se nos instintos e na ternura". E o
msero, atordoado com estas idias, tomou as mos da filha, falhou-lhe
com humildade perguntou-lhe com muito carinho o que ela sentia.

-- Quase nada! Um simples abalo... J no tinha coisa alguma...

E tremia toda.

-- Queres que mande buscar o Dr. Lobo? Estou te achando o corpo
esquentado.

-- No, no vale a pena; isto no  nada. Eu chamei-o papai, para lhe
pedir um obsquio...

-- Um obsquio? Fala, minha filha.

-- Pedir um obsquio e fazer-lhe uma declarao...

E, brincando com os botes da sobrecasaca do Conselheiro: -- Sabe? Estou
resolvida a casar com o Martinho de Azevedo; desejava que meu pai lhe
mandasse comunicar imediatamente esta minha deliberao...

-- Temos tolice!...


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-- E queria que o casamento se realizasse antes da partida do Fernando...

-- Ests louca?

-- Se estiver, tanto pior para mim. Afiano-lhe que hei de fazer o que
estou dizendo!

-- No sejas vingativa, minha filha; Fernando contou-me o que se passou
entre vocs dois, disse0me tudo, e eu juro pela memria de tua me que o
procedimento dele no podia ser outro... Foi correto, fez o seu dever!

-- O seu dever? Tem graa!

-- Mais tarde vers que digo a verdade; o que desde j posso afirmar 
que o pobre rapaz no tem absolutamente a menor culpa em tudo isto.
No o deves ver com maus lhos, nem lhe deves retirar a tua confiana e a
tua estima...

-- Mas fale por uma vez! No v que as suas meias palavras me pem
doida?...

-- No posso;  bastante que acredites em mim; eu juro-te que Fernando,
negando-se a casar contigo, cumpre o seu dever. Vou cham-lo e quero
que...

-- No, no! atalhou a filha, segurando-lhe os braos. -- Ele que no me
aparea! Que no me fale! Detesto-o!

-- No acreditas em teu pai!...

-- No sei; acredito  que entre o senhor e ele h uma conspirao contra
mim! Querem engodar-me com mistrios que no existem, como se eu
fosse alguma criana! Ah! mas eu mostrarei que no sou o que pensam!

-- Ento, minha filha, ento!

-- Creio que j disse bem claro qual  a minha resoluo a respeito de
casamento, e agora s me convm saber se meu pai est ou no disposto
a tratar disso!

-- No digo que no, mas para que fazer as coisas to precipitadamente?...

O velho sentia o suor gelar-lhe o corpo.




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-- Custe o que custar, eu me casarei antes da partida daquele miservel!
Se meu pai no fizer o que eu disse, o escndalo ser maior! Ao menos
falo com esta franqueza -- No tenho "mistrios"!

Ela havia-se desprendido das mos do Conselheiro e passeava agora pelo
quarto, muito agitada, com as faces em fogo, os lbios secos e os olhos
ainda midos das ltimas lgrimas. E em todos os seus movimentos
nervosos, em todos os seus gestos, sentia-se uma resoluo enrgica,
altiva e orgulhosa.

-- No h outro remdio! Pensou o velho, limpando a fronte orvalhada e
fria da neve, no h outro remdio!

E aproximou-se da filha, para lhe dizer quase em segredo, com a voz
estrangulada pela vergonha:

-- Fernando no se casa contigo, porque  teu irmo...

Magd retraiu-se toda, como se lhe tivesse passado por diante dos olhos
uma fasca eltrica, e fitou-os sobre o pai, que abaixou a cabea num
angustioso resfolegar de delinqente.

-- Ora a tens... balbuciou ele, depois de uma pausa, durante a qual s se
ouviam os soluos de Magd que se lhe havia atirado nos braos. -- J vs
que aqui o nico culpado sou eu; nunca devia ter consentido que vocs se
criassem juntos, sem lhes ter exposto a verdade. Tua me ignorou sempre
que Fernando fosse meu filho...

-- V ter com ele... pediu Magd chorando. -- Que me perdoe! Que me
perdoe! Diga-lhe que eu no sabia de nada, e que sou muito desgraada!

Quando o Conselheiro saiu do quarto, ela tornou  cama, e da a pouco
delirava com febre.

Transferiu-se a festa; mandou-se chamar logo o Dr. Lobo, que receitou;
e, s  tarde do dia seguinte, a enferma deu acordo de si, depois de um
sono profundo que durou muitas horas.

Despertou tranqila, um pouco abstrata. -- Tinha sonhado tanto!...

Levou um bom espao a cismar, por fim soltou um profundo suspiro
resignado e pediu que conduzissem o irmo  sua presena. Ele foi logo,
acompanhado pelo Conselheiro, e assentou-se, sem dizer palavra, numa
cadeira ao lado da cabeceira da cama. Magd tomou-lhe as mos em


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silncio, beijou-las repetidas vezes, e em seguida levou uma delas ao rosto
e ficou assim por algum tempo, a descansar a cabea contra a palma da
mo de Fernando. Como por encanto, a sua meiguice havia se
transformado da noite para o dia: j no eram de noiva os seus carinhos,
mas perfeitamente de irm. No por isso menos expansivos, antes parecia
agora muito mais em liberdade com ele; pelo menos nunca lhe havia
tomado as mos daquele modo. Ainda fez mais depois: pousou a face
contra o seu colo e cingiu-lhe o brao em volta da cintura.

-- E eu que cheguei a supor que eras um homem mau!... balbuciou, com
uma voz to arrependida, to humilde e to meiga, que o rapaz a apertou
contra o seio e deu-lhe um beijo no alto da cabea.

Magd estremeceu todo, teve um novo suspiro, e deixou-se cair sobre os
travesseiros, com os olhos fechados e a boca entreaberta. Chorava.

-- Ento, agora esto feitas as pazes?... perguntou o Conselheiro, alisando
com os dedos o cabelo da filha.

Esta ergueu as plpebras vagarosamente e deu em resposta um sorriso
sofredor e triste.

-- E ainda pensas no Martinho de Azevedo?... interrogou o velho, afetando
bom humor.

Ela voltou seu sorriso para Fernando, como lhe pedindo perdo daquela
vingana to tola e to imerecida.

Todo o resto desse dia se passou assim, sem uma nuvem que o toldasse; a
paz era completa, pelo menos na aparncia. Magd no se queixava de
coisa alguma. O Dr. Lobo, quando foi  noite, encontrou-a de p, muito
esperta, conversando com a gente de Brito. O mdico desta vez olhou para
a rapariga com mais ateno e fez-lhe um cmulo de perguntas  queima-
roupa: -- Se era muito impressionvel; se era sujeita a enxaquecas e
dores de cabea; o que costumava comer ao almoo e ao jantar; se tinha
bom apetite; se usava o espartilho muito apertado; desde que idade
freqentava os bailes; se as suas funes intestinais eram bem reguladas;
e, como estas, outras e outras perguntas, a que Magd respondia por
comprazer, afinal j importunada.

Ela sempre embirrara com o Dr. Lobo; tinha-lhe velha antipatia; achava-o
sistematicamente grosseiro, rude, abusando da sua grande nomeada de
primeiro cirurgio do Brasil, maltratando os seus doentes, cobrando-lhes



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um despropsito pelas visitas, a ponto de fazer supor que metia na conta
as descomposturas que lhes passava.

-- A senhora tem tido muitos namorados? interrompeu ele, depois de
estudar, medindo-a de alto a baixo, por cima dos culos.

Magd sentiu venetas de virar-lhe as costas e retirar-se.

-- No ouviu? Pergunto se tem tido muitos namorados!

-- No sei!

E ela afastou-se, enquanto o cirurgio resmungava:

-- Que diabo! Para que ento me fazem vir c?...

Ia j a sair, quando o Conselheiro foi ter com ele:

-- Ento?

-- No  coisa de cuidado; um abalo nervoso. Que idade tem ela?

-- Dezessete anos.

-- ...! mas no convm que esta menina deixe o casamento para muito
tarde. Noto-lhe uma perigosa exaltao nervosa que, uma vez agravada,
por interessar-lhe os rgo enceflicos e degenerar em histeria...

-- Mas, doutor, ela parece to bem conformada, to...

-- Por isso mesmo. Ah! Eu leio um pouco pela cartilha antiga. Quanto
melhor for a sua compleio muscular, tanto mais deve ser atendida, sob
pena de sentir-se irritada e esbravejar por'a, que nem o diabo dar jeito!
E adeus. Passe bem!

Mas voltou para perguntar: -- E a barata velha, como vai?

-- Minha irm...? ao mesmo, coitada! Enfermidades crnicas...

-- Ela que v continuando com as colheradas de azeite todas as manhs e
que no abandone os clisteres. Hei de v-la, noutra ocasio; hoje no
tenho mais tempo. Adeus, adeus!




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E saiu com os seus movimentos de carniceiro, resmungando ao entrar no
carro:

-- No tratam da vida enquanto so moas e agora, depois de velhas, o
mdico que as ature! Scia! No prestam p'ra nada! nem p'ra parir!

A festa de Fernando realizou-se na vspera da sua partida. Magd nuca
pareceu to alegre nem to bem disposta de sade; ps um vestido de
cassa cor-de-rosa, todo enfeitado de margaridas, deixando ver em
transparncia a ebrnea riqueza do colo e dos braos.

Estava fascinadora: toda ela era graa, beleza e esprito; causou delrios de
admirao. Nessa noite danou muito, cantou e, durante o baile inteiro,
mostrou-se para com Fernando de uma solicitude, em que no se percebia
a menor sombra de ressentimento; dir-se-ia at que estimava haver
descoberto que era sua irm. Conversaram muito; ela contou-lhe, ora
rindo, ora falando a srio, as declaraes de amor que recebera; citou
nomes, apontou indivduos, pediu-lhe conselhos sobre a hiptese de uma
escolha e declarou, mais de uma vez, que estava resolvida a casar.

No dia seguinte apresentaram-se alguns amigos para o bota-fora. Magd
foi  bordo, chorou, mas no fez escarcu; em casa compareceu ao jantar,
comeu regularmente e at a ocasio de se recolher falou repetidas vezes
do irmo, sem patentear nunca na sua tristeza desesperos de viva, nem
alucinaes de mulher abandonada.

S dois meses depois foi que notaram que estava tanto mais magra e um
tanto mais plida; e assim tambm que o seu riso ia perdendo todos os
dias certa frescura sangunea, que dantes lhe alegrava o rosto, e tomando
aos poucos uma fria expresso de inexplicvel cansao.

Alguns meses mais, e o que havia de menina desapareceu de todo, par s
ficar a mulher. Fazia-se ento muito grave, muito senhora, sem todavia
parecer triste, nem contrariada; as amigas iam v-la com freqncia e
encontravam-na sempre em boa disposio para dar um passeio pela
praia, ou para fazer msica, danar, cantar; tudo isto, porm, sem o
menor entusiasmo, friamente, como quem cumpre um dever. Vieram-lhe
depois intermitncias de tdio; tinha dias de muito bom humor e outros em
que ficava impertinente ao ponto de irritar-se coma menor contrariedade.
No obstante, continuava a ser admirada, querida e invejada, graas ao
seu inaltervel bom gosto,  sua altiva de procedimento e  sua
aristocrtica beleza. O pai votava-lhe j essa reverente considerao, que
nos inspiram certas damas, cuja pureza de hbitos e extrema correo nos
costumes se tornam lendrias entre os grupos com que convivem; tanto


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assim que, vendo o Milito forado a retirar-se com a famlia par uma
fazenda que ia administrar, o Conselheiro no os substituiu por ningum, e
a casa ficou entregue a Magd.

Quanto  sade -- assim, assim... s vezes passava muito bem semanas
inteiras; outras vezes ficava aborrecida, triste, sem apetite; apareciam-lhe
nevralgias, acompanhadas de grande sobreexcitao nervosa. Ento,
qualquer objeto ou qualquer fato repugnante indispunha-a de um modo
singular; no podia ver sanguessugas ,rs, morcegos ,aranhas; o
movimento vermicular de certos rpteis causava-lhe arrepios de febre; se
 noite no estando acompanhada, encontrava um gato em qualquer parte
da casa, tinha um choque eltrico, perfeitamente eltrico, e no podia mais
dormir to cedo.

Uma madrugada, em que a tia foi acometida de clicas horrorosas e
sobressaltou a famlia com os seus gritos, Magd sofreu tamanho abalo
que, durante dois dias, pareceu louca. Desde essa poca principiou a sofrer
de uma dores de cabea, que lhe produziam no ato do crnio, que ora a
impresso de uma pedra de gelo, ora a de um ferro em brasa.

Agora tambm o barulho lhe fazia mal aos nervos: ouvindo msica
desafinada, sentia-se logo inquieta e apreensiva; o mesmo fenmeno se
dava com o aroma ativo de certas flores e de certos extratos: o sndalo,
por exemplo, quebrantava-lhe o corpo; o perfume da magnlia
enfreneziava-a; o almscar produzia-lhe nuseas. Ainda outros cheiros a
incomodavam: o fartum que se exala da terra quando chove depois de
uma grande soalheira, o fedor do cavalo suado, o de certos remdios
preparados com pio, mercrio, clorofrmio; tudo isto agora lhe fazia mal,
porm de um modo to vago, que ela muita vez sentia-se indisposta e no
atinava porque.

Notava-se-lhe tambm certa alterao nos gostos com respeito  comida;
preferia agora os alimentos fracos e muito adubados; tinha predilees
esquisitas; voltava-se toda para a cozinha francesa; gostava mais de
acar, mas queria o ch e o caf bem amargos

As cartas de Fernando no a alteraram absolutamente; a primeira,
entretanto, fora recebida com exclamaes de contentamento. Ele dizia-se
feliz e divertido, apoquentamento apenas pelas saudades da famlia. Magd
escrevia-lhe de irm para irmo, afetando muita tranqilidade, procurando
fazer pilhria, citando anedotas, dando-lhe notcias do Rio de Janeiro,
falando em teatros e cantores.

E assinava sempre "Tua irmzinha que te estremece -- Madalena".


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IV



Decorreu uma no. O incidente romanesco do namoro entre os dois irmos
ia caindo no rol das puerilidades da infncia; Magd se lembrava dele com
um criterioso sorriso de indulgncia.

-- Criancices! criancices!

Agora, no seu todo de senhora refeita, com as suas intransigncias de
dona de casa, com as suas preocupaes de economia domstica, ela
estava a pedir um marido prtico, um homem de boa posio, que lhe
trouxesse tanto ou mais prestgio que o pai; mesmo porque este,
ultimamente, e s por causa dela, havia-se alargado um pouco mais com
aquelas festas e comeava a sentir necessidade de apertar os cordis da
bolsa.

No  brincadeira dar um baile por ms!

Foi essa a sua poca mais fecunda em pretendentes; apareceram-lhe de
todos os matizes, desde o pingue senador do imprio, at o escaveirado
amanuense de secretaria; concorreram negociantes, capitalistas e doutores
de vria espcie. Ela, porm, como se estivesse brincando a "Cortina de
amor" em jogo de prendas, no entregou o leno a nenhum. No os repelia
com denodo, antes tinha sempre para cada qual um sorriso amvel; mas
-- repelia-os.

Todavia, de vez em quando, lhe vinham reaes. -- Precisava acabar com
aquilo de uma vez, decidir-se por algum. E fazia ntimos protestos de
resoluo, e empregava todos os esforos para se agradar deste ou
daquele que lhe parecia prefervel; mas na ocasio de dar o "Sim"
hesitava, torcia todo o corpo, e afinal no se dispunha por ningum.

Ah! Magd sabia claramente que era preciso tomar uma resoluo! bem
parecia que o pai, coitado, j estava fazendo das fraquezas foras e morto
por v-la encaminhada; alm disso, o Dr. Lobo, com aquela brutalidade
que todos lhe perdoavam, como se ele fosse um privilgio, por mais de
uma vez lhe dissera: " preciso no passar dos vinte anos que depois
quem tem de agentar com as maadas sou eu! compreende?"




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Sim, ela compreendia, compreendia perfeitamente. -- Mas por ventura
teria culpa de estar solteira ainda? Que havia de fazer, se entre toda
aquela gente, que o pai lhe metia pelos olhos, nenhum s homem lhe
inspirava bastante confiana? -- No era uma questo de amor, era uma
questo de no fazer asneira! L iluses a esse respeito, isso no tinha;
sabia de antemo que no encontraria nenhum amante extremoso e
apaixonado; no sonhava nenhum heri de romance. -- A poca dessas
tolices j l se havia ido para sempre; sabia muito bem que o casamento
naquelas condies, era uma questo de interesse de parte a parte,
interesses positivos, nos quais o sentimento no tinha que intervir; sabia
que no crculo hipcrita das suas relaes todos os maridos eram mais ou
menos ruins; que no havia um perfeitamente bom. -- De acordo! mas
queria dos males o menor!

Casava-se, pois no! estava disposta a isso, e at compreendia e sentia
melhor que ningum o quanto precisava, por convenincia mesmo da sua
prpria sade, arrancar-se daquele estado de solteira que j se ia
prolongando por demais. Estava disposta a casar, que dvida! Mas
tambm no queria fazer alguma irreparvel doidice, que tivesse de
amargar em todo o resto da sua vida... Nem se julgava nenhuma criana,
para no saber o que lhe convinha e o que no lhe convinha! Enfim, a sua
inteno era, como se diz em gria de boa sociedade: "Casar bem".

Sim! uma vez que o casamento era arranjado daquele modo; uma vez que
tinha de escolher friamente um homem, a quem se havia de entregar por
conveno, queria ao menos escolher um dos menos difceis de aturar; um
homem de gnio suportvel, com um pouco de mocidade e uma fortuna
decente.

Bastava-lhe isto!

Nada, porm, de se decidir, e o tempo a correr! Os vinte anos vieram
encontr-la sem noivo escolhido; o pai principiava a inquietar-se, e o Dr.
Lobo a dizer-lhe: "Olhe l, meu amigo,  bom no facilitar!  bom no
facilitar!...

"Que injustia! o pobre Conselheiro no facilitava; no fazia mesmo outra
coisa seno andar por a arrebanhando para a sua casa todo homem que
lhe parecia apto para casar com a filha; e tanto, que a roda dos seus
amigos crescia largamente, e as suas festas amiudavam-se, e suas
despesas reproduziam-se.

Uma notcia m veio, porm, enlutar a casa e fechar-lhe as portas por
algum tempo -- a morte de Fernando. O rapaz nas ltimas cartas j se


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queixava da sade; dizia que andava  procura de ares mais convenientes
aos seus brnquios. Fugira da Alemanha para a Frana, de Frana para a
Itlia, desta para a Espanha, e fora morrer, afinal, em Portugal.

O Conselheiro ficou fulminado com a notcia, aparentemente mais sentido
do quem a prpria Magd. Esta recebeu-a como se j a esperasse:
saltaram-lhe as lgrimas dos olhos, mas no teve um grito, uma
exclamao, um gemido; apenas ficou muito apreensiva, aterrada, com
medo do escuro e da solido. Durante noites seguidas foi perseguida por
terrveis pesadelos, nos quais o morto representava sempre o principal
papel, mas, durante o dia, no tinha uma palavra com referncia a ele.

No obstante, duas semanas depois, passeando na chcara, viu pular
diante de si um sapo; e foi o bastante para que explodisse a reao dos
nervos. Estremeceu com um grande abalo, soltou um grito agudo e sentiu
logo na boca do estmago uma presso violenta. Era a primeira vez que
lhe dava isto; acudiram-na e carregaram-na para o quarto. Ela, porm,
no sossegava; o peso do estmago como que se enovelava e subia-lhe
por dentro at a garganta, sufocando-a num desabrido estrangulante.
Esteve assim um pouco; afinal perdeu os sentidos e comeou a espolinhar-
se na cama, em convulses que duraram quase uma hora.

Tornou a si nos braos das amigas da vizinhana, atradas ali pelos
formidveis gritos que ela soltava. O pai e o Dr. Lobo tambm estavam a
seu lado; o doutor, muito expedito, com os culos na ponta do nariz,
suando, rabujava enquanto a socorria:

-- Que dizia eu? Ora a tem!  bem feito! Acho ainda pouco! Quem corre
por seu gosto no cansa! Se fizessem o que recomendei, nada disso
sucederia! Agora o mdico que a ature!...

E, voltando-se para   uma das vizinhas que, por ficar muito perto dele, lhe
estorvava s vezes    o movimento do brao, exclamou com arremesso: --
Saia da! Tambm      no sei o que tem a cheirar c! Melhor seria que
estivessem em casa    cuidando das obrigaes!

-- Cruzes! disse a moa, fugindo do quarto. -- Que bruto! Deus te livre!

Por esse tempo Magd era acometida por uma exploso de soluos, e
chorava copiosamente, o peito muito oprimido.

-- Ora at que enfim! Rosnou o doutor. E, erguendo-se, soprou para o
Conselheiro, a descer as mangas da camisa e da sobrecasaca, que havia
arregaado: -- Pronto! Estes soluos continuaro ainda por algum tempo, e


                                                                           24
depois ela sossegar. Naturalmente h de dormir. O que lhe pode aparecer
 a cefalalgia...

-- Como?

-- Dores de cabea. Mas para isso voc lhe dar o remdio que vou
receitar.

E saram juntos para ir ao escritrio.

--  o diabo!... praguejava entre dentes o brutalho, enquanto atravessava
o corredor ao lado do Conselheiro, enfiando s pressas o seu inseparvel
sobretudo de casimira alvadia. --  o diabo! Esta menina j devia ter
casado!

-- Disso sei eu... balbuciou o outro. -- E no  por falta de esforos de
minha parte, creia!

-- Diabo! Faz lstima que um organismo to rico e to bom para procriar,
se sacrifique deste modo! Enfim -- ainda no  tarde; mas se ela no casar
quanto antes -- um um! No respondo pelo resto!

-- Ento o doutor acha que... ?

O Lobo inflamou-se: Oh o Conselheiro no podia imaginar o que eram
aqueles temperamentozinhos impressionveis!... eram terrveis, eram
violentos, quando algum tentava contrari-los! No pediam -- exigiam! --
reclamavam!

-- E se no lhes d o que reclamam, prosseguiu, -- aniquilam-se,
estrangulam-se, como lees atacados de clera!  perigoso brincar com a
fera que principia a despertar... O monstro j deu sinal de si; e, pelo
primeiro berro, voc bem pode calcular o que no ser quando estiver
deveras assanhado!

-- Valha-me Deus! suspirou o pobre Conselheiro, que eu hei de fazer, no
diro?

-- Ora essa! Pois j no lhe disse!  casar a rapariga quanto antes!

-- Mas com quem?




                                                                        25
-- Seja l com quem for! O tero, conforme Plato,  uma besta que quer
a todo custo conceber no momento oportuno; se lho no permitem --
dana! Ora a tem!

-- No! Alto l! isso no! A histeria pode ter vrias causas, nem sempre 
produzida pela abstinncia; seria asneira sustentar o contrrio. Convenho
mesmo com alguns mdicos modernos em que ela nada mais seja do que
uma nevrose do encfalo e no estabelea a sua sede nos rgos genitais,
como queriam os antigos; mas isso que tem a ver com o nosso caso? Aqui
no se trata de curar uma histrica, trata-se de evitar a histeria. Ora, sua
filha  uma delicadssima sensibilidade nervosa; acaba de sofrer um
formidvel abalo com a morte de uma pessoa que ela estremecia muito;
est, por conseguinte, sob o domnio de uma impresso violenta; pois o
que convm agora  evitar que esta impresso permanea, que avulte e
degenere em histeria; compreende voc? Para isso  preciso, antes de
mais nada, que ela contente e traga em perfeito equilbrio certos rgos,
cuja exacerbao iria alterar fatalmente o seu sistema psquico; e, como o
casamento  indispensvel quele equilbrio, eu fao grande questo do
casamento.

-- De acordo, mas...

-- Casamento  um modo de dizer, eu fao questo  do coito! -- Ela
precisa de homem! -- Ora a tem voc!

O Conselheiro suspirou com fora, coou a cabea. Os dois penetraram no
gabinete, e se o doutor, depois de escrever a sua receita, acrescentou,
como se no tivesse interrompido a conversa: -- Noutras circunstncias,
sua filha no sofreria tanto... nada disso teria at conseqncias perigosas;
mas, impressionvel como , com a educao religiosa que teve. E com
aquele caraterzinho orgulhoso e cheio de intransigncias, se no casar
quanto antes, ir padecer muito; ir vive em luta aberta consigo mesma!

-- Em luta? Como assim, doutor?

-- Ora! A luta da matria que impe e da vontade que resiste; a luta que
se trava sempre que o corpo reclama com direito a satisfao de qualquer
necessidade, e a razo ope-se a isso, porque no quer ir de encontro a
certos preceitos sociais. Estupidez humana! Imagine que voc tem uma
fome de trs dias e que, para comer, s dispes de um meio -- roubar!
Que faria neste caso?

-- No sei, mas com certeza no roubava...



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-- Ento -- morria de fome... Todavia um homem, de moral mais fcil que
a sua no morreria, porque roubava... Compreende? _Pois a tem!



V

Depois do ataque, Magd sentiu um grande quebramento de corpo e
pontadas na cabea. O Conselheiro, quando a viu em estado de conversar,
falou-lhe com delicadeza a respeito de casamento, apresentando-lhe as
doutrinas do Dr. Lobo, vestidas agora de um modo mais conveniente.

-- Mas eu estou de acordo! repontou ela, estou perfeitamente de acordo! A
questo  haver um noivo! Eu no posso casar sem um noivo!

-- Tens rejeitado tantos!

-- Porque no me convinha nenhum dos que me apresentaram; hoje,
porm, estou resolvida a ser mais fcil de contentar, e creio que me
casarei.

-- Ainda bem, minha filha, ainda bem!

E abriram-se de novo as salas do Sr. Conselheiro, e comearam de novo as
festas, e de novo comeou aquela canseira de arranjar um -- marido.

E espalhem-se convites para todos os lados! E corre a gente  confeitaria e
aos armazns de bebidas! E contrate-se orquestra! E chama-se a
costureira! E ature-se o cabeleireiro! -- Que maada! Que insuportvel
maada!

Entre os novos arrebanhados, apareceu o Sr. Comendador Jos Furtado da
Rocha, velhote bem disposto, orando pelos cinqenta, mas dando tinta ao
cabelo e escanhoando-se com muita perfeio. Era portugus, e havia-se
opulentado no comrcio, onde principiara brunindo pesos e balanas.
Magd aceitou-lhe a corte quase por brincadeira, a rir; ou talvez para no
contrariar o pai, que se mostrava muito afeioado por ele; ou, quem sabe?
talvez ainda na esperana de ver surgir de um momento para outro novo
pretendente.

O velho parecia ador-la e falava, com meias palavras e sorrisos de
misteriosa inteno, em arranjar ttulos, deixar palcio, correr a Europa
inteira e comprar objetos de arte.




                                                                        27
Um ajo! Mas, quando o Conselheiro, em nome do amigo, perguntou  filha
se estava resolvida a casar com ele, Magd sorriu, espreguiou-se e, afinal,
para no deixar o pai sem resposta, tartamudeou:

-- No digo que no, mas... sabe?...  cedo para decidir... Havemos de
ver! havemos de ver!...

Trs meses depois, o Comendador, j desenganado, casava-se em So
Paulo com uma viva ainda moa, professora de piano.

Apresentou-se ento, solicitando a mo de Magd, p Dr. Tolentino. No
tinha a metade do dinheiro do outro, mas em compensao era muito mais
novo. Muito mais! E com um belo prestgio de homem de talento e um
futuro na advocacia, se os seus pulmes lho permitissem.

Sim senhor, porque o Dr. Tolentino no gozava boa sade. Era ainda
jovem e parecia velho; extremamente magro, vergado, um pouco giboso,
olhos fundos, faces cavadas, cabelo pobre e uma tosse de a cada instante.
Todo ele respirava longas noites de estudo, sobre grossos livros de direito
ou defronte das carunchosas pilhas dos autos; todo ele estava a pedir, com
seu magro pescocinho, um longo cache-nez bem quente, e as suas mos,
extensas e magras, queriam luvas de l; e os seus ps, longos e
espalmados, exigiam sapatos de borracha. No produzia l muito bom
efeito o v-lo assim desmalmado, muito comprido dentro da sua
sobrecasaca abotoada de cima a baixo, olhando tristemente para a vida
por detrs dos seus culos de mope.

Muito bom efeito -- no, no produzia; mas tambm no produzia muito
mau, graas  delicadeza dos seus gestos e  expresso inteligente do seu
rosto cor de palha de milho. Cheirava a doena; mas, palavra de honra,
falava que nem o Jos Bonifcio.

No! definitivamente merecia a fama de homem ilustre!

O seu namoro  filha do Conselheiro foi calmo, correto e persistente.
Porm intil: Magd, depois de muita negaa, muita hesitao e muito
constrangimento, resolveu no o aceitar.

J l se ia entretanto quase que meio ano depois do primeiro ataque, e ela
comeava a torcer o nariz  comida, a fazer-se mais magra, mais irritvel e
mais sujeita a sobressaltos nervosos.

Abatia.




                                                                         28
O drama, a msica triste, o romance amoroso, provocavam-lhe agora um
choro, que principiava pelas simples lgrimas e acabava sempre em
convulsivos. Ao depois -- a estavam as pontadas no alto da cabea, o
embrulhamento do estmago, os terrores infundados, o exagero de todos
os seus atos e em estranho desassossego do corpo e do esprito, que a
fazia andar inquieta por toda a casa sem parar trs segundos no mesmo
ponto.

-- Temo-la travada! Exclamava o seu mdico; at que, uma ocasio,
avanando furioso de punho fechado contra o Conselheiro, gritou-lhe,
cerrando os dentes e arreganhando-os: -- Que diabo, homem! casa esta
pobre rapariga, seja l com quem for!

--  boa! Respondeu o outro! -- Ainda mais esta!... Pois voc acha que, se
houvesse aparecido com quem, eu j no a teria casado?

-- Ora o que, meu amigo! As minhas observaes no me enganam: ela
tem qualquer amor contrariado, que no me confessa; e voc com certeza
sabe de tudo e cala o bico por convenincia...  que para o sujeito,
naturalmente,  um tipo sem eira nem beira!... Ah! Eu compreendo estas
coisas... mas, em todo o caso, fique sabendo para o seu governo que voc
est mas  preparando uma doida de primeira ordem! Ora a tem!

O Conselheiro deu a sua palavra que no sabia de nada, e afirmou em boa
f que a filha no tinha namoro oculto, nem claro; se o tivera, j ele o
houvera descoberto.

-- Pois se no tem,  preciso arranj-lo e arranj-lo j!

Surgiu ento o Conde do Valado.

Trinta a trinta e cinco anos. Elegante, louro, meio calvo, barba rente
espetando no queixo em duas pontas de saca-rolha; olho azul, monculo, o
esquerdo sempre fechado; uma ferradura de ouro guarnecida de
pequeninos brilhantes, na gravata, que tambm era toda sarapintada de
ferraduras; luvas de pele da Sucia com trs risces negros em cima;
sapatos ingleses, mostrando meias de cor, onde havia ainda pequenas
ferraduras bordadas a seda.

Este, quanto ao chamado vil metal, no tinha nem pouco, nem muito; era
pobre, pobre como o pas onde nascera; mas descendia em linha reta de
uma famlia portuguesa muito ilustre pelo sangue, e em cujos primeiros
galhos at prncipes se apontavam. Vivia a custa de um cavalo igualmente
puro no sangue e na raa, com o qual apostava no Prado. De resto --


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falava ingls, fumava cigarrilhos de Havana, bebia cerveja como qualquer
doutor formado na Alemanha e tinha o distintssimo talento de encher
cinco horas s a tratar de jquei-clube.

Magd ficou muito impressionada quando o viu pela primeira vez passar a
meio trote na praia de Botafogo fazendo corcovear  rdea tosa um alazo
do Moreaux. Achou-o irresistvel de botas de verniz, elegantemente
enrugadas sobre o tornozelo, calo de flanela branca abotoado na parte
exterior da coxa, jaleco de pelcia cor de pinho com passamantes e
botes de prata, chapu alto de castor cinzento e luvas de camura. Por
muitos dias conservou no ouvido o eco daquele estalar metdico e
compassado, que as patas do animal feriam no calamento da rua. E, em
famlia, tanto e com tamanha insistncia falou do tal conde, que o pai, mau
grado as informaes contrrias que obtivera a respeito dele, deu
providncias para o atrair  sua casa.

Foi uma corte sem trguas a do Valado. Perseguia Magd por toda a parte;
passava-lhe a cavalo pela porta todos os dias; convidava-a para todas as
valsas; fazia-lhe declaraes de amor em todas as ocasies.

-- Ento? perguntou o Conselheiro  filha, depois de lhe comunicar que o
conde acabara de pedir a mo dela.

-- No sei, respondeu Magd. Mais tarde, mais tarde tero a resposta... 
bem possvel que aceite...

Deram todos como certo o casamento da filha do Conselheiro com o
estrina do conde. Fizeram-se comentrios, reprovaes. Mas, nesta
mesma semana, uma noite, estando aquela ao piano e o outro ao seu lado,
a virar-lhe as folhas da partitura, ela de repente deixou de tocar, soltou um
grito e foi logo acometida por um novo ataque, ainda mais forte que o
primeiro.

Havia descoberto, a passear no colarinho do fidalgo, um pequenino inseto
da cor do jaqueto com que ele se exibia a cavalo. Acudiram-na de pronto
com sais e algodes queimados. Fez-se uma desordem geral na sala;
Magd foi carregada a pulso para o quarto dando de pernas e braos por
todo o caminho. E, da a pouco, levantava-se a reunio e retiravam-se os
convidados.

No pode erguer-se da cama no dia seguinte, nem no outro, nem nos cinco
mais prximos. Detinham-na grandes dores de cabea, amolecimento nas
pernas, e uma ligeira impresso dolorosa na espinha dorsal.



                                                                          30
-- Olhe! disse o Dr. Lobo ao Conselheiro -- Isto ainda no  precisamente
a tal fome de trs dias, mas para isso pouco lhe falta!...

O pai de Magd resolveu aproveitar a primeira estiada da molstia para
casar a filha com o conde.

-- Decerto! decerto! aprovara o mdico.

Todavia a caprichosa, ainda de cama, declarou que -- definitivamente --
mo se casaria com semelhante homem. -- Nunca!

-- No! exclamou, com este  tempo perdido! Faam o que quiserem, eu
no me caso!

-- Mas porque milha filha?...

-- No sei, no quero!

-- Ele te deu algum motivo de desgosto?...

-- Ora! J te disse que no quero!

E ningum, nem ela prpria, sabia explicar a razo porque. -- Era l uma
cisma.

Quando se levantou estava desfeita; apareceram-lhe nuseas depois da
comida e uma tosse seca que a perseguia enquanto estivesse de p.

Foi ento que o Dr. Lobo, enfurecido com a sua doente, porque se
recusara a entregar-se ao conde, aconselhou o tal passeio  Europa.

VI

A viagem, como ficou dito, pouco lhe aproveitou ao sistema muscular e
agravara-lhe sem dvida o sistema nervoso. Magd voltou mais
impressionvel, mais vibrante, mais eltrica. De novo, verdadeiramente
novo, o que se lhe notava era s uma exagerada preocupao religiosa;
estava devota como nunca fora, nem mesmo nos seus tempos de
pensionista das irms de caridade. Mostrava-se muito piedosa, muito
humilde e muito submissa aos preceitos da igreja. Falava de Cristo, pondo
na voz infinitas douras de amor.

 que, enquanto percorrera as grandes capitais do mundo catlico,
visitando de preferncia os lugares sagrados e as runas, o seu esprito,



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como se peregrinasse em busca do ideal fora lentamente se voltando para
Deus. Preferira sempre os ermos silenciosos e propcios s longas
concentraes msticas. As multides assustavam-na com a sua grosseira e
ruidosa atividade dos grandes centros de indstria e do comrcio; o
verminar das avenidas e boulevards, as enchentes de teatro, a
concorrncia dos passeios pblicos, a aglomerao das oficinas e dos
armazns de moda, o cheiro do carvo de pedra, o vaivm dos operrios, o
zunzum dos hotis; tudo isso lhe fazia mal. Agora, a sua delicadssima
sensibilidade nervosa reclamava o taciturno recolhimento dos claustros;
pedia uma vida obscura e contemplativa, toda ocupada com um perenal
idlio da alma com a divindade.

Em Frana, chegou a falar ao pai em recolher-se a um convento. O
Conselheiro disparatou:

-- Estava doida! Pois ele tinha l criado uma filha com tanto esmero para a
ver freira?... No lhe faltava mais nada! Ah! bem quisera opor-se quelas
incessantes visitas aos mosteiros, aos cemitrios e s igrejas! No se
opusera -- a estavam agora as conseqncias! -- Ser freira! Tinha graa!
No havia dvida -- tinha muita graa que a Sra. D. Madalena fosse a Paris
para ficar num convento! Mas era bem feito!... era muito bem feito,
porque, desde o dia em que se deu o que se dera com a visita ao tmulo
de Eloisa e Abelardo, que ele devia estar prevenido contra semelhantes
passeios e tomar providncias a respeito daquela mania religiosa!

A visita ao tmulo dos legendrios amantes fora com efeito muito fatal 
filha do Conselheiro. Esta, depois de contempl-lo em silncio e por longo
tempo, esttica, abriu num pranto muito soluado, findo o qual, ps-se a
danar e cantar, num ritmo, que ia aos poucos se acelerando. O pai quis
cont-la; Magd fugiu-lhe, correndo pelo cemitrio, saltando pelas
sepulturas, tropeando aqui e ali, to depressa caindo como se levantando,
a soltar gritos que pareciam uivos de fera esfaimada. Afinal, j sem foras
e com as roupas em frangalhos, abateu por terra, ofegante, mas
encabujando ainda num rosnar convulsivo, at perder os sentidos, e logo
pegar em sono profundo, do qual s despertou vinte e tantas horas depois,
j no hotel, para onde a levaram, sem que ela desse acordo de si.

Estava no perodo da coria e das convulses.

Este acidente, porm, em vez de lhe servir de lio e de afast-la de tudo
que lhe pudesse causar novas crises, foi, ao contrrio, como que o ponto
de partida da sua declinao para as coisas religiosas. Comeou desde
ento a sentir-se oprimida por uma ansiedade sem objetivo nem causa
aparente; s vezes uma grande mgoa a sufocava, enchendo-lhe a


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garganta de soluos indissolveis; outras vezes eram titilaes por todo o
corpo, uns pruridos que a irritavam, que lhe metiam vontade de morder as
carnes, de aoitar-se, de beliscar-se at tirar sangue. E, quando cessavam
estas tiranias da matria, voltavam de novo as mgoas, e ento o que a
consumia era um desejo esquisito, que lhe comia por dentro, onde e
porque no sabia dizer; e depois ma esperana de conforto, um como ideal
despedaado no seu interior, cujas incalculveis partculas se lhe
espalhassem por todo o ser e procurassem fugir, transformadas em
milhes de suspiros.

Valia-se ento das splicas religiosas e ficava longo tempo a rezar,
banhada em lgrimas, os olhos injetados, os lbios trmulos, o nariz frio
de neve. Porm a orao no a confortava, e a infeliz pedia a Deus que a
matasse naquele mesmo instante ou lhe enviasse dos cus um alvio para
a suas aflies.

Foi neste estado que Magd tornou ao Rio de Janeiro. A velha Camila, cuja
beatice emperrara com o tempo e j tresandara a idiotia, rejubilou ao v-la
assim; durante a viagem da sobrinha, ela se recolhera ao convento de
Santa Teresa, onde tinha amigas e onde costumava dantes ir passar dias e
s vezes semanas inteiras, no tempo em que ainda no estava to mal de
sade. Qual no seria, pois, o seu gosto, quando Magd, fechando-se com
ela no quarto, abriu o corao e franqueou  devota todas as vagas
mortificaes e msticos arrebatamentos da sua pobre alma enferma?

-- Fizeste muito bem, minha filha! aplaudiu a tia, abraando-a
transportada. -- Fizeste muito bem em te voltares para a igreja! Deixa l
falar teu pai, que no entende disto e est to contaminado de heresia
como qualquer homem deste tempo. Deixa-o l e entrega-te s mos de
Deus, que ters bem-aventurana na terra, como mais tarde a pilhars no
cu.

A sobrinha falou em casamento.

-- Se encontrares marido, respondeu a velha, e entenderes que deves
casar -- casa-te, menina, que essa  a vontade de teu pai; mas tambm se
no casares, nem por isso sers menos feliz, uma vez que j estejas na
divina graa de Nosso Senhor Jesus Cristo...

E, depois de cruzar as mos sobre o peito e revirar os olhos para o cu,
acrescentou: -- No tenho eu vivido at hoje to solteirinha como no dia
em que nasci?... E, olha, rapariga, que o homem nunca me fez l essas
faltas! Ainda em certa idade, quando andava no fogo dos meus vinte aos
trinta, vinham-se assim umas venetas mais fortes de casamento; mas que


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fazia eu? -- Disfarava; metia-me com os meus santinhos; rezava  Nossa
Senhora do Amparo, e com poucas -- nem mais pensava em semelhante
porcaria! A coisa est em tirar uma pessoa o juzo da! Olha: decora a
orao que te vou ensinar, e reza-a sempre que sentires formigueiros na
pele e comiches por dentro!

A orao constava do seguinte:

"Jesus, filho de Maria, prncipe dos cus e rei na terra, senhor dos homens,
amado meu, esposo de minha alma, vale0me tu, que s a minha salvao
e o meu amor! Esconde-me, querido, com o teu manto, que o leo me
cerca! Protege-me contra mim mesma! esconjura o bicho imundo que
habita minha carne e suja minha alma! -- Salva-me! No me deixes cair
em pecado de luxria, que eu sinto j as lnguas do inferno me lambendo
as carnes do meu corpo e enfiando-se pelas minhas veias! Vale-me, esposo
meu, amado meu! Vou dormir  sombra de tua cruz, como o cordeirinho
imaculado, para que o demnio no se aproxime de mim! Amado do meu
corao, espero-te esta noite no meu sonho, deitada de ventre para cima,
com os peitos bem abertos, para que tu me penetres at ao fundo de
minhas entranhas e me ilumine toda por dentro com a luz do teu divino
esprito! Por quem s, conjuro-te que no me faltes, por que, se no
vieres, arrisco-me a cair em poder dos teus contrrios, e morrerei sem
estar no gozo da tua graa! Vem ter comigo, Jesus! Jesus, filho de Deus,
senhor dos homens, prncipe dos cus e rei na terra! Vem que eu te
espero. Amm."

Magd decorou isto e, desde ento, todas as noites, antes de dormir,
ficava horas esquecidas ajoelhada defronte do seu crucifixo de marfim, a
repetir em xtases aquelas palavras que a entonteciam com a sua dura
sensualidade asctica. E os olhos prendiam-se-lhe na chagada nudez do
filho de Maria e ungiam-lhe ternamente as feridas, como se ela
contemplasse com efeito o retrato de seu amado. Mas, naquele corpo de
homem nu, ali, no mistrio do quarto, trazia-lhe estranhas conjeturas e
maus pensamentos, que a msera enxotava do esprito, coroando
envergonhada da sua prpria imaginao.

Foi a partir desse tempo que deu para andar sempre vestida de luto, muito
simples, com a cabelo apenas enrodilhado e preso na nuca; um fio de
prolas ao pescoo, sustentando uma cruz de ouro, e mais nenhuma outra
jia. E, assim, a sua figura ainda parecia mais delgada e o seu rosto mais
plido. A tristeza e a concentrao davam-lhe  fisionomia uma severa
expresso de orgulho; dir-se-ia que ela, a medida que se humilhava
perante Deus, fazia-se cada vez mais altiva e sobranceira para com os
homens. O todo era o de uma princesa trada pelo amante, e cuja


                                                                         34
desventura no conseguira abaixar-lhe a soberbia, nem arrancar-lhe dos
lbios frios numa queixa de amor ou um suspiro de saudade.

Os seus atos mais simples e os seus mais ligeiros pensamentos
ressentiam-se agora de um grande exagero. Nunca se mostrara to
intolerante nos princpios de dignidade e na pureza dos costumes; nunca
fora to aristocrata, to zeladora da sua posio na sociedade, nem to
convicta dos seus merecimentos e dos seus crditos.

Uma conduta irrepreensvel! Se sofria ou no para sustentar os deveres de
mulher honesta s o sabia a discreta imagem de marfim, a quem
unicamente confiava os segredos das suas lutas interiores; os desesperos e
as misrias da sua carne; se tinha desejos, tragava-os em silncio com a
mais inflexvel nobreza e o mais afinado orgulho. Ao v-la, na singela
gravidade do seu trajo, o rosto descolorido pela molstia, os movimentos
demorados e sem vida, sentia a gente por ela um profundo respeito
compassivo, uma simpatia discreta e duradoura. O triste ar de altiva
resignao que se lhe notara nos olhos, outrora to ardentes e to
talhados para todos os mistrios da ternura; a desdenhosa expresso de
fidalguia daqueles lbios j sem cor, instrumentos que a natureza havia
destinado para executar a msica ideal dos beijos e cujas cordas pareciam
agora frouxas e embambecidas; aquela respirao curta e entrecortada de
imperceptveis suspiros; aquela voz, poderosa na expresso e fraca na
tonalidade, onde havia um pouco de splica e um pouco de arrogncia --
splica para Deus e arrogncia para os homens; enfim -- tudo que
respirava da sua adorvel figura de deusa enferma: tudo nos conduzia a
am-la em segredo reverentemente, como um soldado a sua rainha.

Agora a bem poucos dava a honra de uma conversa; falava sempre sem
gesticular e em voz baixa, e ningum, a no ser o pai, lhe alcanava um
sorriso. A dana, o canto, o piano, tudo isso foi posto  margem; as
partituras dos seus autores favoritos j no se abriam havia longos meses;
a sua caixinha de tintas vivia no abandono; os seus pincis de aquarela,
dantes to companheiros dela, j lhe no mereciam sequer um beijo. Iam-
se-lhe agora os dias quase que exclusivamente consumidos na leitura, lia
mais que dantes, muito mais, sem comparao, mas to somente livros
religiosos ou aqueles que mais de perto jogavam com os interesses da
igreja; gostava de saber as biografias dos santos, deliciava-se com a
"Imitao de Jesus Cristo", e no se fartava de ler a Bblia, o grande
manancial da poesia que agora mais a encantava; decorara o "Cntico dos
Cnticos" de Salomo, principalmente o captulo V que principia deste
modo:




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"Venha o meu amado para o seu jardim, e coma o fruto das suas
macieiras.

"Eu vim para o meu jardim, irm minha esposa; seguei a minha birra
aromtica; comi o favo com o mel; bebi o meu vinho com o meu leite.
Comei, amigos, e bebei, e embriagai-vos, carssimos!

"Eu durmo e o meu corao vela; eis a voz do meu amado que bate;
dizendo: -- Abre-me, irm minha pomba minha, imaculada minha, porque
sinto a cabea cheia de orvalho, e me esto correndo pelos anis do
cabelo, as gotas da noite."

E estes, como todos os outros versculos de Salomo, lhe punham no
esprito uma embriagues deliciosa, atordoavam-na como o perfume
capitoso e melfluo de flores orientais ou como um vinho saboroso e tpido
que a ia penetrando toda, at a alma, com a sua doura aveludada e
cheirosa. E, de pois de repeti-los muitas e muitas vezes, corria a tomar nas
mos a imagem de Cristo, e abraava-a, e cobria-a de beijos, soluando e
murmurando: "Meu amado, meu irmo, meu esposo!" E dizia-lhe em
segredo, num delrio crescente: "Eu sou a tua pomba imaculada; sou o mel
de que teus lbios gostam; sou o leite fresco e puro com que tu te
acalmas; tu s o vinho com que me embriago!"

-- Isto acaba mal! Isto com certeza acaba muito mal! exclamava
entretanto o Dr. Lobo, furioso contra o Conselheiro, sobre quem ele fazia
recair toda a responsabilidade do estado de Magd. -- Pois j no
bastavam os terrveis elementos que havia para agravar a molstia?...
Como ento deixou nascer e desenvolver-se o demnio daquela beatice,
que s por si era mais que suficiente para derreter os miolos a qualquer
mulher?!

Uma tarde, na semana santa, ela saiu em companhia da velha e voltou
sem sentidos no fundo de um carro. Tinham ido ouvir um sermo na
Capela Imperial, e Magd fora a mesmo acometida por um ataque de
convulses em delrio.

O Conselheiro revoltou-se formalmente contra a irm:

Aquilo era um abuso que orava pela petulncia! era um desrespeito ao
que ele determinara dentro de sua casa e com relao  sua prpria filha!
Por mais de uma vez havia declarado j que a Sra. D. Madalena no podia
ir  igreja e muito menos demorar-se a horas e horas; e fazia-se
justamente o contrrio! Se D. Camila no podia passar sem isso, que fosse
sozinha! Podia l ficar o tempo que quisesse, fartar-se de sermes e rezas,


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deliciar-se com aquela bela atmosfera impregnada de incenso e bodum de
negros! Que fosse; ningum se privava de ir, mas, com um milho de
raios! no arrastasse consigo uma pobre doente para p-la naquele estado!
Era muito bonito, no tinha dvida! Ele em casa a desfazer-se com
cuidados de meses e meses para minorar os sofrimentos da filha, a fazer
sacrifcios para a ver boa; e a besta da irm a destruir tudo isso em poucas
horas! No! no tinha jeito! A continuarem as coisas por aquele modo, ele
ver-se-ia obrigado a tomar srias providncias contra semelhante abuso!
Se D. Camila no se queria conformar com o que ditava o bom senso, que
tivesse pacincia, mas voltaria por uma vez para o convento!

E o que mais o irritava era o modo fraudulento porque tudo aquilo se fazia;
eram as confidncias secretas, as combinaes em voz misteriosa, a
espcie de conspirao que havia contra ele, entre Magd e a velha.
Enganavam-no: saiam para "dar um passeio pela praia", e agora ficava
descoberto o que eram os tais passeios! Roubavam-lhe at o amor e a
confiana de sua filha! -- Dantes, Magd no dava um passo, nem mesmo
pensava em fazer fosse o que fosse, sem primeiro consult-lo, ouvi-lo; e
agora -- evitava-o; falava-lhe em meias palavras; parecia ter segredos
inconfessveis! Dissimulava!

-- Tudo isso  da molstia! Explicou o Dr. Lobo, cujas visitas  casa do
Conselheiro rareavam ultimamente, porque o feroz mdico vivia muito
preocupado com o estabelecimento de uma casa de sade, que acabava de
montar fora da cidade. Mas o pobre pai no se consolava com a explicao
do doutor e sofria cada vez mais por amor da sua estremecida enferma.
Magd, com efeito, estava agora toda cheia de dissimulaes e reservas;
parecia viver s exclusivamente para uma idia secreta, um ideal muito
seu, que ela colocava acima de tudo e de todos. Fazia-se muito manhosa,
muito amiga de sutilezas, de disfarce, empenhando-se em esconder as
suas mais simples e justificveis intenes e fazendo acreditar que
existiam outras de grande responsabilidade. Os passeios clandestinos que
continuava a dar coma tia, cegando a vigilncia do Conselheiro, para estar
algum tempo na igreja, tinham para ela um irresistvel encanto de fruto
proibido, e a preocupao em esconde-los constitua o melhor interesse de
sua existncia.

As duas saam em passo de quem vai espairecer um pouco pelas
imediaes de casa, mas a certa distncia aceleravam a marcha,
apressavam-se, conversando em segredo em segredo os seus assuntos
religiosos. A rapariga,  medida que se aproximava do templo, ia ficando
excitada, palpitante, olhando repetidas vezes para trs, como se receiasse
que a seguissem. Afinal chegava, ofegante, com o corao na garganta e,
depois de verificar que no erra seguida por ningum, entrava na igreja,


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trmula e assustadia, como se entrasse no latbulo de um amante. E
aquele silncio das naves; aquela meia sombra em que rebrilhavam os
ouros dos altares; aquela solido compungida; o ar fresco dos lugares de
teto muito alto; tudo isso lhe punha no corpo um meigo quebranto de
volpia sobressaltada.

Ajoelhava sempre num ponto certo; tinha j a sua imagem predileta, era
um grupo de Mater Dolorosa, de tamanho natural, com o Cristo deitado ao
colo, morto, todo nu, os braos pendentes, o sangue a escorrer-lhe pelas
faces e pela ebrnea rigidez do corpo. Adorava este Cristo, amava-o,
preferia-o, tinha ntimas predilees por ele; achava-o mais formoso do
que todas as outras imagens sagradas. Embriagava-se com ver-lhe aquele
rosto muito plido, aqueles olhos de plpebras mal fechados, adormecidos
no negrume dos martrios, aqueles lbios roxos, imveis, aqueles longos
cabelos que lhe caam pelos ombro, aquela barba nazarena que parecia ter
bebido de cada mulher da terra uma lgrima de amor.

E Ela, no murmrio das suas oraes, dizia-lhe ternuras de esposa; pedia-
lhe consolos e confortos, que ele no lhe podia dar; falava-lhe com o
magoado orientalismo do "Cntico dos Cnticos"; e suas palavras eram
quentes como beijos e ternas e doloridas como suspiros de quem ama. Por
aquela imagem querida acentuava na sua imaginao e melanclica figura
desse ente perfeito e desejado, de que na Bblia lhe falavam as filhas de
Jerusalm. Era esse o amado que, em sonhos, lhe pedia para pedir a porta,
porque lhe estavam correndo pelos anis do cabelo as gotas da noite; esse
era o amado cndido e rubicundo, escolhido entre milhares; era esse, cujos
olhos so ternos e doces, nem como as pombas que, tendo os ninhos ao p
do regato das guas, esto lavadas em leite e se acham de assento junto
das mais largas correntes dos rios; era esse o amado, cujas faces so
iguais a canteiros de flores aromticas e cujos lbios destilam a mais
preciosa mirra; era esse de mos superfinas, feitas ao torno, cheias de
jacintos; esse de ventre de marfim, guarnecido de safiras; esse de pernas
de mrmore sustentadas sobre bases de ouro; esse que era escolhido
como os cedros e cuja figura a chorosa e lnguida sulamita comparava ao
Lbano.

Era esse que ela supunha amar; a quem supunha dar tudo o que seu
corao e alma possuam; e, vendo-se descoberta e proibida de ir s
msticas entrevistas com ele, foi tomada por um grande desgosto,
sobrevindo as convulses, e tendo de guardar a cama por muitos dias,
porque lhe apareceu ento uma febre de carter especial, apresentando
todos os sintomas da pirexia comum, mas que todavia no se subordinava
aos medicamentos que a esta combatem.



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-- Ora a tem!  a febre histrica! Classificou logo o Dr. Lobo. E, em
resposta s perguntas do Conselheiro, despejou um chorrilho de nomes
tcnicos, dizendo que: "Aquilo no podia ser febre tifide, nem ter sua
origem na flegmasia enceflica, nem to pouco na alterao de algum
rgo esplncnico, porque uma meningite, ou uma encefalite ou mesmo a
febre tifide comum no poderia chegar quele grau, por que no havia
doente capaz de resistir!"

O certo  que Magd, ao levantar-se da tal febre, estava reduzida a uma
fraqueza extrema. Voltaram-lhe a dor da espinha, a tosse e a inapetncia
completa; se insistia em comer, vomitava incontinente. O Dr. Lobo, na
sua venervel pretenso de mdico antigo, declarou sem cerimnia que,
"pela contrao tnica dos msculos, pressentia a aproximao da
letargia".

-- A letargia! Agora  que eram elas! A estava o que ele menos desejava
que viesse!

Depois de praguejar contra todo mundo e ralhar cuidadosamente com o
Conselheiro, aconselhou a este que levasse a doente para outro arrabalde
mais campestre, onde no houvessem igrejas perto de casa e onde ela
pudesse estar mais em liberdade e mais em movimento. E, logo que se
sentisse melhor, convinha despertar-lhe o gosto por qualquer ocupao
manual. "Nada de belas artes, nem leituras! Exclamava o cirurgio. --
Jardinagem, servio de horta, jogos de exerccios, como o bilhar, a caa, a
pesca! E passeios! Muitos passeios ao ar livre, pela fresca manh, sem
chapu, sem muito medo de apanhar sol! E, se os passeios fossem depois
de um banho bem frio -- melhor seria! Era preciso que Magd no deixasse
de tomar ferro e aquele xarope de Easton, que ele receitara. Na
alimentao devia procurar sempre comer um pouco de carne sangrenta,
mariscos, e tomar bom vinho Madeira."

-- Ora, a tem! Faa isto, concluiu ele, e veja se consegue esconder-lhe o
diabo dos tais livros religiosos, que ela tem lido ultimamente.

E resmungou ainda, depois de novas pragas: -- Pena  que se lhe no
possa esconder tambm aquela barata velha, que  ainda pior do que
todas as cartilhas da doutrina crist!

VII

A mudana estava marcada para da a quinze dias. Iriam refugiar-se na
Tijuca, num casaro, que o Conselheiro possua para essa bandas. Sobrado
muito antigo e de aparncia tristonha, todo enterrado no fundo de uma


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chcara, enorme e destratada, que em alguns pontos at aprecia mato
virgem. Janelas quase quadradas; paredes denegridas pela chuva e pelo
tempo; nas grades da escadaria principal heras e parasitas grimpavam
livremente; as trapoerabas cobriam os degraus e alastravam por toda a
parte; e l no alto,  beira desdentada do telhado, habitava uma repblica
de andorinhas.

Para chegar  casa, tinha-se de atravessar uma longa e tenebrosa alameda
de mangueiras, que comeava logo no porto da entrada e se ia
estendendo por ali acima lgrebe como um caminho de cemitrio. Era
triste aquilo com os seus altos muros de pedra e cal, pesados, cobertos de
limo, e transbordantes de copas de rvores velhas. O casaro, olhado pelas
costas ou pelo franco esquerdo, deixava-se ver em toda a sua grosseira
imponncia, porque dava esses lados para a rua, fazendo esquina com as
suas prprias paredes. Metia aflio entrar l; um pavoroso silncio de
igreja abandonada enchia os enormes quartos nus e enxovalhados de p;
um ar frio e encanado, como o ar de corredores de claustro, enregelava e
oprimia o corao naqueles longos aposentos sem vida. Tudo aquilo
transpirava cheiro de velhice, cheiro de molstia; sentia-se a friagem da
morte e a fedentina mida das catacumbas.

O Conselheiro, porm, mandou correr uma limpeza geral na casa; fez ir
para l os mveis e objetos necessrios; e, uma bela tarde, meteu-se
afinal num landeau com a filha e mais a velha Camila e abandonaram
Botafogo.

Foram com o carro fechado at certa altura do caminho, porque Magd, de
to incomodada que passara a noite da vspera, no tivera nimo de por
outra roupa e apenas enfiara um sobretudo de casimira e agasalhara a
cabea e o pescoo com uma sada de baile.

Chegaram pouco antes do crepsculo. O sol acabara de retirar-se, mas a
terra ainda palpitava na luz. As aves iam-se chegando aos seus penates;
toda a natureza se aninhava para dormir; s as vadias das cigarras
continuavam espertas, a cantar, fazendo sobressair o seu interminvel l
menor dentre os pacatos bocejos da mata que se espreguiava ali mesmo,
a dois passos da casa, tranqila e submissa somo um animal domstico.
Magd sentiu-se ternamente impressionada pelo taciturno aspecto do
casaro que, l naquelas alturas, se lhe afigurava um velho mosteiro
ignorado. A circunstncia da hora tambm contribuiu para isso; aquela
hora sem dono, que no pertence ao dia nem  noite -- era dela; chamou-
a a si, como se recolhesse um enjeitado, e tomou-lhe carinho. Era o
momento predileto para as suas concentraes e para seus xtases: em
tudo descobria a essa hora o carpir de uma saudade; cada moita de


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verdura ou cada grupo de rvores tinha para a filha do Conselheiro
suspiros e queixumes de amor. Parecia-lhe a terra, nesse lamentoso e
supremo instante em que o sol morre, se vestia de luto e chorava a perda
do esposo que alm se afogava, em pleno horizonte, atirando-lhe de longe
os seus ltimos beijos de fogo. Magd ouvia ento os abafados soluos da
viva e sentia-lhe o frio orvalhar do pranto.

-- Bem, minha filha, vamos para cima, que j cai sereno.

Ela havia escolhido para seus aposentos uma sala e dois cmodos do andar
superior. O quarto da cama era quadrado, muito singelo, uma verdadeira
cela, em que o inseparvel crucifixo de marfim assentava ao ponto de
impressionar; tinha uma s janela, essa mesma gradeada de ferro e sem
vista, porque ficava justamente de fronte de uma grande pedreira em
explorao. O Conselheiro teve de contrariar a filha para dar a estas salas
um pouco de conforto e elegncia.

-- Para que? dizia ela, no  preciso! em qualquer parte a gente vive e
morre...

Como estava transformada! Ainda assim notava-se-lhe nas maneiras a
mesma correo fidalga e nos gestos a fina escolha e apurada sobriedade,
que dantes a distinguiam tanto entre as suas amigas. D. Camila foi
tambm para o andar de cima, fazendo-se acompanhar por uma corte de
santos de vrias espcies, tamanhos e virtudes. Alm dos escravos,
levaram apenas uma criada branca, para tratar de Magd.

Instalados, o Conselheiro tomou um homem para arranjar o jardim e
ocupou os seus negros na reparao da chcara, acompanhando ele
prprio o servio, na esperana de despertar igual desejo no nimo da
filha.

Mas qual! Ela, desde o momento que se enterrou ali, parecia at mais
desanimada, mais triste e metida consigo. Agora dava para no ir  mesa e
fechar-se no quarto, comendo pedacinhos de po de instante a instante,
roendo queijo seco, chupando frutas cidas e mastigando goiabas verdes.
E sempre a cismar.

O pai embalde protestava contra isto; embalde lhe dizia que ela estava-se
preparando para uma sria irritao do estmago; embalde queria arrast-
la par a mesa nas horas da comida; embalde lembrava passeios pela
manh ou ao cair da tarde, a p, a cavalo, de carro, como ela escolhesse.
Era tudo intil: Magd continuava agarrada ao quarto -- cismando.



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-- Ento, ao menos, que acordasse mais cedo, fosse para baixo conversar
com ele na chcara; tomar leite mungido na ocasio; ver o pombal que se
estava fazendo; dar uma vista-d'olhos pelo galinheiro e pela horta.

Magd prometia, resmungava: -- Que sim, que sim, porque no? Do outro
dia em diante estaria de p logo ao amanhecer!

Mas, no dia seguinte, quando iam cham-la ao quarto,  uma hora da
tarde, respondia de mau humor:

-- Deixem-me em paz! Oh!

-- Nesse caso vamos de novo para Botafogo! Exclamou afinal o
Conselheiro, perdendo a pacincia. -- Eu, se vim enfurnar-me aqui, foi na
esperana de fazer-te mudar de regime e com isso alcanar-te algumas
melhoras! Vejo, porm, que  muito pior a emenda que o soneto!

Ela teve um tremor de msculos, e ficou muito impressionada com o tom
quase spero que o pai pusera nestas palavras.

-- No sei que desejam de mim!... disse.

-- Desejo que fiques boa. A tens tu, o que desejo!...

-- S parece que julgam que me fao doente para contrariar os outros! Se
estivesse em minhas mos, seria mais agradvel a todos; no me ponho
melhor e bem disposta, porque no posso!...

-- Est bom, est bom, balbuciou o Conselheiro, acarinhando-a,
arrependido por no ter sido to amvel desta vez como das outras. -- No
vs agora afligir-te com o que eu disse... Aquilo no teve a inteno de
magoar-te...

Ela prosseguiu em tom infeliz e ressentido: -- Se vim para c, foi porque
me trouxeram... no reclamei nada... No me queixei de coisa alguma...
Sinto-me aqui perfeitamente... dou-me at muito bem, e s peo e suplico
que no me contrariem; que me deixem em paz pelo amor de Deus; que
no me apoquentem; que...

Vieram os soluos e Magd principiou a excitar-se.

-- Ento, minha filha, que tolice  essa?




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--  que eu no posso ouvir falar assim comigo!... bem sabem que estou
nervosa! bem sabem que estou doente!

-- Sim, sim, tens razo... Passou! Passou!

E o Conselheiro, deveras surpreso com aquelas esquisitices da filha,
espantado por v-la fazer-se to humilde, to coitadinha, puxou-a
brandamente para junto de si e afagou-a como se estivesse a consolar
uma criana.

-- Acabou! Acabou!

Magd chorava com a cabea pousada no colo dele.

-- Ento, ento, no te mortifiques... Aqui ningum faz seno o que for do
teu gosto... Vamos, no chores desse modo...

Qual! o resultado foi passar pior esse dia e aumentarem as suas rabugices
no dia imediato; -- Que desejava morrer! -- Acabar logo com aquela
miservel existncia! Que ali todos j estavam fartos de a suportar! Que
todos se aborreciam com ela e procuravam meios e modos de contrari-la,
s para ver se a despachavam mais depressa! Que bem quisera recolher-
se a um convento, mas no lhe deixaram! Pois antes tivessem consentido,
porque agora at a prpria criada parecia fazer-lhe um grande obsquio,
quando era obrigada a ter um pouco mais de trabalho com ela.

No fim de contas apareceu-lhe de novo a tal febre de carter especial;
agora, porm, com delrios e movimentos luxuriosos, sobrevindo uma
profunda letargia, contra a qual eram inteis todos os recursos do mdico.

Parecia morta. No fim de longas horas de esforos, o Dr. Lobo, j
desesperado, teve, a contra gosto, de aceitar o conselho de um colega
ainda moo e de idias modernas -- a compresso do ovrio.

Efeito pronto: Magd tornou a si depois da operao, livre j das
impertinncias e infantis rabugices, que tivera antes da febre. Voltara 
sua habitual gravidade, s suas maneiras austeras de fidalga enferma; mas
comeou a sentir-se vagamente magoada nos melindres do seu pudor:
queria parecer-lhe adivinhava que, durante a inconscincia da sua
anestesia, o insolente do mdico a devassara toda; sentia ainda nos
lugares mais vergonhosos do corpo a impresso de mos estranhas que os
apalparam e comprimiram. E a idia de que algum a vira descomposta e
que lhe tocara nas carnes, revoltou-a como imperdovel ultraje feita  sua
honra e ao seu orgulho de mulher pura. Todavia no se achava com


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coragem de interrogar ningum a esse respeito, e, foi tal o seu vexame,
que a infeliz escondeu-se no quarto, a chorar de acanhamento e raiva.

-- Oh! exclamou o doutor, enquanto o Conselheiro lhe deu conta disto: --
Eu punha-a esperta e s em pouco tempo, se me dessem carta branca
para isso! A questo dependia toda do enfermeiro que lhe arranjasse!
Aquelas lamrias e aquelas lgrimas ir-se-iam logo embora com a primeira
semana de lua de mel!

No entanto, Magd continuava a sofrer: a tosse no a deixava seno
quando ela se recolhia  cama; deitada no tossia nunca, mas, em
compensao, aparecia-lhe uma espcie de asma. Agora, uma das suas
manias era pr-se  janela do quarto e a permanecer horas e horas
esquecidas, a ver o servio da pedreira que ficava defronte, olhando muito
entretida para os cavoqueiros, e ouvindo a toada que eles gemem quando
esto minando a rocha para lhe tocar fogo. Parecia gostar de ver os
trabalhadores; como se lhe aprazia aquela rica exibio de msculos tesos
que saltavam com o peso do macete e do furo de ferro, e daqueles corpos
nus e suados, que reluziam ao sol como se fossem de bronze polido.

E, quando algum ia cham-la para a mesa ou para conversar com o pai,
respondia zangada, sem tirar os olhos da pedreira:

-- No posso ir! Deixem-me!

E se insistiam: --  senhores, que maada! No posso ir, j disse! Estou
doente! Oh!

Depois do ataque de letargia, foram voltando pouco a pouco s esquisitices
de gnio e os caprichos de crianas estragadas com mimos; quase nunca
se desprendia do quarto e, nas poucas vezes que lhe surgia por l alguma
camarada dos bons tempos, por tal modo se mostrava seca e at
grosseira, que a amiga tratava de abreviar a visita e saa sem a menor
inteno de voltar.

Nem mesmo a prpria criada queria j suport-la, apesar de muito bem
paga. "Pois no! Era uma impertinncia todo dia! um rapelo por d c
aquela palha! -- Se a gente no ia logo correndo saber o que serrazina
queria quando chamava -- tome sarabanda! -- Oh! Insuportvel! Uma
verdadeira fria! De mais a mais a "barata velha" ultimamente tambm
dera para ficar pior, e havia quase duas semanas que se no desgrudava
da cama nem  mo de Deus Padre!"




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Pobre velha! Consumia-se numa infernal complicao de molstias; eram
intestinos, era cabea, eram pernas, era o diabo! Parecia uma
decomposio em vida: fedia como coisa podre! J se no alimentava pela
boca; os seus gemidos eram arrotos de ovo choco, e os humores que ela
expelia por toda a parte do corpo empesteavam a casa inteira.

-- Essa no tem mais que esperar! declarou bem alto o Dr. Lobo,
olhando-a desdenhosamente por cima dos culos, como se a msera fosse
j um defunto e no pudera ouvir-lhe a desumana profecia. -- Est
despachada! A consumpo deu-lhe cabo do canastro!

Metia d. Veio uma velhinha, sua camarada de muitos anos, ajud-la a
morrer, e consigo trouxe duas escravas, especialistas em servir a enfermos
desenganados, porque a senhora tinha mania de acompanhar os ltimos
instantes de todas as amigas que se iam antes dela. A casa parecia um
hospital: sentia-se cheiro de enfermaria e andavam todos sarapantados,
cheios de terror pela morte; de manh  noite faziam-se rezas em torno do
doente. O Conselheiro quis que a filha se afastasse daquele espetculo e
fosse passar algum tempo em outra parte; Magd ops-se de p firme e
deixou-se ficar ao lado da tia, rezando com tamanho empenho que fazia
crer que s com seus esforos contava para salvar-lhe a alma.

O mdico dissera a verdade: quatro dias depois da sentena lavrada por
ele, D. Camila pediu um padre, muito aflita. Era j a morte que pegava de
agoni-la.

Correu-se a chamar Nosso-Pai.

No veio logo; e a moribunda, como quem est com o p no estribo para
uma longa viagem e arrisca a partir sem levar um objeto que lhe h de
fazer muita falta em caminho, remexia inquieta a cabea sobre os
travesseiros, lanando contnuos olhares de impacincia para a porta do
quarto.

O Vitico demorava-se.

O Conselheiro ia de vez em quando at a janela de uma das salas que
davam para a rua e passeava ansioso pelo segundo andar.

-- Chegou! Disse por fim, retornando ao aposento da irm.

Houve uma enternecida agitao. Ouviu-se o toque de uma campainha
ecoando nos corredores da casa, e a velha Camila teve um suspiro de
alvio. -- J no partiria sem a sua extrema uno!


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O padre entrou com os ajudantes, muito cerimonioso debaixo do plio,
agasalhando a hstia consagrada junto ao peito, com os cuidados de quem
traz uma vasilha cheia at as bordas e no quer entorn-la. Fez-se em
redor dele e da paciente respeitoso silncio; apenas se ouviam, alm dos
roncos da moribunda, a voz abafada do sacerdote, que resmungava numa
alternativa de sussurros, ora mais alto, ora mais baixo, sem fazer pausas,
como se estivesse contando interminveis algarismos.

A cerimnia durou pouco e, quando o religioso se retirou com a sua
comitiva, a velha parecia tranqila, nem que houvesse tomado um
milagroso remdio de efeito imediato. Magd, por detrs dos ps da cama,
orava, ajoelhada defronte de uma mesinha coberta por alva toalha de
rendas sobre a qual um crucifixo, entre duas velas de cera que ardiam com
pequenos estalinhos secos; tinha os olhos muito abertos e postos sobre a
imagem do Crucificado, transbordando lgrimas que lhe rolavam
silenciosas pela face; as mos cruzadas sobre o peito numa postura de
xtases. O Conselheiro puxou uma cadeira para junto do leito da irm e
assentou-se, colocando a sua mo direita por debaixo do mido crnio da
agonizante; esta comeou a agitar-se de novo nos travesseiros. Ento, a
velhinha amiga dela ajoelhou-se do lado oposto e obrigou-a a segurar nos
dedos j sem vida uma das velas, que acabava de tirar de cima da mesa, e
ps-se a rezar em voz baixa. Camila rouquejava gemidos que iam se
transformando num pigarro contnuo; as suas pupilas estavam j imveis e
veladas; escolhia-lhe das ventas e da boca aberta, como um buraco feito
na cara, uma grossa mucosidade esverdinhada e fedentinosa. Assim levou
algum tempo, arquejando; at que afinal a respirao lhe foi aos poucos
amortecendo na garganta, e at que os olhos espremeram a ltima lgrima
e os pulmes sopraram o derradeiro flego.

Nessa ocasio, Magd acabava de levantar-se e marcava compassos de
msica com o dedo sobre a mesinha, danando com o corpo de um para o
outro lado, numa cadncia inaltervel, em tirar a ponta dos ps do mesmo
lugar e movendo os calcanhares suspensos do cho.

-- Um! dois! -- Um! dois! -- Um! dois!

Era um novo ataque de coria.

VIII

Com a morte da velha Camila, despedira-se da casa a mulher que estava
ao servio de Magd e fora substitu-la uma rapariga ali mesmo da
vizinhana.



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-- Justina, uma sua criada, para a servir.

Portuguesa, das ilhas, forte, rechonchuda e muito amiga de conversar.
Teria trinta anos, era viva, com trs filhos: o mais velho j encaminhado
numa oficina de encadernador; o imediato morando com a madrinha em
Belm, e o mais novo, que ainda mal se agentava nas pernas,
acompanhava para onde ela ia.

-- No! que isto de crianas, quando esto pequenas, as mes devem
atur-las! como no?

Diziam que fora sempre mulher de bons costumes, e com efeito parecia, ao
menos pela cara. Muito risonha, corada, dentes claros e olhos castanhos,
um pouco recados para o lado de fora com uma natural expresso de
lstima, que alis no perturbava em nada a alegre vivacidade da sua
fisionomia. Tinha papadas, e fazia roscas no cachao; uma penugem de
fruta na polpa do queixo e dois pincis de aquarelas nos cantos da boca.
Quando andava tremiam-lhe os quadris como imensos limes de cheiro
feitos de borracha.

Logo s primeiras palavras que ela trocou com Magd mostrou-lhe
simpatia.  que era justamente uma dessas criaturas vindas ao mundo
para cuidar de doentes; naturezas que s amam deveras quelas a quem
devem muitas canseiras; que s amam depois de grandes sacrifcios;
depois de muita noite perdida e muito sono interrompido. Nascera
enfermeira, nascera para os fracos; gostava de encarregar-se de crianas
e, quanto mais achacadinhas fossem estas tanto melhor. Os raquticos, os
aleijados, eram gente da sua predileo. Com o leite do seu ltimo
pequeno criara um fedelho, que estava morre-no-morre quando lhe foi
parar s mos; pois ela, depois de salvar-lhe a vida, a custo de longos
meses de desvelo sem descanso, tomou-lhe tal carinho que o queria mais
do que ao prprio filho, um maroto este, forte e sadio como um bezerro.
"Um coisinha ruim! afirmava sorrindo.-- No h mal que lhe entre! Nunca
vi! -- nem chora, o brutinho, Deus me perdoe!"

Magd quis saber onde  que ela estivera at ento empregada; qual a
casa donde vinha.

-- Em parte alguma, no senhora. Morava com a tia Zefa ali mesmo
defronte, naquela casinha de duas janelas com entrada pela estalagem.

-- Que gente vem a ser essa?




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-- A tia Zefa  filha da velha Custdia; lavadeiras, como no? Vem j de
trs estas amizades! Ns, por bem dizer, fomos criados pela tia Zefa; foi
de l que eu sa para casar, e minha mana, a Rosinha, vosmec no
conhece, essa ainda mora com ela.

-- Ah! tem uma irm...

-- Ento! Muito mais nova do que eu. Solteira, mas j tem o seu noivo.
No  por ser minha irm, porm  uma rapariga que se pode ver! O
Luiz...

-- Bem, bem! Voc ento traz um filho em sua companhia!

-- Ora coitado! No h de incomodar... E, se se fizer tolo, carrego-o logo l
p'ra defronte, que a velha  perdida por ele. Se o ! D-lhe um tudo! No
viu vosmec aquele chapeuzinho de pluma com que ele veio ontem? Pois
quem foi que o deu? Foi ela!

E riu-se toda.

-- Bem, bem, trate de ir buscar o que  seu e tome conta desse quarto a
ao p, porque, no sei se sabe, voc tem de fazer-me companhia  noite.
Ando muito doente e s vezes  preciso que me dem o remdio,
compreende?

-- Como no, minh'alma? Pode vosmec ficar descansada por esse lado,
que esta que aqui est no lhe dar razes de queixa!

E j parecia radiante com aquela expectativa de ter uma enferma  sua
guarda. Uma enferma nas condies da filha do Conselheiro era o seu
ideal. E, por cima de tudo, "bom ordenado, comida com fartura, seu copo
de vinho ao jantar e da at, quem sabe? talvez seu vestidinho de vez em
quando..."

-- No h dvida, foi um bom achado!

Um achado! Ela  que foi um bom achado para Magd. Esta nunca houvera
tido criada to alegre, to amorosa e to diligente no servio..

Alm do que: muito s, muito limpa e muito sria. Perto daquela figura
socada, de carne esperta e luzente, a pobre senhora ainda parecia mais
magra e mais plida; gostava, porm, de senti-la ao seu lado, aquecer-se
naquele calor de sade, parasitar um pouco daquele hmus ressumbrante




                                                                          48
de seiva, sorver aquela forte exalao sangunea de fmea refeita e bem
adubada.

Nunca entravam em confidncias e palestras, que a orgulhosa filha do
Conselheiro no dava para essas coisas; mas a mesquinha enferma
gostava de deitar-se sobre um tapete no cho, defronte da janela do
quarto, a a ficar, cismando nos seus tdios, com a cabea pousada no
morno e carnudo regao da criada. s vezes adormecia assim e ento
abraava-se com ela e enterrava o rosto entre as almofadas dos seus
peitos, respirando com um regalo inconsciente de criana que j no
mama, mas ainda gosta de sentir ao pegar no sono a calentura do colo
materno.

Em breve, a Justina era to indispensvel para Magd, quanto uma ama a
um orfozinho recm-nascido. A infeliz moa passava assim muito melhor;
conseguia ficar com algumas coisas no estmago e tinha certa regularidade
no sono. Um dia, em que a rapariga lhe pediu licena para ir a Belm ver o
filhinho que estava  morte, ela quase teve um ataque, tal foi a sua
contrariedade.

--  por pouco tempo... esclareceu aquela -- Eu volto logo. Trs ou quatro,
quando muito; de mais deixo uma outra no meu lugar...

Foi, sempre    foi, mas  senhora tanto custou a sua ausncia que jurou
nunca mais      consentir que de novo se separassem. Ficou nervosa e
impertinente    que causava pena. Veio-lhe outra vez a mania das rezas,
voltaram-lhe    os monlogos  meia voz e os sobressaltos sem causa
aparente.

-- Maldito pequeno! lembrar-se de cair doente! e logo agora!

A Justina demorou-se mais do que contava. Uma semana depois da sua
partida Magd, que no havia comparecido ao almoo, fez voltar o lanche
das duas da tarde, que o pai lhe mandara levar ao quarto.

-- No me aborrea! Gritou ela  substituta da Justina; uma sujeita alta,
ossuda, de nariz comprido e mal encarada. Cheirava a morrinha de
cachorro, Magd no a podia ver.

-- Saia daqui! No ouviu?

A mulher observou com a sua voz grossa e compassada:




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-- O senhor disse para a senhora no deixar de tomar ao menos o caldo,
que foi temperado por ele.

-- Papai que me deixe em paz! Ponha-se l fora! Ponha-se l fora!

A criada saiu, tesa que nem um granadeiro, a resmungar com a bandeja
nas mos; e Magd fechou a porta sobre ela, com estrondoso mpeto,
atirando-se depois no div e sacudindo a cabea como se estivesse
sufocada.

-- Que gente, meu Deus! Que gente!

E levou uma boa hora a fitar um s ponto, com os olhos apertados e as
sobrancelhas franzidas e mais retorcidas que um recamo japons. Ergueu-
se afinal, inteiriada num espreguiamento suspirado e longo, deu em
seguida alguns passos indolentes pela alcova, tomou um resto de leite frio
que havia numa xcara sobre a mesa, e encaminhou-se sonambulamente
para a janela. A encostou o rosto entre os dois vares da grade e segurou-
se com as mos nos outros que ficavam mais prximos.

-- Ah!... respirou, igual ao cego que obtm, depois de grandes esforos,
chegar ao ponto que deseja. E olhou  toa para os fundos do cu que se
estendiam l por detrs do horizonte. E seu olhar errou pelo espao,
perdido como andorinha doida a que roubassem o ninho, percorrendo
inquieta e tonta, de um s vo, lguas e lguas de azul, at ir afinal cair
prostrada, de asas bambas, no cimo da pedreira que lhe enfrontava com a
janela.

Prendeu-lhe toda a ateno o que se passava ali; os trabalhadores
suspendiam por instante o servio, alvoroados com a chegada de uma
raparigona que lhes levava o jantar. Que alegria! A cachopa era sem
dvida mulher de um deles, o mais alto e mais barbado, porque ela, mal
soltou no cho o cesto de comida, lhe arrumou uma carcia de gado grosso
um murro nos rins, e retraiu-se logo, a rir, toda arrepiada, esperando que
o macho correspondesse. Este cascalhou uma risada de gozo alvar e
ferrou-lhe na anca a sua mo bruta de cavoqueiro, to escrostada e
escamosa, que se no podia abrir de todo. Depois; acercaram-se de um
pedao de pedra, em que a mulher foi depondo o que trouxera na cesta; e
de ccoras, ao lado uns dos outros, puseram-se todos a comer
sofregamente, no meio de muito rir e palavrear de boca cheia.

Magd, sem conseguir escutar o que eles tanto conversavam, no lhes
tirava os olhos de cima, profundamente entretida em ver aquilo. E, coisa
estranha, em tal momento daria de bom grado os melhores diamantes que


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possua para ter ali um pouco do que eles comiam l no alto da pedreira
com tamanha vontade. Ela, que j no podia sofrer os imaginosos acepipes
da mesa de seu pai, sentia vir-lhe gua  boca pela comida dos
trabalhadores, e at parece incrvel, tinhas desejos de beber da mesma
garrafa em que eles bebiam pelo gargalo, fazendo questo para que
nenhum lograsse ao outro.

No dia seguinte, justamente quelas horas, apresentou-se ao pai, j
vestida e pronta para sair.

-- Bravo! Exclamou o Conselheiro, surpreendido pela novidade -- Bravo!
muito bem!

E marcou apressado a pgina do livro que estava lendo e, como se
temesse que a filha mudasse de resoluo, correu logo a buscar o chapu
e a bengala. "Ora at que enfim aquela preguiosa se resolvia a passear!"

Quando se achavam na rua, Magd foi tomando a direo da pedreira; o
pai acompanhou-a sem proferir palavra. S pararam l perto.

O morro, com as suas entranhas j muito  mostra, arrojava-se para o
cu, como um gigante de pedra violentado pela dor; via-se-lhe o mago
cinzento reverberar  luz do sol, que parecia estar doendo. E enormes
avalanches de granito, rudas e arremessadas pela exploso da plvora,
acavalavam-se em ciam  base da rocha, lembrando estranha cachoeira
que houvera-se petrificado de sbito. C em baixo, daqui e dali, ouviam-se
retinir ainda o pico e o macete, e l no alto, no escalavrado cume do
penhasco, quatro homens, agarrados com todos os dedos a um imenso
furo de ferro, abriam penosamente uma nova mina no granito, gemendo
em tom montono e arrastando uma toada lgubre.

De cada vez que eles suspendiam a formidvel barra de ferro para
deixarem-na cair novamente dentro do furo, recomeava o choro
lamentoso que, de to triste, parecia uma splica religiosa.

-- Vamos l?... props Magd ao pai, depois de admirar de perto aquele
monstro que ela contemplava todos os dias da janela gradeada do seu
quarto.

-- Onde, minha filha?... perguntou o Conselheiro, sem nimo de acreditar
no que ouvia.

-- L em cima, onde aqueles homens esto brocando a pedra. Quero ver
aquilo.


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-- Ests sonhando, ou me supes to louco que consinta em tal
temeridade? Esta pedreira  muito alta!

-- No faz mal...

-- Sentirs vertigens antes de chegar ao fim!

-- Mas eu quero ir!

-- Deixa-te disso.

-- Ora que me ho de contrariar em tudo!

--  que  uma imprudncia sem nome o que desejas fazer, minha filha!

J amuada, soltou-se do brao do pai e correu para os lados por onde se
subia  montanha.

-- Espera a! gritou o velho tentando alcan-la! espera a, caprichosa! Eu
te acompanho!

A caprichosa havia galgado o primeiro lance de pedra.

A subida foi penosa.

Ah! o caminho era muito estreito, irregular e coberto de calhaus. O p s
vezes no encontrava resistncia, porque o cascalho rodava debaixo dele.

Mas subiam. Magd, sem querer dar parte de fraca, segurava-se
arquejante ao brao do pai; este mesmo, porm, sabe Deus com que
herosmo conseguia no perder o equilbrio.

-- Vamos adiante! Vamos adiante! Dizia ela, quase sem flego.

-- Descansemos um pouco, minha filha.

No, ela no descansaria, enquanto no alcanasse o morro. Felizmente o
caminho em cima era quase plano e com pequeno esforo chegava-se da
ao lugar onde trabalhavam os quatro homens. Mais um arranco, e l
estariam.

Afinal conseguiram chegar. Mas, ah! quando a pobre Magd, toda trmula
e exausta de foras, j no tope da pedreira, defrontou com o pavoroso




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abismo debaixo de seus ps, soltou um grito rpido, fechou os olhos, e
teria cado para trs, se o Conselheiro no lhe acode to a tempo.

-- Magd, minha filha! Ento! ento!

Ela no respondeu.

-- Est a! est a o que eu receava! Lembrar-se do subir a estas alturas!...
E agora a volta...?

-- Pode voscncia ficar tranqilo por esse lado, arriscou um dos
cavoqueiros, que se havia aproximado, a coar a cabea. -- Se voscncia
quiser, eu c estou para por esta senhora l em baixo, sem que lhe
acontea a ela a menor lstima.

-- Ainda bem! respondeu S. Ex. com um suspiro de desabafo.

O trabalhador que se ofereceu para conduzir Magd era um moc de vinte
e tantos anos, vigoroso e belo de fora. Estava nu da cintura para cima e a
riqueza dos seus msculos, bronzeados pelo sol, patenteava-se livremente
com uma independncia de esttua. Os cabelos, empastados de suor e p
de pedra, caram-lhe sobre a testa e sobre o pescoo, dando-lhe uma
satrica feio de sensualidade ingnua.

-- Vamos! Vamos! Apressou o Conselheiro, entregando-lhe a filha.

O rapaz passou um dos braos na cintura de Magd e com o outro a
suspendeu de mansinho pelas curvas dos joelhos, chamando-a toda contra
o seu largo peito nu. Ela soltou um longo suspiro e, na inconscincia da
sncope, deixou pender molemente a cabea sobre o ombro do cavoqueiro.
E, seguidos de perto pelo velho, l se foram os dois, abraados, descendo,
p ante p, a ngreme irregularidade do caminho.

Era preciso toda ateno e muito cuidado para no rolarem juntos; o moo
fazia prodgios de agilidade e de fora para se equilibrar com Magd nos
braos. De vez em quando, nos solavancos mais fortes, o plido e frio
rosto da filha do Conselheiro roava na cara esfogueada do trabalhador e
tingia-se logo em cor de rosa, como se lhe houvera roubado das faces uma
gota daquele sangue vermelho e quente. Ela afinal teve um dobrado
respirar de quem acorda, e entreabriu com volpia os olhos. No
perguntou onde estava, nem indagou quem a conduzia; apenas esticou
nervosamente os msculos num espreguiamento de gozo e estreitou-se
em seguida ao peito do rapaz, unindo-se bem contra ele, cingindo-lhe os
braos em volta do pescoo com a avidez de quem se apega nos


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travesseiros aquecidos para continuar um sono gostoso e reparador. E caiu
depois num fundo entorpecimento, bambeando as plpebras; os olhos em
branco, as narinas e os seios ofegantes; os lbios secos e despregados,
mostrando a brancura dos dentes. Achava-se muito bem no tpido
aconchego daquele corpo de homem; toda ela se penetrava do calor
vivificante que vinha dele; toda ela aspirava, at pelos poros, a vida forte
daquela vigorosa e boa carnadura, criada ao ar livre e quotidianamente
enriquecida pelo trabalho braal e pelo prdigo sol americano. Aquele calor
de carne s era uma esmola atirada  fome do seu miservel sangue.

E Magd, sentindo no rosto o resfolegar ardente e acelerado do
cavoqueiro, e nas carnes macias da garganta o roagar das barbas dele,
speras e mal tratadas, gemia e suspirava baixinho como se estivesse a
acarinh-la depois de longa e assanhada pugna de amor.

Quando o moo, j em baixo, a deps num banco de pedra que ali havia, a
enferma abriu de todo os olhos, deixou escapar um grito e cobriu logo o
rosto com as mos. Agora no podia encarar com aquele homem de corpo
nu que ali estava de fronte dela, a tirar com os punhos o suor que lhe
escorria em bagas pela testa.

Chorou de pejo.

O seu pudor e o seu orgulho revoltaram-se, sem que ela soubesse
determinar a razo porque. Uma clera repentina, um sfrego desejo de
vingana, enchiam-lhe a garganta com um novelo de soluos. O pranto
parecia sufoc-la quando rebentou.

-- Eu maguei-a,  patroazinha?... perguntou o trabalhador, com
humildade, quase sem poder vencer ainda o cansao. E o imprudente
tocou com a mo no ombro de Magd, procurando, coitado, dar-lhe a
perceber o quanto estava consumido por v-la chorar daquele modo. Ela
estremeceu toda e fugiu com o corpo, nem que se houvessem chegado um
ferro em brasa; e abraou-se ao pai, escondendo no peito deste os soluos
que agora borbotavam sem intermitncia.

O pobre cavoqueiro, ainda com o peito para cima e para baixo, quedava-se
a olhar para os dois com uma cara palerma de desgosto. E assim que ele
fazia o menor movimento de corpo, a senhora retraa-se assustada e
enterrava mais a cabea entre os braos do Conselheiro. Foi preciso que
este o afastasse dali, dizendo-lhe que lhe aparecesse logo mais em casa
para receber uma gorjeta.




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Mal se pilhou no quarto, Magd foi estraalhando as roupas, como se as
trouxera incendiadas; mas sentia tambm nos seus cabelos, no seu rosto,
em toda ela, o mesmo cheiro de animal suado, o mesmo enjoativo bodum
de carne crua. Parecia-lhe mais -- que a sua prpria transpirao j
tresandava quele mesmo fartum do moc da pedreira.

-- Diabo! diabo! diabo!

E os movimentos que fazia par sacar a camisa eram to violentos, que ela
parecia querer arrancar at a prpria pele do corpo.

Um mal querer desnorteado, contra tudo e contra todos, apoderou-se do
seu esprito. Estava furiosa e mais ainda por no saber contra quem e
contra o que.

No podia queixar-se a ningum, nem de ningum, e sentia-se no entanto
ofendida, ultrajada, no seu orgulho e no seu pudor. A vontade que tinha
era de mandar matar no mesmo instante aquele maldito homem -- para
nunca mais o ver, para nunca mais o sentir.

S depois de muito bem lavada e coberta de perfumes, recolheu-se 
cama, ainda estrangulada de raiva. Tambm, foi s adormecer e comeou
logo a sonhar com o amaldioado cavoqueiro.

IX

Sonhou com ele a noite inteira; mas que sonhos! E o melhor  que ento o
pobre diabo lhe j aparecia no por um prisma repugnante; ao contrrio
imaginando-se ao lado daquele corpo robusto, Magd sentia todo o seu
organismo rejubilar de satisfao; ainda melhor do que quando se
aninhava no colo de Justina. Perto dele gozava, em sonho, um bem-estar
de calmo conforto, como o dos tsicos junto aos bois, na morna atmosfera
dos currais.

Tanto o amaldioara acordada, quanto o estremecera durante o sonho;
este contudo nem sempre foi agradvel e em certas fases at pelas
horripilaes do pesadelo.

Comeou vendo-se no alto da pedreira, a olhar para o espao, justamente
como acontecera na realidade; mas a pedreira afigurava-se-lhe agora trs
ou quatro vezes maior. De repente, falta-lhe o terreno debaixo dos ps, e
ela cai, no para trs e sim bem de frente -- no ar. Nisto, uma garra
fortssima empolga-lhe as roupas das costas, sustentando-lhe a vertigem
da queda, sem todavia impedir que ela continuasse a resvalar; mas j no


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cai, desliza suavemente, como se estivesse voando. Um brao musculoso
cinge-lhe as curvas dos joelhos, outro toma-a pela cintura e o seu colo 
recebido em cheio por um largo peito nu, onde h cabelos que lhe pem
ccegas na pele: Magd ri com as ccegas, e sua cabea repousa num
tureo pescoo de Hrcules, cujo suor lhe umedece as faces. E, assim
abraados, deslizam voluptuosamente no espao, descendo numa
embriagadora delcia de vo contnuo.

O vo dura um tempo infinito. E ela, como receiando ficar desamparada,
trata de agarrar-se ao outro o melhor que pode. Estreitam-se mais.

E mais.

H j um princpio de frenesi no modo por que se estreitam. A moa
procura com nsia unir-se bem ao corpo do cavoqueiro; quer que seus
peitos lhe fiquem bem colados ao peito; quer que os seus braos sintam
em toda a extenso a carne das espduas do homem; que a sua barriga se
ajuste  dele e que as suas coxas lhe apalpem os rins.

E continuam a descair, a descair, sem para nunca. Magd sente nas faces
uma impresso desagradvel de frio; sela imediatamente o rosto contra o
outro rosto, e deixa-se aquecer, ao calor de beijos. Ento os seus olhos
desmaiam de gosto; as suas narinas arfam com mais fora, porque ela no
pode respirar pela boca, que est toda tomada pela outra boca. Um arrepio
percorre-lhe o corpo, agitando-o at na mais pequenina fibra; e o seu
sangue enlouquece; e os suspiros quebram-se-lhe na garganta,
desfazendo-se em gemidos.

E estreitam-se mais. E unem-se. E confundem no ar os membros enleados
e trmulos. O cavoqueiro solua, arqueja; ele j no tem uma s parte de
si em que no o sinta. E, de improviso, um violento sopro de vida a invade
toda, esquentando-a por dentro, penetrando-lhe as vsceras, soprando-lhe
nas veias um calor estranho, alheio, que a ressuscita e faz saltarem-lhe
dos olhos lgrimas de gozo.

Terminaram caindo, ainda abraados, aos ps do Conselheiro, que os
esperava l em baixo, vestido com uma tnica vermelha e agitando na
mo, colericamente, a sua grossa bengala de cana da ndia. Magd
escondeu o rosto. Mas desta vez no era o moo da pedreira quem lhe
fazia vexame, era o prprio pai; no foi, pois, o colo deste que ela agora
procurou para ocultar o orvalho do seu pudor, foi o colo do outro.

Houve um duro silncio, durante o qual S. Ex., cujas barbas haviam
crescido muito, e cuja calva reluzia que nem a de um patriarca da Bblia,


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olhava, ora para a filha, ora para o rapaz, como se estivesse a compar-
los.

-- Com efeito!...

E sacudia a cabea, e esticava os beios, sem desviar a vista. No capricho
do sonho, o pobre Conselheiro tinha perdido as suas maneiras distintas e
afveis, e at no modo de se exprimir era grosseiro e burgus.

-- Com efeito!... repisou ele, estalando um riso de sarcasmo. --  at onde
pode chegar o aviltamento!... Dar-se a um trabalhador da mais baixa
espcie!...  inacreditvel!

-- A culpa no foi minha, papai...

-- Cale-se! No sei onde estou, que lhe no quebre esta bengala nas
costas!

-- Creia, patro, que... ia arriscar o rapaz.

--  tratante! berrou o velho. -- Ainda te atreves a abrir o bico? Ora
espera que te ensino!

E cresceu para o moo, que o esperou sem tugir nem mugir, com o
aspecto resignado de uma besta que tem dono. Magd, porm, j se havia
metido entre os dois e , de joelhos, chorando, abraava-se s pernas do
patriarca.

-- Piedade, meu pai! piedade!

-- Qual piedade, nem qual carapuas! No fosse to assanhada!

-- Tenha compaixo de dois infelizes, cuja falta foi s uma e nica...

-- E acha pouco, sua desavergonhada? Acha talvez que esta no basta
para me fazer subir ao arame! Tem graa!

E, enquanto a filha soluava, sem erguer os olhos: -- Ingrata! Eu a matar-
me para a fazer gente; para lhe ar uma certa educao -- e ela a meter-
me os ps! Criar uma filha com tanto carinho, para v-la depois entregue a
um homem de pedreira!...

-- Perdoe, meu pai!




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-- No perdo nada!

-- Juro-te que no tenho culpa do que sucedeu...

-- Perversa! Eu a sacrificar-me a instru-la e arranjar-lhe um futuro, e ela a
sujar-se de lama e a cobrir-me de vergonhas!

-- No fui eu, papai, foi a minha natureza; foi a minha carne; foram os
meus sentidos!...

-- Qual carne, nem qual sentidos! A patifaria tem sempre desculpas!

Fez uma pausa e prosseguiu depois, comovendo-se, mau grado seu: --
Dei-lhe tudo o que se podia desejar! Foi j o professor de piano; foi j o
professor de canto; foi j o mestre de desenho! E venha o explicador de
francs! E venha outro para histria e geografia ptria! E outro para isto! E
outro para aquilo! E compre-se mais este dicionrio! E assine-se mais este
jornal! E corra-se aos Casteles a buscar o camarote do Lrico! E olhe o
carro que no esquea! E veja essa luva de vinte botes que saia! E venha
a bela da jia! E venha o belo vestido de seda! E olhe o chapu  Sarah
Bernhardt! E olhe as regatas! E olhe as corridas! E dem-se festas todos os
meses! E faam-se viagens  Europa! -- E tudo isto afinal p'ra que? -- Sim!
tudo isto p'ra que?! S quero que me digam de que serviu tanto sacrifcio!

-- Perdoe-me!

-- No! no perdo, nem devo perdoar! Se queria casar, h muito tempo
que o podia ter feito; o que no lhe faltou foram pretendentes! A senhora
torceu o nariz a todos! E, logo que o Dr. Lobo me fez ver a necessidade
urgente de uni-la a algum, trouxe-lhe o meu amigo Jos Furtado!

-- Um velho!

-- No ser uma criana, mas tambm no  nenhum bisav! Outra
qualquer a teria agarrado com unhas e dentes! Um homem de conta, peso
e medida!

-- Pudera! Principiou a vida a limpar pesos e balanas!

-- E que tem isso? Um homem honrado, trabalhador e econmico. Entrou
na vida com um barril nas costas, mas hoje  uma das mais slidas
fortunas do Rio de Janeiro!

-- No  de dinheiro que eu preciso!


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-- Pois ento casasse com o Dr. Tolentino...

-- Um defunto!

-- Defunto! No ter uma sade perfeita, coitado, mas  uma das mais
bem constitudas cabeas do Brasil. Muito talentoso, muito ilustrado!
Membro da Sociedade de Geografia de Lisboa, e consta at que vai receber
diploma de scio no sei que importante congregao cientfica da Blgica!

-- Tambm no  de cincia que eu preciso!

-- Nesse caso, porque no aceitou o Conde do Valado?

-- Um libertino!

-- No  tanto assim.

-- Um vicioso comum que, se deixa de falar um instante em cavalos, 
para discutir cocotes.

-- Que exagero! No direi que os seus costumes sejam to puros como os
do comendador Jos Furtado ou como os do Dr. Tolentino, mas  um moc
ilustre, descendente em linha reta de uma das mais importantes casas de
Portugal. Seus avs figuraram todos na histria e o seu nome tornaria
fidalga a mulher que o possusse!

-- Eu no preciso de nobreza!

-- No precisas de nobreza; no precisas de cincias; no precisas de
dinheiro! Ento de que diabo precisas tu?

-- De um homem...

-- Um homem! Quanta desfaatez! De que precisavas, grandssima
desavergonhada, era de uma boa carga de pau, para te apagar o fogo do
rabo!

E o velho, possuindo-se de novo acesso de clera, estendeu o brao,
enxotando a filha e mais o moo da pedreira.

-- J! Rua seus bandalhos! E que eu nunca mais lhes ponha a vista em
cima! Esto amaldioados!

-- Meu pai! meu pai!



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-- Aqui j no h pai, nem me! No sou pai de mulheres -toa! Ponham-
se a andar, e que sejam muito felizes! Boa viagem!

-- Deixe-me ao menos ir l dentro buscar as minhas jias, um pouco de
roupa e os meus livros...

-- Jias, roupas, livros! para que? A senhora j no tem tudo quanto
deseja, para que mais?... As boas roupas fizeram-se para os nobres, as
jias para os ricos e os livros para os sbios! A senhora nada tem que ver
com esta gente e com estas coisas! S queria "um homem", pois j o tem!
 andar! Ele que lhe compre jias; que se encarregue de vesti-la, de
sustent-la e de consol-la. Tem obrigao disso; e, se no dispe de
meios, invente-os -- trabalhe! Se no puder trat-la a bicos de rouxinol,
comam feijo com carne seca, que a senhora tem obrigao de contentar-
se com o que ele lhe der!  o "seu homem" e, por conseguinte,  quem de
hoje em diante a governa com direito de vida e de morte! Acompanhe-o
submissa para onde ele for, seja para o inferno ou seja para o paraso! A
partir desse momento-- o seu destino  o dele! E deixem-me!

-- Meu pai!

-- Foi tempo! Nada mais h de comum entre ns! Para continuar a ser seu
pai, seria preciso que eu me fizesse pai tambm daquele pedao d'asno; e
eu no quero ter filhos de tal espcie!

E S. Ex,. notando que Magd no se resolvia a largar-lhe as pernas e
continuava a chorar, ordenou, voltando-se para o cavoqueiro:-- Ol, seu
coisa! Tome conta dessa mulher!  sua! Pode lev-la para onde bem
entender!

-- Ah! exclamou a filha, caindo por terra, de borco, com os braos
estendidos no cho, enquanto o velho, arrepanhando a sua tnica da cor
simptica s histricas, se afastava para casa, muito fresquinho e senhor
de si, assoviando, de cabea impertigada, nem como se a coisa tivera sido
com ele.

Magd permanecia de bruos, a soluar. Ento o moc da pedreira
inclinou-se sobre ela e deu-lhe com toda delicadeza u sculo nos cabelos.
Depois tomou-a ao colo e ps-se a caminhar, vagarosamente, muito
vagarosamente, na direo da fatal montanha onde ele trabalhava. E toda
a natureza, que parecia haver entristecido e tomado luto com a maldio
do velho, comeou a reanimar-se, a rir de novo, tingindo-se de luz
purprea e entoando em voz baixa epitalmeos sensuais. E os dois,
abraados, formando um s grupo, lentamente penetraram numa deliciosa


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alameda de laranjeiras, cujos galhos se vergavam na sua passagem para
lhes beijar a fronte, derramando-lhes sobre a cabea uma odorfera chuva
de flores desfolhadas. E do cu baixava doce harmonia religiosa, que
parecia balbuciada por uma nuvem de anjos.

Nisto -- despertou.

Circunscreveu o olhar em torno de si, reconhecendo a custo a prpria
alcova. O seu pequeno relgio Luiz XV, de bronze dourado, marcava, no
mostrador de porcelana de Svres esmaltada, meia hora depois do meio-
dia. Uma cortina cinzenta, de seda de Leo, quebrava na janela a luz que
batia de fora, e dava ao quarto o tom opalino de um crepsculo de inverno.
Magd suspirou, espreguiando-se. O drama fantstico de toda aquela
noite dissolveu-se: teatro e personagens desapareceram. Mal ouvia-se,
ainda, bem distintamente, o tal coro religioso que baixara dos cus para
solenizar a sua passagem na encantada alameda; a moa soergueu-se no
leito, concheando a mo no ouvido que ficava do lado da janela e, meio
maravilhada, ps-se a escutar com ateno aquela tristonha cantilena que
persistia ali, na vida real, como um prolongamento do sonho.

Caiu logo em si: era a toada melanclica dos trabalhadores que minavam a
pedreira. E ali deixou-se tombar de novo sobre os travesseiros e a
permaneceu, com os olhos muito quietos, enquanto duas lgrimas lhe
serpeavam ao comprido das faces.

Oh! Sentia-se profundamente envergonhada do que sonhara a noite
inteira.

-- Minha'alma, rosnou a nova criada, afastando o reposteiro da porta com
a cabea -- o senhor mandou perguntar como vosmec passou de ontem
p'ra hoje.-- Diga-lhe que pode vir daqui a pouco, e voc volte j para me
vestir.

Quando se achou preparada, foi esperar o pai na sal contgua  sua alcova.

-- Ento, minha filha, como passaste a noite.

-- Bem, respondeu ela, beijando-lhe a mo.

-- Dormiste?

-- Bastante.




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-- Pareces-me, no entanto, fatigada... Como te sentes hoje de humor! --
No mesmo.

-- Aquela loucura de ontem...

Magd estremeceu e abaixou as plpebras. Dir-se-ia que o pai lhe lanava
no rosto uma falta humilhante.

-- Ficaste to apreensiva com a tal subida da pedreira que...

--  melhor no falarmos mais nisso...

E tomou as mos do Conselheiro, fazendo-o chegar-se para bem junto
dela. E, depois de contempl-lo em silncio com um meio sorriso, abraou-
o, demoradamente, como se procurasse ficar convencida por uma vez de
que aquelas tolices do sonho no tinham o menor fundamento, e que seu
pai, o seu extremoso pai, a quem tanto queria do fundo do corao, ainda
ali estava a seu lado, para am-la como sempre e proteg-la contra o
maldito intruso que habitava dentro dela e que a consumia para alimentar-
se.

-- O senhor  muito meu amigo, no  verdade, papai?...

-- Ora, que pergunta, minha filha!

-- Diga!...

-- Pois ainda no tens certeza disso?

-- E o senhor seria capaz de abandonar-me, capaz de desprezar-me, fosse
l pelo que fosse?

-- Mas que lembrana  esta, Magd? Desprezar-te, eu? Enlouqueceste!

-- Ama-me muito, no  verdade? Por coisa alguma desta vida seria capaz
de enxotar-me da sua companhia, no  assim? Responda.

-- Deixa de criancices, minha flor, e olha! -- toma o teu chocolate que ali
est esfriando h meia hora. Mas que  isto?... Choras?... Ento! ento!
Que tu sentes, Magd? Fala, meu amor.

Ela comeou a soluar.

-- Nada! nada! nervoso! Acordei hoje muito nervosa!



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-- Mas no te aflijas deste modo. Vamos -- toma o teu chocolate e desce
comigo ao jardim. Anda! V se consegues no pensar em coisas que te
faam mal... No sejas crianas...

O Conselheiro,  fora de carinhos, conseguiu que ela tomasse, alm de
meia chavena de chocolate, uma colherada do xarope de Esston, que o Dr.
Lobo havia receitado.

A arrastou-a para a chcara.

Mas, pobre senhora! mal acabava de descer a escada do jardim, deu logo,
cara a cara com o moo da pedreira, que ia buscar a esprtula prometida
pelo Conselheiro.-- Ah! exclamou toda trmula, corando e abaixando as
plpebras. E tratou de abraar-se ao pai e esconder a cabea no colo
deste, como na vspera, depois da sncope.

O bom velho no pode compreender o que era aquilo.

-- Tens alguma coisa? perguntou. -- Sentes alguma novidade? Fala.

-- Voltemos para cima! Voltemos para cima! Dizia a moa, aflita, sem
mostrar o rosto.

O trabalhador, muito rendido, continuava defronte deles, com os olhos em
terra, a torcer vexadssimo entre as mos e o seu seboso casquete de pele
de lebre.

--  patro, se quer, eu apareo noutra ocasio...

-- Sim, sim,  melhor, volveu o Conselheiro, muito ocupado com Magd.

-- No! acudiu esta, sempre com o rosto escondido. -- Despache-o de uma
vez! Para que fazer este homem voltar ainda aqui?

Ao perceber uma pequena parte destas palavras, o cavoqueiro fez uma
careta que tanto podia ser de surpresa como de lstima, e resmungou
meio sentido:

-- Voscncia queira desculpar, mas eu, se aqui vim, foi porque me
disseram p'ra vir... Tinha que com isso no ofendia pessoa alguma... mas,
a vista de que ando mal, peo desculpa e o mais que posso fazer --  no
tornar c!




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-- No! ops S. Ex. -- Espere um instante. E, passando o brao pela
cintura da filha, segredou ao ouvido desta: -- Vamos, vamos l para cima.
Creio que hoje no ests boa...



X

O cavoqueiro ficou a esperar no jardim, encostado p'r'ali numa rvore, e a
fazer de l suas consideraes.

-- Que macacos o lambesse se entendia aquela gente! A tal dos "me
deixes" ficara a modos que assanhada quando ele lhe ps as vistas em
riba! Pois estava que no havia razo de zangar, antes pelo contrrio --
havia p'r'agradecer: Sim! Prestara-lhe um servio; que no era l nenhum
grande servio; mas enfim, que diabo, na ocasio, ela no tinha quem a
pusesse c em baixo!

Tecia este raciocnio quando sentiu no ombro uma palmada de mo
polpuda.

-- Ests a cismar,  Luiz!

-- Ol, S'ra Justina! Bons olhos a vejam! Como chegou vosmec?

Ela chegara bem, graas a Deus.

-- E o pequeno? Como ficou?

-- Ora! Pronto p'ra outra!

-- Vosmec est chegando agora!

-- No. J estive l na estalagem com a tua gente. Esto muito apertadas
de servio com a roupa de uma famlia que embarca depois d'amanh. E
tu! No foste hoje ao trabalho?

-- J se v que sim, Pus o casaco para vir aqui, mas volto.

-- Isto  novidade...

-- No  nada,  que ontem a senhora a de cima...

-- Minh'ama...



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-- Deve ser -- foi passear l na pedreira e...

-- Ah! Ela subiu  pedreira...?

-- Subiu, mas caiu, logo com um faniquito: eu carreguei-a c p'ra baixo...
Vai ento o pai -- disse-me que lhe aparecesse para me dar ma gorjeta, e
eu vim. Ora a tem vosmec!

-- `Sta direito. J falaste?

-- J, mas no entendo esta gente. Se a S'ora Justina chega um bocadinho
antes, havia de presenciar o mais bonito!

-- Qu'houve?

-- Pois a moa no fez aqui umas partes?...

-- Que foi, Luiz?

-- Pois no! Vinha descendo muito bem a escada e assim que me bispou -
zs!

-- Zs -- como?

-- Abriu a chorar que nem uma criana, e agora o vers.

-- Coitada! Eu sei --  molstia!

E a Justina comoveu-se. Sempre que lhe tocavam na ama, apertava mais
as sobrancelhas e ficava com uma cara de profunda lstima.

-- Arrenego de tal molstia! replicou o trabalhador. -- Uma coisa d para
espantos, nem que a gente fosse alma do outro mundo! Olhe que se o pai
no me dissesse para esperar aqui, juro-lhe que j c no estava! Diabo de
uma esganiada, que parece que est parte no parte pelo meio! Ontem,
quando a trouxe, tive medo de chegar c embaixo com um pedao em
cada mo!

-- No sejas m lngua, Luiz! No seria a primeira vez que perdesses por
falar de mais! Se no fosse semelhante balda, estarias a esta hora casado
j com a Rosinha...

-- Ora, sua mana mesmo foi que teve a culpa! Ela gosta mais de falar do
que eu!



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-- Como teve a culpa, se tu s que andavas todo o santo dia a debicar o
Comendador? Pois no dizias a todo mundo que ele era um sapo-boi e no
o arremedavas l na estalagem para quem queria ver?... A caoada chegou
aos ouvidos do homem, e ele de o dito pelo no dito - no quis mais ajudar
o casamento da afilhada... Fez muito bem! Tu, no caso dele, farias o
mesmo! Como no?

-- Sim, mas se sua irm no fosse l contar o que se fazia na estalagem, o
homem no bufava e teria cado com os cobres para o enxoval!

-- Fez de tola!

-- Ah! mas deixe estar que o casrio h de ser, mesmo sem a ajuda do
sapo velho! O pobre tambm vive!

A outra era do mesmo parecer: -- Como no? que isto de raparigas, a
gente deve despach-las logo, antes que o demo as tente!

E, vendo que um escravo do Conselheiro descia a escada. -- Olha! A vem
o negro com a tua gorjeta.

Com efeito, eram dez mil ris que o pai de Magd mandava ao cavoqueiro.

-- Que fico muito obrigado, ouviu? E quando precisar, l estou s ordens.

O escravo afastou-se.

-- V l agora se te metes hoje nalguma bebedeira!... observou Justina, a
bater-lhe no ombro. -- E at logo, que ainda no me apresentei  patroa!

J a certa distncia, parou, para gritar:

-- Olha! dize  tia Zefa que no me deixe o pequeno socar-se muito de
aipim, que foi isto o que derrubou o outro!

E galgou de carreira a escadaria do Conselheiro, num ativo remeximento
de quadris em evidncia.

-- Vou comprara um bilhete inteiro! Deliberou consigo Luiz, guardando a
cdula na algibeira.

Luiz era filho da tia Zefa, e morava com esta, mais a av e mais a Rosinha,
irm de Justina e noiva dele, na tal casita de duas janelas, com entrada
pela estalagem que ficava em frente da chcara do Sr. Conselheiro. Viera



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novo para o Brasil, onde se achava perfeitamente aclimado; no sabia ler
nem escrever; tinha, porm, fora e sade, "que  o principal para quem
deseja ganhar a vida". O seu casamento estava j para se realizar havia
um ano, porque Luiz queria fazer coisa aceiada. "No! Que para um
homem atrasar a vida, junto com a da mulher, antes fique solteiro! A
pequena que esperasse , que o que tinha de ser dela s mos lhe chegaria!
Com outra no se casava -- isso  que era dos livros! Ah! se a fortuna se
lembrasse dele, j tudo estaria feito; mas o diabo da sorte andava arisca;
todos os vigsimos da loteria, que ele comprara s ocultas da me e da
av, saram-lhe brancos... S mesmo podia contar com o triste
peculiozinho do trabalho; o verdadeiro, por conseguinte, era ir se
preparando aos poucos -- hoje com uma coisa, amanh com outra,
conforme desse o cobre e conforme as pechinchas que aparecessem. Seu
padrinho de batismo, um velhote apatacado que emprestava dinheiro a
juros, esse prometera entrar com uma famosa cama de jacarand, que
tinha em casa e da qual no se servia desde a morte da mulher. Ah! esse
no era o Comendador! Muito seguro, muito apertado, no havia dvida!
mas, tambm, prometendo, podia a gente contar com o bruto -- a cana
era certa! Ora, pois, com o dinheiro que l estava na Caixa Econmica, ele
teria um fato novo e um arranjo de roupa branca. Vinte e cinco mi ris
seriam para um relgio de prata dourada, dos modernos. -- Isso era
sagrado! Porque ele no admitia que ningum se casasse sem ter relgio e
corrente. Corrente j tinha -- cordo de ouro que foi do pai e que vivia
fechado na cmoda da tia Zefa ao lado dos ouros da famlia."

E estava a ver defronte dos seus olhos todo aquele tesouro: grandes
rosetas redondas e abertas, do tamanho de moedas de vintm; aneles de
chapa em cima; um crucifixo de trazer ao pescoo em dias de festa; uma
figa que era uma riqueza, no peso; um alfinete de peito representando um
anjo a tocar trombeta; trs pulseiras lisas e polidas; outras de coral com
fecho de ouro; vrios objetos de filigrama de prata fabricados no Porto; um
paliteiro e dois castiais tambm de prata, sem contar com dois
diamantezinhos que a vov ganhara aos vinte anos, quando se casou, e
que fazia questo de lev-los s orelhas para a sepultura. "Era l mania da
velhinha -- respeitava-se!"

"Ora... a Rosinha, alm de tudo, tinha tambm os seus cobritos juntos; por
conseguinte, Luiz, com mais algum tempo de economias, bem que podia
casar com ela". Foi sacudido por este risonho raciocnio que o cavoqueiro,
j de volta do servio, entrou em casa s sete da noite, mais satisfeito que
de ordinrio, graas  gorjeta do pai de Magd, e talvez por haver tomado
depois do trabalho alguns martelos de vinho com os companheiros.

A pequena sentiu-lhe cheiro de bebida logo que ele entrou.


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-- An... an...! Voc hoje entortou o cotovelo, hein, seu Luiz? Muito bonito!

-- Um nada! Foi para beber  sade da moa dali defronte...

-- A filha do Conselheiro... Ah! E deram a molhadura?

-- J se deixa ver que sim, Mas aviem-me esse jantar, que estou a tinir!

E assentou-se  mesa, que tia Zefa cobria nesse instante com uma toalha
de linho grosso, enquanto a Rosinha corria a buscar  dentro a tigela de
sopa. A av chegou-se tambm para v-lo comer, como fazia todos os
dias. Uma velhinha engraada, a vov Custdia! -- seca, pequenita, a pele
enrugada que nem um jenipapo maduro; a cabea que era um algodo; a
boca fechando e abrindo sempre, e toda cheia de pregas, tal qual a boca
de um saco fechado. Mas toda ela ainda esperta, agarrando-se  vida com
as unhas, que os dentes j  se tinham ido.

Sentia-se ali um cheiro especial de roupa engomada e de roupa lavada.
Justificando esse cheiro, viam-se acumulada por toda a parte, sobre as
mesas, sobre as cadeiras, pilhas de camisas dobradas, montes de peas
de roupa branca, e, dependuradas de uma corda, pelo cs, muitas
anguas, e muitas saias, penteadores bordados e vestidos de linho com
guarnies de renda. Um candieiro de querosene iluminava a pobre sala de
duas braas de largura e trs de comprimento, toda caiada de cima a
baixo, e com uma pequena barra de roxo-terra. Havia um armrio de pinho
sem pintura, onde se guardava a loua, aquela grossa loua de doze
vintns o prato, e aquelas canecas de p de pedra, onde eles tomavam
caf antes de levantar o dia. Na parede -- uma gaiola de pindoba com um
gaturamo. A casa constava ainda d duas alcovas e outra salinha; ao fundo
um pequeno quintal que dava para o cortio. Era propriedade da me do
Luiz; deixou-lha o marido, um ferreiro, que morreu de desastre.

O rapaz, enquanto jantava, falou a respeito das esquisitices da filha do
Conselheiro, causou grande impresso na sua gente. Quiseram
pormenores; crivaram-no de perguntas: "Se Magd tinha cara de doida; se
era bonita; se se dava ao respeito". Luiz respondia a tudo, devorando
colheradas de feijo amassado com farinha.

-- Pois mana Justina diz que ela  muito boa, observou Rosinha. -- E o
caso  que lhe tem dado muita coisa! Ainda h dias mostrou-me um anel,
que...

-- Um anel? De ouro?



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-- Sim, senhora, de ouro! Juro por esta luz! Eu vi! Lindo! Com umas
pedrinhas em ciam!

A notcia do anel abriu um silncio comovido.

A tia Zefa observou afinal:

-- Aquela chorou na barriga da me! Tem muita sorte o diabo da rapariga!
Ho de ver que ainda encontra marido, apesar dos filhos...

-- Ora se encontra! respondeu Luiz. -- Isso  to certo como me achar eu
aqui! Pois no se v como est o Manoel das Iscas por ela?... No fala
noutra coisa! "Porque a S'ra Justina p'ra c! A S'ra Justina p'ra l!" At
j fede!

-- Que me ests tu a dizer, rapaz?

-- Ora! Caidinho! E, se ela o souber levar, apanha-o mesmo!

-- Uma sorte grande! O Iscas j tem alguma coisa de seu!

-- Ol! S aquele correr de casas, que ele fez agora, d-lhe com que
passar mais duas vidas!...

Depois do Iscas, a filha do Conselheiro tornou a entrar para assunto da
conversa, e discutiram-se com assombro os presentes dados por ela 
Justina. Por fim o cavoqueiro ergueu-se da mesa, tomou a sua viola e foi
esperar pela hora de dormir, assentado  porta da estalagem, repinicando
o seu fado favorito. Rosinha acompanhou-lhe logo e instalou-se ao lado
dele como costumava fazer; ao passo que as duas velhas, tomando cada
qual a sua cadeira, ficaram defronte uma da outra, a falar; entre bocejos e
cochilos, no que tinham trabalhado esse dia e no que iam trabalhar no dia
seguinte. Da a pouco j no diziam palavra, e a prpria Rosinha dava
marradas no noivo, cabeceando de sono. S a viola do cavoqueiro
continuava bem acordada, quebrando o denso recolhimento das nove e
meia com o seu "tir-lim-tim-tim" montono e embebido de saudade.

Luiz cantava:

"O sol prometeu  lua
Uma faixa de mil cores;
Quando o sol promete  lua,
Que dir quem tem amores!...




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"Tir-lim-tim-tim! Tir-lim-tim-tim!

"Tia a amar-me, e eu a amar-te,
No sei qual ser mais firme!
Eu como sol a buscar-te,
Tu como sombra a fugir-me!"

Essa cantilena chegava at a casa do Conselheiro reduzida a uma toada
errante e to lnguida que entristecia. Magd escutava-o da sua alcova,
deitada no colo de Justina,  espera do sono.

E quando, l pela meia-noite, conseguiu adormecer, continuou logo a
sonhar com o moo da pedreira.

XI

O sonho ligava-se ao da vspera. Tornou a ver-se no colo do rapaz,
abandonando a casa paterna e dirigindo-se vagarosamente para a
montanha; esta, porm, surgia-lhe adora defronte dos olhos, no como
pedreira esbrugada, mas em plena efervescncia de verdura e toda coberta
de flores.

Comearam a subir. Uma floresta virgem abria-se diante deles, para lhes
dar passagem, e logo se fechava sobre os seus passos, como cortinas de
um leito de folhas. O moo parecia no cansar com o peso que levava, e
Magd por sua vez sentia-se leve, muito vaporosa; e,  proporo que se
afastava de casa e ia-se entranhando na mata, fazia-se melhor, mais
satisfeita e feliz.

Afinal, deram com uma plancie. Haviam chegado ao cimo da montanha; a
o crculo de verdura que os guardava abriu em clareira, destoldando o azul,
onde o sol resplandecia, transbordante de ouro por entre espumas de
prata. Reinava na luz um meio tom suave e comunicativo; tudo era doce,
temperado e calmo; as vozes da natureza chegavam aos seus ouvidos
apenas balbuciadas; as folhas e asas cochichavam, como se temessem
acordar algum; perto corria um regato sussurrando.

O moo pousou Magd sobre a relva e assentou-lhe ao lado dela, tomando-
lhe as mos entre as suas.

-- Como te sentes agora, minha flor! Segredou-lhe, aproximando o rosto.




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-- Muito, muito melhor... respondeu a filha do Conselheiro com um suspiro.
-- Sinto-me ainda um pouco fraca, mas conto que estes ares me restituam
as foras...

-- Em breve estars perfeitamente boa e sers completamente feliz! disse
o outro, e soltou-lhe um beijo na boca. Magd percebeu ento que o hlito
do moo tinha o perfume de murta, e que as barbas dele eram agora mais
macias do que os arminhos da sua sada de baile. E, encantada com a
descoberta, notou ainda que as mos do cavaqueiro j no eram to duras
e mal tratadas, mas bem torneadas e de uma flexibilidade muito enrgica e
nervosa; que o cheiro do seu corpo j no tresandava a cavalo suado, mas
rescndia a um odor fecundo de carne sadia e limpa, lembrando o cheiro
de leite fresco; que os seus dentes eram alvos e puros como as areias da
praia; que o seu peito era mais branco e mais rijo que o granito da
pedreira; que os seus cabelos, roando nela, acordavam desejos, e que
seus braos eram cadeias de fogo em que toda ela se abrasava de amor.

-- Gostas de me ter a seu lado?... perguntou ele.

-- Tu restitues-me a vida... respondeu Magd, cingindo-o pelos rins e
pousando o rosto abatido e frio sobre o colo vigoroso e largo do amigo. --
Oh! balbuciou depois, aconchegando-se mais -- como eu me sinto bem
assim! Com a cabea aqui! A gozar nos meus peitos o calor do teu corpo!
Deixa-me ficar ainda! Deixa-me ficar um instante, meu senhor e meu
amado!

E apertava-o nos mseros braos, fechando os olhos e aspirando com fora,
como se quisesse sorver de um s hausto, a vitalidade que ele de si
exalava, mais capitosa que o vapor de um vinho velho fervendo ao fogo.

-- Tu s s meu?

-- Todo teu e para sempre!

-- Nunca amars outra mulher?

-- No, Magd, nunca!

-- Se me esqueces por outra, eu morreria de cimes, antes que as feras
me devorassem aqui! Olha! v como, s com pensar nisto, tremo toda...

Ele puxou-a de vez para o seu colo e afagou-a.




                                                                        71
-- No chores, disse. -- Descansa, que nunca mais nos separaremos. Eu
serei eternamente o teu companheiro, o teu amigo, o eu esposo! Quando
te sentires com fora, irs a p, pelo meu brao, passear ao outro lado da
montanha, que ainda  mais belo do que este. Depois chegaremos at l
em baixo, no vale, onde encontrars tudo o que de melhor h na vida: os
mais saborosos frutos, as flores mais mimosas, as aves mais lindas, as
guas mais puras, o sol mais carinhoso e os seres mais benfazejos da
natureza. L tudo  nosso amigo; tudo nos ama; nenhuma ente da terra te
far mal, porque aqui tu s rainha e eu sou o rei. No tenho para te
oferecer aposentos como os de teu pai; no tenho carruagens, nem sedas,
nem baixelas de prata; mas, em compensao, nenhuma outra te
disputar o poder sobre estes teus domnios, nem o amor deste teu
escravo! Quando sentires vontade de comer, eu irei buscar os pomos mais
suculentos e gostosos; quando tiveres sede, eu trarei nas minhas mos a
gua mais cristalina das nossas fontes; quanto te sentires cansada, eu te
carregarei nos meus braos. Eu percorrerei o mundo inteiro para te matar
um desejo! E, quando dormires, estarei a teu lado, pedindo a Deus que te
d bons sonhos e encha tua alma de consolaes.

-- Como sou feliz agora, meu amigo...

-- Sim, tu sers muito feliz, porque aqui no haver dios nunca, nem
invejas, nem ambies, nem vcios; aqui s o amor existe! Este  o seu
reino; nada aqui vive seno dele e para ele! Amarmo-nos ser o nosso
nico destino e o nosso nico dever. Desde que o no fizssemos,
seramos logo expulsos deste paraso por indignos e maus, e teramos de ir
chorar a nossa misria l na outra existncia, onde os homens se detestam
e atraioam a todo momento. Vs estas rvores, estes pssaros, todo este
mundo alegre e feliz que canta em torno dos nossos beijos! pois todo ele
vive s para se amar! V! repara como todos crescem aos pares; como
concebem e como produzem! Olha para cima da tua cabea; olha para
debaixo dos teus ps; olha para os lados e observa! -- Est tudo amando?
Em cada beijo que damos, um infinito de vidas se forma entre nossos
lbios!

-- E h quanto tempo vives aqui neste reino encantado do amor?

-- No sei; no me lembra como vim ao mundo, nem conheci o autor dos
meus dias; porm,  fora de pesquisas, cheguei a crer que sou o mais
recente produto de uma gerao privilegiada, que chegou mais depressa
do que as suas congneres ao meu estado de aperfeioamento. O fundador
da minha dinastia era de slex, nasceu com o mundo, e, no entanto, meu
pai era j nada menos que um quadrmano; de mim no sei ainda o que
sair...


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-- Mas tu esto no  o moo da pedreira?...

-- Tolinha! Aquilo foi um disfarce que tomei para te poder alcanar.

-- Como assim?

-- Desejei-te e jurei que havia de possuir-te. Mas como me aproximar de
ti?... Lembrei-me da pedreira que fica defronte da tua janela, tomei a
forma de um cavoqueiro e comecei a namorar-te, a empregar todos os
meios para atrair-te. Tu a princpio te negaste; eu, porm, no desanimei e
todos os dias te chamava cantando. Afinal, uma bela tarde, no pudeste
mais resistir, e l foste. Estava ganha a vitria! Fiz logo com que perdesses
os sentidos; ofereci-me a teu pai para transportar-te nos meus braos e,
assim que te pilhei no colo, penetrei-te com o meu desejo e com o meu
amor; enleei-te toda no meu querer, e ento, quando j te no possua, fui
buscar-te num sonho, e hoje s minha para sempre!

-- Sim, sou tua. toda tua, no h mais dvida; s o meu dono, perteno-
te; mas uma coisa no compreendo...

-- Que ?

-- A razo porque, para me seduzires, tomaste a forma de um grosseiro
trabalhador de pedreira e no de elegante e gentil cavalheiro, que
houvesse penetrado nas salas de meu pai e de mim se apossado
licitamente, por meio do casamento...

-- To tolo sou eu que casse na asneira de namorar-te sob a forma de um
homem de sociedade; porque, se assim o fizesse, lograria apenas
impressionar-te o esprito, j to viciado pela prpria sociedade; e no
conseguiria por em jogo os teus sentidos, como obtive disfarado em
simples trabalhador, de corpo nu, forte, inteiro, e de homem para toda a
mulher! Se eu tomasse a forma de um janota, no estarias a estas horas
aqui comigo, porque tu no me seguiste seduzida pela minha inteligncia,
que te no mostrei; nem pela minha riqueza de carter, que escondi;
vieste pura e simplesmente arrastada pela minha beleza varonil e pela
masculinidade do meu corpo! Se eu me tivesse apresentado a ti sob a
forma de um elegante rapaz, desconfiarias de mim, como desconfiaste de
tantos que te pretenderam; havias de supor-me to corrompido e to
inutilizado como os outros; no acreditarias na integridade do meu sangue,
na sinceridade de minha sade, e ainda menos na do meu amor. E, quanto
ao fato de justificar a nossa unio pelo casamento, para que e porque
semelhante formalidade pueril e ridcula... O casamento  a prova pblica
do amor, e ns por enquanto no temos pblico! Deixa isso l para a tua


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mesquinha sociedade, onde se casam enganando-se uns aos outros; onde
se casam sempre por qualquer interesse, que no  o da procriao...

-- No! L tambm h casais que se amam...

-- Muito raros. Alm disso, o meio que os cerca  quanto basta para
corromp-los em pouco tempo e faz-los to ruins como os outros. Vivero
a primeira lua de mel em pleno amor, mas na seguinte j o marido procura
com quem trair a esposa, e esta j precisa chamar em seu socorro toda a
energia de que  capaz para ver se consegue no enganar o marido! Ah! --
Uma gente adorvel, no h dvida!

-- E achas que Deus no se zangar comigo por eu no ter ido  igreja
receber a sua beno antes de acompanhar-te?

-- Zangar-te contigo! Quem! Deus? Que loucura! Ele, ao contrrio, filhinha,
longe de amaldioar-te porque me amas deste modo, mais ainda te
estimars por isso. Ele quer que as suas criaturas se amem como ns dois
nos amamos! O seu corao  um grande manancial de ternura, que se
derrama noite e dia, a todo o instante, sobre as nossas almas, para
fecund-las, como o sol se derrama sobre a terra. Quando, em longas
noites de luar, ficavas cismando esquecida  janela do teu quarto e
suspiravas sem saber por quem, era ele que me trazia de longe os teus
beijos errantes e solitrios com o mesmo sopro benfazejo com que conduz
a cada momento de uma a outra flor o plen dourado e fecundo!

-- Deus?

-- Sim, Magd, tudo o que vem das suas mos de pai trs o grmen do
amor, que  a vida. A prpria terra nada mais  do que um grande ovo,
que ele incuba com a calentura do seu amor eterno! O Criador deu ao
homem vesculas seminais, o ovrio  mulher, para que eles se
correspondessem, e se amassem, e se reproduzissem. S nos amando
assim, como agora nos amamos, podemos glorific-lo, porque o amor  a
perpetuidade da sua obra! E ainda me vens falar em cerimnias de
igreja!... Mas aqui, minha amada, eu no sou o moc da pedreira, nem tu
s a filha de um Conselheiro; aqui somos apenas um casal que se ligou
pelos nicos laos que Deus criou para unir o homem  mulher -- a cpula!
Aqui somos o macho e a fmea; aqui somos iguais porque somos e
seremos igualmente puros, castos e eternos! A nica substncia da nossa
vida nestas infinitas e deliciosas regies do amor,  o prprio amor! nosso
Deus -- o amor! nosso ideal -- o amor! S por ele e para ele nos achamos
aqui reunidos os dois, assim abraados e presos nos lbios um do outro!



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E com estas palavras o moo estreitou Magd contra todo seu corpo. E
calaram-se ambos.

-- Sim, disse ela afinal, quando recuperou a fala -- sim, que me importa a
outra vida, se tudo o que  de melhor concebem o meu corao e o meu
crebro  o teu amor? Desaparea tudo o mais; arrazem-se todos os
mundos; apaguem-se todas as paixes; sufoquem-se todas as crenas;
aniquilem-se todos os instintos; e este amor ilimitado, ardente, sempre
novo e sempre vivo, h de sobreviver, como um esprito imortal, como um
prncipe incriado, uma fora mais arbitrria e mais indomvel do que a
fora impulsiva da matria!

E seus lbios uniram-se de novo aos lbios dele, e seu corpo de novo
estrebuchou na relva em convulses de amor. Em volta a natureza
festejava aquelas npcias com uma orquestra em surdina de beijos e
arrulhos. Um crescendo ansiar de suspiros estalados ia-se formando
lentamente; at que, de sbito, um geral espasmo se apoderou de toda a
montanha, levantando4he pela raiz a cabeceira verde. Encrespou-se-lhe o
dorso. s arvores, com as folhas arrepiadas, extorciam-se, atirando-se
umas s outras e rangendo os galhos; as flores palpitavam sob o doudejar
das borboletas; os rpteis corriam de rojo por toda a parte, rondando,
seguros e assanhados; vermes esfervilhavam, brotando aos cardumes do
solo mido; as rolas acoitavam-se, gemendo de gosto e ruflando as asas
no cho; ouviam-se rouxinolar duetos de amor no fundo azul das matas;
insetos zumbiam voando, agarrados no ar; aos pares; uma nuvem de
poeira cor de fogo remoinhava no espao, embebedando as plantas; e o
sol, vitorioso e potente, resplandecendo na sua armadura de ouro,
emprenhava a terra na esplndida fornicao da luz.



XII

Acordou muito nervosa e muito triste. O sonho deixara-a num grande
abatimento fsico e moral; pungia-lhe um como remorso de quem se
arrepende de haver passado a noite em claro, no deboche. Sentia-se
humilhada.

- Maldito homem! maldita a hora em que ela se lembrou de subir 
pedreira.

No  que no compreendesse perfeitamente que tudo aquilo era devido
ao seu lastimvel estado de doena; mas, por melhores esforos
empregados para se convencer de que lhe no cabia a mais ligeira


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responsabilidade em semelhantes extravagncias, um profundo vexame
apoderava-se do seu esprito, constrangendo-a de vergonha contra si
prpria. Reconhecia-se criminosa por aqueles delitos de uma sensualidade
to brutal e to baixa; no podia conceber como era que ela - ela! a filha
do Conselheiro Finto Marques, a intolerante, a escrupulosa por excelncia,
a irrepreensvel nos seus gostos e nas suas predilees, mantinha,
segregadas nos meandros da sua fantasia, tais sementes de luxria, que
bastava cair uma nica no misterioso terreno dos sonhos para rebentar
logo uma floresta inteira de concupiscncia. Lembrou-se de contar tudo
com franqueza ao Dr. Lobo e pedir-lhe que lhe arranjasse um remdio
contra aqueles desvarios; mas s a idia de repetir, de confessar certos
particularidades do seu delrio, faziam-na tremer toda de pejo. "Ah! se a tia
Camila ainda fosse viva!." E o que ela no se animou de confiar ao mdico,
disse em confidncia de alcova ao seu crucifixo, pedindo-lhe entre
lgrimas, pelo amor da Virgem Me Santssima, que a protegesse; que a
livrasse daqueles pensamentos impuros; que lhe mandasse dos cus todas
as noites um dos seus anjos para lhe velar o sono e impedir que a sua
pobre alma, enquanto ela dormia, fosse vagabundear por ali, como a alma
de qualquer perdida.

Cristo no a atendeu.  msera, depois de um dia como os outros, dia
arrastado entre colheradas de remdio e tdios de enferma, sem um riso,
nem a sombra de uma esperana de alegria, mal adormeceu, animada no
colo da Justina, acordou em sonho nos braos do cavoqueiro.

Continuava a sua existncia fantstica. Despertou com um beijo dele.

- Ah! disse, e olhou em torno de si, procurando reconhecer o stio da
quimrica felicidade.

Sorriu logo, satisfeita: era o mesmo lugar em que na vspera havia pegado
no sono acalentada pelo amante. - Era, que dvida! - l estavam as
mesmas rvores, agora tranqilas e confortadas; as mesmas paineiras
sussurrantes, o inaltervel regato de guas diamantinas em que se
destacavam os nenfares, formando pequenas ilhas cor de esmeralda e
guarnecidas de grandes flores vermelhas e brancas. E, como para se
certificar de que o seu amado ainda era tambm o mesmo, ps-se a
tatear-lhe a musculatura dos braos e do peito.

-- Era ele mesmo! Era! Nem outro possua aquela rijeza de carnes junto
quela maciez de pele.




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Apalpou-o todo. Depois, como se ainda no estivesse bem convencida,
esfregou o rosto nas barbas dele, meteu os dedos por entre os anis do
seu cabelo, cheirou-lhe a boca.

-- Era! Era o mesmo! cheirava a murta.

E beijou-o.

Olha, falou o moo. -- Enquanto dormias tu, andei por a colhendo estas
frutas. Deves sentir fome.

- E' verdade, respondeu Magd. -- Tenho uma fome enorme. H muito
tempo que no como.

E ergueu-se a meio para o banquete.

- V como so boas... observou o outro, trincando um caj e levando-lhe 
boca o pedao que tinha entre dentes.

Ela comeu e pediu outro bocado, mas queria assim mesmo - de boca para
boca.

-- Como  bom! Como  bom! repetia batendo palmas.

-- Estes, que esto picados de passarinho, so os mais doces. Olha!
experimenta.

Ela afinal deitou-se no colo dele, para comer  moda das crianas. O rapaz
escolhia os melhores frutos, mordia-os primeiro e dividia o pedao com ela,
ambos a rirem-se muito desta brincadeira.

-- Mais! mais!

Ele mostrou uma grande manga.

-- Oh! Que bela! exclamou a filha do Conselheiro, tomando em cheio nas
mozinhas a imensa manga que o companheiro lhe apresentava. E, farta
de admir-la, lembrou com um repente

-- Vamos chup-la os dois juntos?...

-- Como?

-- Deita-te aqui no cho, ao meu lado. Assim!



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E, uma vez deitados, comearam, com o rosto muito unidos, a chuchurrear
a manga, como se mamassem ao mesmo tempo por uma s teta. Magd
sentia com isto uma volpia indefinvel; de vez cm quando despregava os
lbios da fruta, para poder olhar o amigo, soltava uma risadinha e
continuava a mamar. Quando se sentiram satisfeitos, ele foi buscar gua
na parra de um tinhoro e deu de beber  companheira.

-- Bem, disse depois. -- Agora vamos dar um passeio.

-- Sim, mas eu no posso ir muito longe. Sinto-me ainda to fraca...

-- Eu te carregarei, quando no puderes andar. Encosta-te a mim.

Magd ergueu-se e ps-se a caminhar vagarosamente ao lado do amante,
toda reclinada sobre ele; os braos na cintura um do outro. Ouviam-se
ento cantar as aves e as plantas inclinavam-se com ternura e respeito por
onde seguia o amoroso par; a folhagem tinha sorrisos; as boninas
beijavam-lhes os ps.

Um cheiro delicado de baunilha enriquecia o ar.

Chegaram  beira do regato e Magd mirou-se ngua com faceirice de
noiva. Ao seu lado refletia-se a robusta figura do moo.

-- D-me algumas flores, pediu ela. -- Quero enfeitar-me para te parecer
mais bonita. Estou to magra!...

Ele afastou-se e voltou logo com um braado de rosas, magnlias, jasmins
e manacs. O ambiente trescalou de aromas. Magd soltou o cabelo e
depois, a rever-se na prpria imagem refletida a seus ps, fez novas
tranas em que ia intercalando flores com o mimoso capricho de quem faz
uma obra d'arte. O moo olhava-a sorrindo.

-- Vaidosa... murmurou.

-- Ingrato! E' para te agradar... E ela, quando deu por pronto o seu
toucado, foi colocar-se defronte do amigo para receber os afagos da
aprovao.

-- Senta-te aqui, disse este, em seguida a um beijo.

A amante obedeceu; ele deitou-se na relva e pousou a cabea no colo de
Magd, que comeou a afagar-lhe os cabelos, segredando ternuras,
vergando-se sobre o seu rosto, para alcanar-lhe os lbios. Estiveram


                                                                        78
assim um tempo infinito; alheios e esquecidos de tudo, bebendo pela boca
um do outro o vinho da sua animalidade, embriagando-se de
camaradagem, aos poucos, voluptuosamente; at que, brios de todo, se
deixaram rolar ao cho e se quedaram abraados, mudos, inconscientes,
quase mortos na deliciosa prostrao do coma venreo.

S deram por si ao declinar do dia. Continuaram o passeio.

-- Que rudo  este? perguntou Magd, parando em certa altura da
floresta.

-- No tenhas medo, meu amor,  o trapejar de uma cascata que fica do
outro lado da montanha. Havemos de l ir um dia.

-- Espera! Parece que vai chover... Senti uma gota dgua cair-me na face.

-- Vai, sim, mas no faz mal; ns nos recolhemos  gruta.

-- Que gruta?

-- Vers. Fica muito perto daqui. Vamos.

Principiava com efeito a chuviscar. Ele tomou Magd nos braos e correu
para a gruta, que em verdade, era muito perto dali. Consistia numa grande
rocha negra, toda encipoada de heras e parasitas com uma pequena fenda
que mal dava passagem a uma s pessoa de cada vez. O cavoqueiro
transps a brecha e em seguida fez entrar a companheira.

-- Agora pde l fora chover         a     cntaros!   Declarou   --   estamos
perfeitamente agasalhados.

Magd olhou em torno de si na meia escurido da caverna, e notou que se
achava num lugar muito aprazvel, de atmosfera de alcova. Os seus ps
eram embebidos em armelina e doce alfombra; suas mos tocavam nas
paredes uma penugem macia que lembrava a pluma do algodo. Era um
ninho, um verdadeiro ninho de musgo cheiroso, aveludado e tpido.

O rapaz deixou-se cair em cheio sobre o tapete de relva, arrastando Magd
na queda. E, fechando-a nos seus braos, disse-lhe com o rosto unido ao
dela:

-- No ouves l fora um arrulhar mavioso e triste?...

-- Sim, porque ?



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--  o ur que anuncia a noite. Vamos dormir.

E ela sonhou que adormecia, justamente na ocasio em que acordava na
vida real. O gemebundo piar das rolas desdobrou-se na montona e
pesarosa cantilena dos trabalhadores da pedreira.



XIII

-- Terceiro sonho ~... Era j o terceiro sonho!... cismava Magd, muito
impressionada e ainda recolhida na sua cama de erable com esculturas de
mogno. -- Trs sonhos seguidos, de noite inteira, com aquele miservel
trabalhador... E no poder reagir contra semelhante violncia!... No
dispor de um nico recurso contra esse misterioso tirano que a constrangia
quela convivncia extravagante, quele amor ignbil por um ente, que ela
na vida real malqueria e desprezava. Terrvel cativeiro! No poder dizer 
sua imaginao: "Acomoda-te, demnio! Sossega!" Isto com quem no
estava habituada a repetir uma ordem; com ela, que no fora nunca
desatendida nos menores caprichos, como nas maiores imposies!... Que
desespero -- ter de submeter-se ao jugo da sua carne! Que inferno --
sentir-se todos os dias ao acordar humilhada por si mesma, indignada
contra os seus prprios sentidos.

E se aquilo desse para continuar?... Sim, como havia de ser, se nunca mais
terminasse aquela nova existncia que ela agora vivia com o cavoqueiro
durante a noite?.... Oh, antes a morte! antes a morte!

Justina abriu o cortinado da cama, para saber se a senhora queria j o
chocolate.

-- Que horas so!

-- Meio-dia.

-- No consigo acordar mais cedo...

E notava agora na boca um gosto acre e doce ao mesmo tempo, muito
enjoativo, sabendo a sangue.

-- Minh'ama sente alguma coisa? perguntou a criada, reparando que
Magd estalava com insistncia a lngua contra o cu da boca.

-- Um gosto esquisito.


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-- E' do estmago! No tenho dito a vosmec que no  bom estar
paparicando guloseimas todo o dia?... Como no! Est a!

-- Mas eu ontem nada comi que me pudesse fazer mal. Tomei um caldo e
bebi um clice de vinho; e  tarde... Ah! talvez seja do xarope... diz o
doutor que leva muita estriquinina...

-- Deve ser, como no? Estes remdios de hoje so todos uns venenos,
Deus me perdoe!

-- Prepara-me gua para lavar a boca.

-- Est tudo pronto.

Magd ergueu-se da cama.

E, enquanto se preparava: --  senhores! que frenesi me mete aquilo!

-- Aquilo que, minh'ama?

-- Aquela maldita cantilena!

-- Ah! Os homens da pedreira! Coitados! Diz que assim no sentem tanto o
peso do servio... Aquilo  um trabalho muito bruto! Vosmec no
imagina... Ainda outro dia...

-- Sim, sim! Meu pai j saiu?

-- Ainda no, senhora, e j veio saber como minh'ama passou a noite.

-- 'St bem.

-- ... Ainda outro dia, o Luiz...

-- Que Luiz... ?

-- Esse rapaz que est para casar com minha irm, com a Rosinha; aquele
que desceu minh'ama da pedreira!... O Luiz, vosmec conhece, como no ?

-- Sim, sim! No quero saber disso... -- D-me o chocolate e o remdio.

Justina precipitou-se logo para fora da alcova, e Magd, contra a sua
vontade repetia mentalmente: "O Luiz, esse rapaz que est para casar com
Rosinha..." Mas a fisionomia no se lhe alterou e, como era do seu



                                                                          81
costume ao levantar-se do leito, tomou um espelhinho de mo e ps-se a
mirar de perto as feies. Achou-se extremamente abatida e muito
descorada; em compensao sentia-se agora de melhor humor e at
disposta a sair do quarto. O diabo era aquele maldito gosto de sangue que
lhe no deixava a boca. Bebeu dois tragos de chocolate, rejeitou o frasco
do xarope, e em seguida desceu ao primeiro andar, mais animada que nos
outros dias.

O pai fez um espalhafato quando a viu.

-- Assim  que ele queria!

E beijou-a na testa. -- Assim  que Magd devia fazer sempre! Hoje at,
acrescentou risonho e afagando-lhe o queixo, bem podias dar um passeio
comigo, hein? Mando buscar o carro? Que dizes?

-- Onde o passeio?

-- Onde quiseres; em qualquer parte. Est dito?

Ela aceitou, com grande contentamento do Conselheiro; e a surpresa deste
subiu ao znite quando viu a filha ordenar ao copeiro que lhe servisse um
pouco dum roast-beef que estava sobre a mesa.

-- Bravssimo! Bravssimo

Magd, porm, logo que percebeu sangue no assado, repeliu o prato, a
estalar a lngua; mas exigiu que lhe dessem sardinhas de Nantes e comeu
depois meia costeleta de carneiro, um pouco de po, queijo com mostarda,
um gole de vinho e ainda tomou uma chvena de ch preto. E no sentiu
nuseas.

O pai ficou louco de contente.

-- O xarope est produzindo efeito!... raciocinou ele, esfregando as mos.

Ela ps um vestido de cor, o que havia muito tempo no fazia; e da a
pouco embarcava no carro com o Conselheiro.

Mandou tocar para o lado da cidade. -- Ah! Estava farta de rvores e de
florestas; agora precisava ver casas, ruas com gente, movimento de povo;
para deserto bastava-lhe o paraso dos seus sonhos!




                                                                         82
Durante o caminho mostrou-se de magnfica disposio, conversou
bastante, chegou a rir mais de uma vez. Ao passar pelo Campo de Santana
apeteceu-lhe entrar no jardim. O carro ficou  espera defronte da Estao
de Bombeiros.

Eram trs horas da tarde quando penetraram no parque. Fazia calor; a
areia dos caminhos estava quente; os lagos reluziam e os cncavos
tabuleiros de grama, que do vontade  gente de rolar por eles, tinham
reflexos de esmeralda nos pontos em que lhes batia o sol; os patos e os
gansos amoitavam-se nas touceiras de verdura,  beira dgua, procurando
sombra; a mole compacta dos crotons parecia formada de incontveis
retalhozinhos de seda de vrias cores; os gordos cactos e as bromlias
cintilavam como se fossem de ao polido. Mas toda esta natureza
simtrica, medida como que metrificada e at rimada, parecia mesquinha
em confronto com as luxuriantes paisagens, que Magd sonhara naquelas
ltimas noites. Todavia, nem por isso deixou de impression-la, trazendo-
lhe ao esprito recordaes vexativas; por mais de uma vez sentiu a moa
subir4he o sangue s faces,  maneira do seu delito; mas no falou em
retirar-se; apenas props ao pai que descansassem um pouco.

O Conselheiro levou-a at  cascata. A estava com efeito muito mais
agradvel; fazia inteira sombra, e a gua, que caa l do alto, esfarelando-
se contra os pedregulhos artificiais, refrescava o ar e punha-lhe um tom
mido de beira de praia. Magd ficou um instante  entrada da gruta,
apoiada na corrente da ponte, entretida a olhar os peixinhos vermelhos
que nadavam em cardumes por entre as ilhotas de pedra. O velho
esperava ao lado, em silncio, sem nenhuma expresso na fisionomia, com
uma pacincia de pai; ao penetrarem na gruta, ele percebeu que o brao
da filha tremia.

-- Sentes alguma coisa?...

-- No. E' que isto escorrega tanto...

L dentro havia um casal que se retirou com a chegada deles, conversando
em voz baixa e afetando grande interesse na conversa. S. Ex. teve um
gesto largo de quem admira; Magd olhou indiferentemente o teto de
cimento, as grossas estalactites pingando sobre as estalagmites com um
aprazvel rudo de noite de inverno. A umidade da gruta fez-lhe sede; o
Conselheiro procurou uma bica e descobriu afinal uma caneca pendurada a
um canto, donde jorravam goteiras mais grossas.

-- Eu bebo a mesmo. disse Magd, correndo para ele e arrepanhando as
saias, porque o cho era nesse lugar muito encharcado. O Conselheiro


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notou a impropriedade daquelas estalactites numa rocha que fingia ser de
granito; Magd no prestou nota  observao cientfica do pai e enfiou por
um corredor  esquerda. Foi dar l em cima; assentou-se cansada no
rebordo onde est a entrada para a caixa dgua. O velho ficou de p.

-- Aqui est bom, no achas? perguntou.

Ela no deu resposta. Olhava. A voz de um sujeito, que tinha subida pelo
lado oposto, espantou-a; a nervosa soltou um pequenino grito e ficou
ligeiramente trmula.

-- E' melhor descermos... aconselhou S. Ex., vendo que dois vagabundos
se aproximavam com as suas calas de boca muito larga, a cabeleira maior
que a aba do chapu e grossos porretes na mo.

Voltaram pelos fundos da cascata. Um bbado dormia a, estendido por
terra, meio descomposto, uma garrafa ao lado. O Conselheiro fez um
trejeito de contrariedade e seguiu mais apressado com a filha. Quando se
acharam fora da gruta, o sol declinava j e as ruas do parque enchiam-se
de sombra. Corria ento um fresco agradvel. Anilavam-se as verduras
mais distantes; desfolhavam-se os heliotrpios ao tpido soprar da tarde;
as amendoeiras desfloreciam, recamando o tapete verde de pontos
amarelos. Havia uma surda transformao nas plantas; reviviam as flores
amigas da noite e comeavam a murchar os miostis e as papoulas; as
rvores sacudiam-se, rejubilavam, aliviadas do mal que lhes fazia tanto
sol; ouviam-se nas moitas suspiros de desabafo. Os patos e os gansos
deslizavam agora vitoriosamente, rasgando com o peito a brunida
superfcie dos lagos; chilreavam pssaros, saracuras assustadas cortavam
de vez em quando o caminho, olhando para os lados; ouviam-se grasnar
marrecos e frangos dgua. Tudo estava mais satisfeito. Uma nuvem de
gaivotas pairava sobre os tabuleiros verdes, debicando na relva; as
cambachilras saltitavam por toda a parte. Via-se aparecer ao longe, por
detrs dos horizontes de folhagem, a agulha da igreja de S. Gonalo,
destacando-se do lmpido azul do cu toda esmaltada pelo sol das cinco e
meia.

Principiava a chegar gente; surgiam homens de palito na boca, o colete
desabotoado sobre o ventre; calcinhas brancas, curtas e mal feitas,
mostrando botas empoeiradas; gorduras feias dos climas abrasados;
hidroceles obscenas; chapus altos ensalitrados de suor. Mulheres da
Cidade Nova, com umas caras reluzentes, vermelhas como se acabassem
de ser esbofeteadas; portuguesas monstruosas, com umas ancas que
pediam palmadas, os ps turgidos cm sapatos de pano preto sem feitio.



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"Uma gente impossvel!" Magd via-os a todos, um por um, enjoada, com
o narizinho torcido e cheia de uma secreta vontade de chicote-los.

Deteve-se para contemplar o grupo muito pulha de L. Despret, logo 
direita de quem sai da gruta; um homem, auxiliado por um co, a lutar
com um tigre; mas o homem corta o peito da fera como se estivesse
talhando po-de-l, e o co raspa com os dentes a anca da mesma, como
se tentasse morder um animal de bronze. No obstante, Magd parou
defronte da escultura e parecia interessada por ela. Aquele homem de
msculos atlticos prendia-lhe a ateno. Porque? -- Sabia l! O
Conselheiro, intimamente estranhado pela importncia que a filha dava a
semelhante obra, falou-lhe no museu do Louvre, nos belos mrmores que
os dois mais de uma vez apreciaram juntos. Ela no ouviu e, depois de
muito contemplar o lutador, disse:

-- No h no mundo um homem assim como este, hein, papai?

_ Assim como, minha filha?

-- Assim forte, musculoso...

-- Ah! de certo que no...

-- Mas j houve...

-- Ora, noutros tempos, quando os guerreiros carregavam ao corpo
armaduras de dez arrobas.

-- E as mulheres dessa poca? Deviam ser tambm bastante vigorosas...

-- Com certeza! Pois se uns descendiam dos outros...

Nisto passou perto deles um bbado. muito esbodegado, a cambalear
cantarolando; a camisa esfobada no estmago, o chapu  r; os punhos
sujos a sarem-lhe da manga do palet, engolindo-lhe as mo. O
Conselheiro desviou-se discretamente com a filha para o deixar passar; o
borracho parou um instante, cumprimentou-os com toda a cerimnia,
quase sem poder abrir os olhos, e l se foi aos bordos, empinando a
barriga para a frente. Magd soltou uma risada to gostosa, que abismou
S. Ex.

-- Definitivamente aquele era o dia dos prodgios... pensou o extremoso
pai -- E qual no seria o seu espanto quando ouviu a rapariga soltar a




                                                                        85
segunda e a terceira, a quarta e, enfim, uma crescente escala de
gargalhadas contnuas.

-- Com efeito!... disse. Muita graa achaste tu naquele tipo!

Ela no podia responder; o riso sufocava-a

-- Est bom, minha filha, no v isso te fazer mal...

Magd procurava conter a hilaridade, mas no conseguia. Os transeuntes
olhavam-na tomados de grosseira curiosidade; o Conselheiro, meio vexado
por ver que ela chamava a ateno de todos, repetia-lhe baixinho:

-- Est bom... est bom...

Foi um capadcio quem afinal a fez calar; um que passou de scia com
outros, medindo-a de alto a baixo e que, depois de mir-la muito, comeou
por caoada a remedar-lhe o riso. Magd ficou furiosa. Subiu-lhe sangue 
cabea e teve mpetos de... nem ela sabia de que!... fazer um disparate!
tomar a bengala do pai e quebr-la na cara do tal sujeito.

-- Atrevido! resmungava entre dentes cerrados, afastando-se com o
Conselheiro.

E, apesar dos esforos que este empregou para distra-la, o resto do
passeio foi todo feito sob a impresso daquele incidente.

-- No penses mais nisso... insistia o velho, quando Magd, j dentro do
carro, se referia ao fato pela milsima vez.

Tocaram para casa; ela em toda a viagem no falou noutra coisa. Vinha-
lhe agora um a inhabitual vontade de brigar, de fazer escndalo. Esteve
quase a pedir ao pai que voltasse e fosse  procura do malcriado at
descobri-lo, para lhe pespegar duas bengaladas, mas bem fortes!

E jurava que, naquele momento, seria capaz de estrangular o maldito. No
parecia a mesma. Ela, que fora sempre to inimiga de tudo em que
transpirasse escndalo e barulho, sentia agora uma estranha sede de
provocaes, de desordens; j no era com o capadcio do jardim, mas
com qualquer pessoa. Quando entrou em casa, porque a Justina no
respondeu logo a' primeira pergunta que lhe fez, bradou trmula:

-- Voc tambm  um estafermo!




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-- Estafermo?

-- No me replique!

-- Eu no estou replicando...

-- Rua!

-- Vosmec despede-me?...

-- Rua! No a quero aqui nem mais um instante!

-- Mas, minh'ama...

-- Rua! No ouviu?

O Conselheiro interveio:

-- Ento, minha filha, no te mortifiques

-- Pois meu pai no v como esta mulher me provoca, s pelo gostinho de
me pr nervosa?

-- Tu parecias gostar tanto dela.

-- Nunca! No a posso olhar! Tenho-lhe dio!

Justina, coitada, ia tentar a sua defesa, j banhada cm lgrimas, quando o
pai de Magd lhe fez sinal de que se afastasse; ao passo que a histrica,
falando sozinha e praguejando contra tudo e contra todos, dirigia-se
furiosa para o quarto.

Uma scia! Todos uma scia, resmungava, enterrando as unhas na palma
da mo. E fechou-se por dentro com arremesso, atirando-se  cama,
desesperada e arquejante.

Justina enxugava as lgrimas no avental, dando guinadas com todo o
corpo a cada suspirado soluo que lhe vinha.

-- Descanse que voc no ir embora, disse-lhe o amo. -- Quando a Sra.
D. Madalena chamar por algum, apresente-se e no se mostre ressentida
com o que se deu. Aquilo passa!  da molstia! V!




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-- Uma coisa assim!... lamuriou a criada. -- Eu que tanto fao por agrad-
la.

-- 'St bem, 'st bem! j lhe disse que voc no ser despedida.

-- No  por nada, mas  pela aquela que a gente toma s pessoas!. . Eu
estava j afeita com minh'ama, e ter de deix-la assim de um momento
p'ra outro, sem lhe ter dado motivo... di, como no di?.

-- Mas v, v sossegada, que no haver novidade.

Justina afastou-se chorando a valer.

O Dr. Lobo chegava nesse momento e o Conselheiro passou a narrar-lhe
as ltimas esquisitices da doente. O mdico escutou-o calado, fazendo bico
com a boca sem lbios; olhando por cima dos culos, com as sobrancelhas
no meio da testa, arqueadas como duas sanguessugas.

-- Ela tem tido as fun5es mensais com regularidade?... perguntou no fim
da sua concentrao. E rosnou, depois da resposta: --  o diabo!  o
diabo!... Preciso examin-la de novo! E lembrar-me de que tudo isto se
teria evitado com to pouco sacrifcio para todos ns! Pensam que 
brincadeira contrariar a natureza! Agora -- o mdico que a agente!

Quando o doutor saiu, j a filha do Conselheiro dormia a sono solto e
sonhava: escusado  dizer com quem.



XIV

-- Magd, Magd, repara que j  dia! Aqui no  permitido dormir assim
at to tarde! Vem ver despontar o sol. A passarada j est toda de fora,
no ouves? No h mais um s casal nos ninhos! Levanta-te! Sua
Majestade a chega, esfogueado da viagem, pedindo a cada corola uma
gota de orvalho para beber e acendendo em cada gota de sangue uma
centelha de amor!

A filha do Conselheiro abriu os olhos -- sonhando. A primeira palavra que
lhe escapou dos lbios foi o nome do trabalhador da pedreira.

-- Bravo! exclamou este apanhando-lhe a boca num beijo. -- At que
enfim te ouo dizer o meu nome!




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--  que o ignorava...

-- E como o sabes tu agora?

-- Sonhei.

-- Ah! sonhaste comigo?...

-- Todo tempo que levei a dormir.

-- E que sonhaste, meu amor ?

-- Que estava ainda na minha primitiva existncia, no mundo que troquei
por este, e do qual no tenho saudades, a no ser por meu pai.

-- E ento?

-- Via-te a todo o instante; levava-te comigo no pensamento para toda a
parte; vi-te at em esttua, lutando com um tigre...

-- Fantasias de sonho...

-- Sonhei com tudo isto que nos cerca neste nosso den; sonhei com esta
gruta, com estas rvores, com estes lagos e com esta deliciosa luz
sangunea que me aviventa.

-- Sim, sim, mas vai tratando de deixar a cama, que no havemos de ficar
aqui metidos o dia inteiro. Hoje quero levar-te ao vale, onde passa o rio
que nos separa da ilha do Segredo.

-- Ilha do Segredo? ~ Que vem a ser isso?

-- Tu vers...  encantadora.

-- Muito longe daqui?

-- No, e se fosse? No estou eu a teu lado para te carregar?

--  que me sinto to fraca, to pobre de coragem... to magra!...

-- L encontrars novas foras. Vamos!

Ela ergueu-se pela mo do companheiro, e saram da gruta.




                                                                       89
Repontava o dia. Tudo se enchia de vida: as abelhas saram para as suas
obrigaes; borboletas peralteavam j pelo ar, em troa, mexendo com as
flores; a pequenada dos ninhos reclamava o almoo, e os pais andavam
por fora, a tratar da vida, aflitos, preocupados, mariscando na umidade da
terra o po-nosso da famlia. O sol erguia-se como um patro madrugador
e ativo, acordando toda a sua gente e chicoteando a golpes de luz a mata
inteira, folha por folha, para no deixar nenhum preguioso dormindo
acoitado pela sombra. Uma dourada nuvem de lavandeiras doudejava
sobre os lagos, picando a gua com a cauda, de instante a instante, num
crepitar frentico de asas.

-- Ento perguntou Luiz, de brao passado na cintura de Magd. -- No 
melhor estarmos aqui no que metidos l na gruta?

-- Certamente, meu amigo.

-- Ampara-te pois ao meu corpo e deixa o passeio por minha conta.

Puseram-se a andar por entre a chilreada dos caminhos. De vez em
quando paravam para colher um fruto, que dividiam entre si com a boca.

Andaram muito. Quando a moa chegou ao vale estava prostrada de
cansao. O sol ia j bem alto no horizonte.

-- Descansemos aqui  sombra deste tamarindeiro, para irmos depois at
ao rio, props Luiz. E, enquanto Magd repousava no cho, ele foi apanhar
um coco e trouxe-lho j em estado de se lhe sorver o saboroso leite
refrigerante. Quando a viu de todo acalmada, principiou a descalar-lhe os
sapatinhos de cetim.

-- Que fazes!

Vou despir-te.

E tirou-lhe as meias.

-- Despir-me, para que? ~ perguntou a filha do Conselheiro com um
retraimento de pudor.

-- Para atravessarmos o rio.

E foi logo lhe desabotoando o colo. Magd no se animou a dizer que no,
mas fez-se vermelha e abaixou os olhos. Luiz, todo vergado sobre ela,
ajudou-lhe a desenfiar as mangas do corpinho e sacou-o fora.


                                                                        90
Desacolchetou-lhe depois as saias na cintura e arrepanhou-as para debaixo
das pernas dela.

 moa levou as mos s roupas, assustada, olhando com receio para os
lados, como se quisesse, antes de despi-las, certificar-se bem de que no
era vista seno pelo seu amante. Este compreendeu o gesto e disse-lhe
sorrindo e tocando-lhe com os dedos no alvo cetim da espdua:

-- No tenhas medo... Aqui no h mais ningum alm de ns! Podemos
ficar  nossa plena vontade, fazer o que bem quisermos; rolar nus e
abraados por estes tabuleiros de relva; entregar-nos a todos os delrios do
amor; enlouquecer de gozo! S Deus nos espreita, e Deus foi quem te fez
para mim, para que eu te goze e te fecunde, minha flor! Ele observa-nos
satisfeito, l de muito alto, espiando pelas estrelas e sorrindo a cada beijo
que damos! Quando nascer o fruto do teu ventre, ele descer logo num
raio de luz, e vir abrir na boca de nosso filhinho o seu primeiro riso e
beber-lhe dos olhos a primeira lgrima.  com esta lgrima e com esse riso
das criancinhas que o bom velho fabrica todos os dias o mel e o perfume
das flores, o canto dos pssaros e o azul dos cus.

E Luiz continuou a despi-la.

Magd cruzou os braos sobre os peitos -- ele acabava de lhe arrancar
afinal a camisa -- e fechou os olhos, toda vexada e retrada. Mas depois,
sentindo nas carnes o olhar ardente que a queimava, porque o moo
permanecia a contempl-la, embevecido e mudo, torceu-se logo sobre o
quadril esquerdo, repuxando para esconder a sua mimosa nudez as largas
parras de um tinhoro que havia junto.

Vergonhosa!... balbuciou o amante, ajoelhando-se aos ps dela.

E acrescentou em voz alterada, procurando alcanar. com os lbios o rosto
que Magd se empenhava em esconder: -- No deves ter desses
escrpulos comigo esposa de minha alma!... Acaso no sou todo teu! no
s toda minha?... Porque escondes o semblante! porque abaixas os olhos?
Fita-os antes em mim e deixa-me beber o mel dos teus lbios! Deixa-me
abraar-te bem! assim! toda inteira, toda nua, que eu sinta na minha
carne, a carne do teu corpo! Cinge-me nos teus peitos! Aperta-me! Mais!
mais ainda Magd -- um beijo... d-me um bei... Ah!

-- Tu me matas de amor! soluou ela.

E, por entre o suspirado resfolegar dos dois, estalejava o seco farfalhar das
folhas cadas.


                                                                          91
Seguiram depois para o rio. Ele levou-a de colo, porque Magd no podia
andar descala; s a largou  margem dgua.

-- Mas eu no sei nadar... considerou ela, assustada.

-- Sabes sim; todos sabem nadar. A questo  no ter medo.

-- Ah! Eu tenho medo!...

-- Irs comigo. Espera.

Luiz entrou no rio e disse  companheira que lhe passasse os braos em
volta do pescoo. Magd obedeceu.

-- Ah! No me soltes, hein?...

-- No tens confiana em mim?...

-- Ui, ui, ui, meu Deus!

-- Ento!

-- Ai, minha Nossa Senhora!  agora!

-- Medrosa! No vs como vamos to bem ...

-- Voltemos para terra! Voltemos!

-- Olha que ests me apertando a garganta...

-- Aqui j  muito fundo!...  melhor voltar-mos.

-- No sejas criana...

-- A ilha est muito longe ainda?...

-- No a vs defronte de ti?

--  verdade! Oh! E como  linda!...

Calaram-se por instantes.

-- Ainda tens medo? perguntou depois o moo.

-- No. Ela agora estava at gozando daquela excurso.


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-- No te dizia?...

-- E tu, no te sentes cansado?

-- Qual o que!

Parecia mesmo no cansar; nadava como um cisne, quase sem se lhe
perceberem os movimentos, de to suaves que eram. E a outra perdera
afinal inteiramente o medo, e, toda estendida  flor das guas, com os
cabelos derramados pelo rosto e pelos ombros, l ia flutuando segura no
amante, mais branca e leve que uma pena de gaivota arrastada pela
corrente.

-- Ento?... consultou o rapaz, tomando vau  margem da ilha e passando
o brao em volta de Magd.- Que me dizes do passeio?...

-- Delicioso.

-- Aqui podes andar por teu p, que o cho  todo de areia fina; mas
vamos primeiro assentar-nos debaixo daquelas juareiras para
repousarmos um instante. Tens fome?

-- No, respondeu a moa, contemplando a ilha.

Era esta encantadora com a sua praia argentina lavada em esmeralda.
Daqui e dali surgiam dentre o salivar das espumas pequenos rochedos
reverdecidos de musgo aqutico, onde garas e guars mariscavam
tranqilamente. Um palmeiral sem fim nascia quase  beira dgua e, pouco
a pouco,  medida que se entranhava pela terra, fazia-se mais compacto,
at se fechar de todo com murmurosa cpula de verdura suspensa por
milhes de colunas. Mundos de parasitas serpenteavam em todas as
direes, j suspensas e pendentes, embaladas pelo vento; j
dependuradas em arco, formando grinaldas; j grimpando encaracoladas
pelos troncos e alastrando em cima, como se quisessem quebrar a
interminvel noite daquele cu de folhas com um infinito de estrelas de
todas as cores.

Magd, ao transpor o assombrado trio da floresta, deteve-se para fazer
notar ao companheiro o perfume ativo que se respirava ali; um cheiro
como o da magnlia, agudo e penetrante, que ia direito ao crebro com
sutil impresso de frio.

-- Vem dessas florinhas que vs aqui nos espiando de todos os lados;
essas que ora so cor de rosa, ora avermelhadas, ora cor de laranja e ora


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cor de sangue.  uma trepadeira; no h canto da ilha em que no as
encontres. Mas no toques em nenhuma delas, porque, se colhesses
alguma, nunca mais poderamos sair daqui.

-- Ora essa! Porque?

-- No sei,  segredo! Foi Deus que assim o quis... Repara: no se
descobre uma s dessas flores pelo cho, e tambm a gente no as v
nascer; quando vo murchando mudam de cor e revivem.

-- E no do fruto!

-- Nunca.

--  esquisito.

-- E perigoso...

-- Mas como  que elas prendem a quem lhes toca?...

-- Pois se  um segredo, como queres tu que eu saiba?...

-- E nunca tiveste desejos de descobri-lo!

-- Para que! Sou perfeitamente feliz sem isso...

-- No s curioso.

-- Sou, mas tenho medo de tornar-se desgraado.

Nesta conversa haviam chegado  fralda de um oiteiro coberto de murta e
empenachado por um frondoso bosque de bambs.

- Este morro divide a ilha em duas partes, explicou Luiz. -- Queres subir?

Magd consentiu, posto se visse j bastante fatigada e fraca; tanto que, do
meio para o fim da viagem, foi preciso que o rapaz a carregasse. Sentia-se
quase desfalecida.

-- Meu Deus, como ests plida! disse ele, pousando-a  sombra dos
bambs. -- Vou busear4e um pouco dgua ali  fonte. Espera um instante;
eu volto j.




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- No, no! gemeu a moa, segurando-o com ambas as mos. -- No te
afastes de mim! No  de gua que eu preciso,  de um pouco de vida!
Sinto fugirem-me as ltimas foras! Eu preciso de sangue.

E fazia-se cor de cera, e fechava os olhos, e entreabria os lbios, como um
orfozinho abandonado que morre  mngua do leite materno.

Cortava o corao

-- Magd! meu amor! minha vida! exclamou Luiz, tomando-a nos braos.
-- No desfaleas! No fiques assim! Desperta!

Ela   soergueu   as     plpebras,    e   murmurou      baixinho,    quase
imperceptivelmente:

-- Sangue! sangue! sangue, seno eu morro!...

-- Ah! fez o moo com vislumbre. E sem sair donde estava, quebrou um
espinho de palmeira e com ele picou uma artria do brao. -- Toma! disse,
apresentando  amante a gota vermelha que havia orvalhado na brancura
da sua carne. -- Bebe!

Magd precipitou-se avidamente sobre ela e chupou-a com volpia. No se
ergueu logo; continuou a sugar a veia, conchegando-se mais ao amigo,
agarrando-se-lhe ao corpo, toda grudada nele, apertando os olhos,
dilatando os poros, arfando, suspirando desafogadamente pelas narinas,
como se matasse uma velha sede devoradora.

Luiz, sem uma palavra, ouvia-lhe os estalinhos da lngua e o gluglutar
sfrego de criancinha gulosa pela mama.

Ah! respirou enfim a filha do Conselheiro, desprendendo os lbios do brao
dele e sorrindo satisfeita e vitoriosa. -- Agora sim! posso viver!

O amante encarou-a e recuou, no podendo conter a sua surpresa e a sua
admirao. Magd readquiria por encanto a frescura, a beleza e a sade,
que havia perdido nos ltimos anos. Reconstrua-se, revivificava-se 
semelhana das florinhas feiticeiras da ilha.

Ergueu-se triunfante.

As suas faces eram de novo duas rosas que atraam beijos, como o matiz
das flores atrai sobre a sua corola o inseto portador do plen; os olhos
rebrilhavam-lhe j com a sedutora expresso primitiva. Os seus lbios


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trmulos recuperaram logo o perdido sorriso dos tempos passados; a
garganta carneou-se, reconquistando as linhas macias, as doces
flexibilidades da pele s; as curvas do desnalgado quadril retomaram
enrgicas ondulaes; os seios empinaram; as coxas enrijaram; e toda ela
se retesou, se refez de msculos e nervos, num a sbita reviscerao
deslumbradora.

Luiz caiu-lhe aos ps, beijando-lhos com transporte.

-- Como ests bela! Como ests bela! Abenoada gota de sangue que te
dei!

Magd sorriu, estendendo-lhe os braos, agora carnudos e torneados. E,
logo que ele se levantou, cingiram-se ambos um contra o outro, num s
arranco, em igualdade pletrica de ternura.

Passaram o resto da tarde  sombra dos bambs, celebrando a sua nova
lua de mel com um opulentssimo banquete de amor. Sentia-se j a
aproximao da noite, quando resolveram abandonar a ilha.

Magd quis, porm, antes de partir, lanar l de cima um olhar de
despedida sobre aquelas paragens encantadas. O companheiro levou-a ao
ponto mais elevado do morro.

-- Contempla os teus domnios! disse, desferindo no ar um crculo com a
mo aberta.

Ela deixou cair o seu olhar de rainha sobre a esplndida natureza virgem
que a cercava. Bosques e bosques acumulavam-se numa interminvel
aglomeraco de tons, em que entravam todas as tintas da mgica palheta
do divino artista, dissolvidas em fogo, essa cor primordial que nenhum
outro pintor possui. O horizonte ardia em chamas; o cu rasgava-se,
deixando transbordar em jorros uma cascata de luz que dava ao menor
objeto da terra o brilho de um metal precioso. As florestas cintilavam.
Gigantescos paus-d'arco bracejavam por entre as rvores vizinhas para
mostrar bem alto a sua coroa de ouro; mas as palmeiras no se deixavam
vencer e reagiam vitoriosamente por entre a espessura da mata, agitando
no ar o seu penacho indgena; a gameleira brava procurava erguer a
cabea engrinaldada de heras e parasitas; pinheiros seculares, cedros mais
velhos que a religio, primeiras, angicos, perobas, todos os gigantes da
selva, pelejavam para sobressair! Uma luta silenciosa e terrvel! Viam-se
prpuras que se rompiam de clera; cetros que se despedaavam de
inveja! As tmidas plantas escondiam-se de medo e os lrios retraam-se,
estremecidos e assustados, procurando ocultar a candura das suas urnas


                                                                        96
embalsamadas atrs de rasteiros tinhores e discretas folhas de begnia.
Entretanto, o indiferente rio, em preguiosos torcicolos, rastreava l em
baixo, franjando de rendas de prata aquela imensa tnica de veludo verde-
negro, que a montanha arrastava, estendendo-a sobranceiramente pelo
vale. Afinal declinou a luta era a noite que vinha j, com os seus cabelos
sempre molhados, a sacudi-os, orvalhando estrelas pelo espao e
apaziguando a terra debaixo das suas asas.

Ah! como Magd amava agora tudo isso! Como estremecia aquela
montanha em que vivera os seus primeiros dias com Luiz! Era l a ptria
da sua felicidade!

E ficou a cismar embevecida neste devaneio, revendo-se na sua fraqueza
de ento, quando ainda lhe no era permitido dar um passo sem o auxilio
do amante. E veio-lhe uma grande saudade, uma forte vontade
desensofrida de rever no mesmo instante aquele lugar querido, onde ela
tanto padecera e gozara ao mesmo tempo! Ao seu lado, Luiz parecia
tomado dos mesmos enlevos; e to distrados estavam ambos, que a
moa, sem reparar, colhera uma das tais florinhas feiticeiras, e ele a
deixara colher sem dar por isso.

Mal, porm, a flor se desprendeu da haste, um medonho estampido ecoou
pelo espao, deslocando o ar e abalando a terra. Magd estremeceu, soltou
um grito e viu, em menos de um segundo, o rio que cercava a ilha
levantar-se com mpeto e, enovelando-se, arrojar-se para cima das
margens opostas e rebentar em pororocas, engolindo a terra. E a
montanha, com a sua tnica real, e os monarcas da floresta, com os seus
diademas cravejados de pedraria, e os prados com as suas cndidas
boninas, e os vales com os seus lrios tmidos. tudo defronte dos seus olhos
se convertera rapidamente num oceano sem fim, onde enorme sol
vermelho e trpego se atufava, arquejante, ensangentando as guas.

E Magd, vendo a ilha isolada no meio de tamanho mar, atirou-se ao cho,
escabujando em gritos e soluos, e por alguns instantes perdeu de todo os
sentidos.

Voltou a si chamada por uma voz meiga que lhe dizia:

-- Magd, minha filha! Valha-me Deus! Valha-me Deus! At o demnio
daquela pedreira havia de ficar defronte justamente aqui do quarto!.

E, reconhecendo a voz do Conselheiro, reconheceu tambm a da Justina.
que exclamava:



                                                                         97
-- Pestes! Atacarem fogo  pedreira sem prevenir nada, sabendo que h
aqui uma pobre doente neste estado!  maldade, como no ?

Magd, quando abriu os olhos, percebeu que estava nos braos do pai.

-- Ora graas! Ora graas, minha filha, que recuperas os sentidos!

XV

De todos os seus sonhos este foi at a o que a deixou mais vencida pela
fadiga e pela vergonha. Duas horas depois de acordada, ainda permanecia
na cama, a cismar, sem nimo de se erguer. Aquele incidente da ilha, em
que ela se via completamente nua, punha-lhe o esprito em dura revolta,
contra a qual a desgraada antejulgava que no encontraria consolaes.

-- Mas, pensava, que mal fizera a Deus para ser castigada daquela
forma?.... Pois no bastavam j os seus padecimentos fsicos, os seus
desgostos e os seus tdios?... Porque e para que ia ento o Criador
descobrir com tamanha falta de corao aquele novo modo de tortura?...
Atac-la no que ela mais encarecia -- atac-la no seu pudor...! No! antes
morrer; antes mil vezes, do que suportar por mais tempo semelhante
desvario dos sentidos!

Felizmente veio a reao; deliberou-se a abrir luta contra o sonho. E, para
dar logo comeo  campanha, resolveu passar a seguinte noite acordada.

-- Minh'ama quer o seu chocolate? perguntou Justina pela terceira vez.

Magd levantou-se afinal.

-- Voc porque se enfrasca deste modo em perfumes, sabendo que isso
me faz mal?

-- Eu, minha senhora?

-- Ento quem h de ser?

-- Juro por esta luz que no pus nenhum cheiro no corpo.

-- Veja ento se h algum frasco de perfumaria por a desarrolhado! Est
rescendendo, no sente?

-- No, minh'ama, no sinto, respondeu a criada a fungar forte, como um
animal que procura descobrir alguma coisa pelo faro. -- No sinto nada!...



                                                                         98
-- Que olfato tem voc, benza-a Deus! Estou sufocada! Abra o diabo dessa
porta, deixe entrar o ar!

Justina apressou-se a cumprir a ordem da senhora, mas o maldito cheiro
continuava. E o mais estranho  que era aquele mesmo perfume agudo da
ilha do Segredo; aquele perfume ativo que lhe penetrava no fundo do
crebro como agulhas de gelo.

-- Veja se deixaram por a algumas flores!... Sinto cheiro de magnlia!

Justina percorreu    a   alcova   e   os   aposentos   imediatos,   fariscando
ruidosamente.

Nada! No encontrava nada de flores!

-- V ento l em baixo saber o que  isto! Parece que estou numa fbrica
de perfumarias!

A, criada afastou-se, e Magd ficou a estalar a lngua contra o cu da boca.
Era ainda o terrvel gosto de sangue que no a deixava.

-- Oh! Quanta coisa desagradvel, meu Deus!

Lembrou-se ento da extravagante passagem da ilha, em que ela sugara o
sangue do trabalhador. Vieram-lhe engulhos, muita tosse e acabou
vomitando o chocolate que tomara nesse instante.

--  o mesmo cheiro, no h dvida, pensou depois, indo  janela; o
mesmo cheiro que eu sentia no sonho!

E respirava alto, com insistncia. -- Sim, sim,  o mesmo perfume! Ora
esta! Parece que tudo tresandava a magnlia! Ser muito bonito se eu, de
agora em diante, no puder livrar-me, nem acordada, de semelhante
perseguio!...

Todo esse dia, entretanto, se passou assim: o cheiro de magnlia e o gosto
de sangue no a deixaram um segundo. Nunca estivera to nervosa, to
excitada; achando em tudo um pretexto para implicar, chorando sem
causa aparente, irrequieta, a passarinhar pela casa, com um desassossgo
de ave quando est para fazer o ninho. O Dir. Lobo conversou com o
Conselheiro e os olhos deste se encheram dgua.

-- Acha ento que ela est pior, Doutor?... Acha que est muito mal?.,..




                                                                            99
-- Est entrando j no terceiro perodo da molstia. Esse desassossgo que
sobreveio agora  um terrvel sintoma... Mas no desanime! no desanime!

E, para o consolar, afianou que Magd era o caso mais bonito de histeria
observado por ele.

 noite a enferma pediu caf.

-- Caf?

Houve um espanto. No lho quiseram dar; afinal, depois de grande
disputa, consentiram em ceder-lhe meia chvena, muito fraco.

-- No, no, no! Ela no queria assim! queria um bulezinho cheio e de
caf forte.

-- Mas, minha filha, lembra-te do estado melindroso em que tens os
nervos! Se o caf em grandes doses faz mal a qualquer um, quanto mais a
ti.

Magd chorou, arrepelou-se, arrancou cabelos. O mdico, porm, voltando
 noite, aconselhou que a deixassem tomar todo o caf que lhe apetecesse

-- Deixem-na beber  vontade! Pode ser at que isso lhe produza uma
reao favorvel sobre os nervos! Nada de contrari-la!

Foi levada uma cafeteira para o quarto de Magd. Esta assentou-se 
mesinha defronte do candieiro e comeou a ler, depois de tomar uma
chvena de caf, que se lhe conservou no estmago.

-- Voc, ordenou  criada, no durma, hein? Nem me deixe dormir
tambm, compreende?

-- Como, minh'alma ? Pois vosmec no tenciona dormir to cedo?...

-- Tenciono passar a noite em claro.

-- Jesus! Mas isso lhe h de fazer muito mal! Ora como no?

-- V buscar-me aqueles jornais ilustrados e aqueles lbuns de desenho,
que esto l na sala, e ponha-me tudo a em cima da mesa.

Justina afastou-se trejeitando esgares de lstima.




                                                                       100
Magd sentia-se agora menos inquieta; fazia-lhe bem o empenho com que
ela queria pregar um logro ao sonho, faltar  entrevista com o moo da
pedreira. Sentia gosto em enganar algum. Era uma preocupao e por
conseguinte um divertimento. Ardia de impacincia por ver passada aquela
noite; afigurava-se-lhe que, depois disso, poderia dormir  vontade,
tranqilamente, sem cair nunca mais nas garras do seu maldito
perseguidor.

A Justina  que da a pouco cabeceava, sem conseguir abrir olhos. Magd
obrigou-a a tomar uma xcara de caf, o que no impediu que a boa
mulher uma hora depois ressonasse, ali mesmo, de p, encostada 
ombreira da porta, com os braos cruzados.

A senhora sacudiu-a, frentica.

-- Eu no lhe disse, criatura, para ficar acordada?

A pobre respondeu com bocejos.

-- Vamos! Ponha-se esperta! Tome outra xcara de caf!

A senhora que a desculpasse; havia, porm, um 'rr de tempo que ela no
dormia direito e puxava muito pelo corpo durante o dia...

-- E porque voc no tem dormido direito?

-- Ora! porque  necessrio estar sempre meio acordada, para ver quando
minh'ama precisa de alguma coisa... Como no?

-- Eu ento no tenho o sono tranqilo?

-- Tranqilo? Quem lho dera! Vosmec durante o sono tem arrepios de vez
em quando; doutras parece que est ardendo em calor; que sente
comiches pelo corpo: coa-se, remexe-se, abraa-se e esfrega-se nos
travesseiros; geme, suspira; to depressa d p'ra chorar, como p'ra rir;
ora se encolhe toda, ora atira com as pernas e com os braos e quer
lanar-se fora da cama! Pois ento? E' preciso que a gente a endireite; que
lhe d o remdio do frasco maior ou uma pouca dgua com flor de
laranja... De quantas e quantas feitas eu no tenho deitado a vosmec no
meu colo, para sosseg-la?...

-- E no falo quando durmo?




                                                                        101
-- s vezes, como no? e muito! mas no se entende patavina; fala entre
dentes. Ainda ontem, foi muito boa! vosmec, l pela volta das duas da
madrugada, deu p'ra embirrar por tal modo com a roupa, que eu tive de
sacar-lhe fora a camisa.

-- Pois voc me despiu, mulher?

-- E tornei a vestir depois, sim senhora.

-- E eu no acordei! ...

-- Ah! vosmec agora tem um sono muito ferrado. Quer parecer que
acorda, mas qual! est dormindo que  um gosto! abre os olhos, isso abre;
passa a mo pela testa; se lhe dou a gua -- bebe-a; s vezes levanta-se,
quer andar, eu no deixo. Uma ocasio, quando dei f, j minh'ama se
tinha safado da cama e estava a procurar no sei o que naquele canto do
quarto... Por sinal que me pregou um tal 'susto, credo!

Magd ficou a cismar com as palavras da criada, estalando sempre a lngua
contra o cu da boca. Uma idia extravagante atravessava-lhe o esprito
nesse momento: "E quem sabia l se aquela mulher no lhe tinha dado
sangue a beber?..."

Fitou Justina, e com tal insistncia, que a rapariga perguntou:

-- Sente alguma coisa, minh'ama?...

-- Deixe ver o seu brao.

Justina estendeu o brao, intrigada.

Magd examinou-o todo, minuciosamente, mas no descobriu nele a
menor escoriao.

-- Porque vosmec me revista o brao? ...

-- Cale-se!

E, depois de fit-la de novo: -- O que  que voc me tem dado a beber
durante o sono? Mas no minta!

--  minha senhora, eu j disse, como no? A gua pura ou com acar e
flor de laranja, ou quando no, aquele remdio de frasco maior, que o




                                                                      102
Doutor mandou dar, quando vosmec acordasse  noite com os seus
incmodos.

Magd pediu o tal frasco para ver e, apanhando uma gota do remdio com
a lngua, ficou a tomar-lhe o sabor.

Qual! No era dali que vinha o gosto de sangue!

Bateu meia noite no relgio da sala de jantar.

-- Olhe, minh'ama, meia noite!

-- J sei! V l abaixo buscar um pouco de presunto com po.

-- Que diz, minh'ama ? No caia nessa! Vosmec tem visto o mal que lhe
faz a comida fora d'horas...

-- No me aborrea! Veja o que lhe disse!

Justina saiu do quarto, resmungando, e a senhora logo que se achou
sozinha, teve um tremor de medo. A criada felizmente no se demorou
muito.

-- C est, minh'ama. Vosmec quer vinho?

-- No.

~ Magd gulosou algumas febras de presunto, bebeu mais caf e atirou-se
aos seus jornais ilustrados, disposta a no ceder um passo na resoluo
tomada.

-- Porque vosmec no se vai deitar, minh'ama? E' melhor! Agasalhe-se!
Daqui a pouco est a a friagem da madrugada! J passa de uma hora!

A filha do Conselheiro no respondeu e ferrou a vista, com uma fixidez de
teima, no desenho que tinha debaixo dos olhos.

-- Vosmec nunca se deitou to tarde..

-- Cale-se, que diabo!

--  que lhe pode fazer mal...

-- Pior!



                                                                      103
A criada calou-se, bocejou traando com a mo uma cruz, mais sobre o
nariz do que sobre a boca, e da a nada pediu, quase de olhos fechados,
que su'ama ento lhe deixasse encostar a cabea um instante. "Ela estava
a cair de canceira".

Pois sim, que fosse, mas que ficasse alerta.

"Como no?" Mal porm. encostou a cabea, dormiu logo a sono solto.

No entanto, a senhora parecia bem entretida com as suas ilustraes.
Correu meia hora -- e ela sempre a ver os desenhos e a ler. De repente
teve uma contrao nervosa, muito rpida.

-- Mau!... disse, e procurou segurar melhor a ateno no que estava lendo.

Mas com pouco um calefrio empolgou-lhe os ombros e foi lhe descendo
pelo dorso, at fazer vibrar-lhe o corpo inteiro

-- Justina! Justina!

A criada no se abalou, e o silncio e a solido da noite comearam
prontamente a fazer das suas. A histrica estremeceu de novo, olhando
para os lados, aterrada, sem poder mais articular palavra. Um pnico
apoderou-se dela, pondo-lhe estranha agitao no sangue.

Teve uma idia -- rezar.

Ergueu-se desvairada, com os cabelos em p, e encaminhou-se para o
crucifixo. Nisto ouviu distintamente uma voz dizer ao seu ouvido:

-- Magd!

Voltou-se com um gemido rouco e caiu de joelhos defronte da imagem,
toda trmula e gelada.

Tinha reconhecido a voz do seu amante fantstico. E principiou logo a ver
tudo avermelhado como nos sonhos: o que era branco fazia-se cor de
rosa; o que era cor de rosa tingia-se de escarlate; o amarelo tomava a cor
de laranja e o azul arroxeava-se.

Ela arfava; levou a mo  testa: os dedos voltaram midos de suor frio;
quis gritar, e no pde. E o seu corpo escaldava em febre; e suas fontes
latejavam. Contudo no tinha perdido ainda de todo a razo e




                                                                       104
mentalmente suplicava a Deus que a amparasse, que a socorresse naquele
horroroso transe:

-- Pois no me ser dado escapar a esta maldita perseguio?...  meu pai
misericordioso, que ir me suceder? Que ir me suceder agora?

Mas os objetos difundiam-se j e transformavam-se em torno de seus
olhos, que s viam a imagem de Cristo -- de braos abertos, e a crescer, a
crescer, enchendo a parede.

E, naquela palpitao nervosa, Magd sentia as palavras borbotarem no
seu esprito e derramarem-se pelos seus lbios com a verbosidade e a
inspirao de um poeta brio.

-- Preciso no sonhar! Preciso arrancar aqui de dentro esta dolorosa
loucura que me absorve, gota a gota, toda a substncia da minha vida!

E, de joelhos, o rosto levantado, as mos erguidas para o cu, as lgrimas
a desfiarem-lhe uma a uma pelas faces, ela acrescentou depois da orao
que lhe ensinara a tia Camila: -- Jesus, meu amado, meu esposo, acode-
me, acode-me depressa, que a fera j a est comigo! Vem, que ela me
farisca e me cerca rosnando! Vem, que lhe ouo o respirar assanhado e j
sinto o seu bafo e o cheiro carnal que ela solta de si! Vem, que a maldita
me acompanha por toda a parte e me cheira como o co  cadela! Vem de
pressa; no a deixes saciar no meu corpo de virgem os seus apetites
lascivos! No me deixes assim, amado do meu corao, cair to feiamente
em pecado de impureza e luxria! No me atires como um pedao de carne
s garras do lobo imundo! Esconde-me  tua sombra; protege-me como o
fizeste com a outra Madalena, menos merecedora do que eu, que sou
donzela e sempre te amei e servi com a mesma candura! Lembra-te,
querido de minh'alma, de que estou enferma e fraca e s tenho fora e
nimo para te amar! V que no me posso defender s por mim! Ajuda-
me! tem pena de quem te quer e adora acima de todas as coisas! V como
tremo e choro! Se s o pai dos humildes, vale-me agora, salva o meu
pudor e no consintas que de hoje em diante a minha virgindade se haja
ainda de retrair corrida e envergonhada! Vem e acompanha-me nos meus
sonhos, conduze-me pela tua mo, como fazias com as crianas que
encontravas perdidas no caminho; se te vir a meu lado no sonharei
desatinos e sujidades que me matam de vexame e nojo contra mim
prpria! Vem ter comigo e exorciza de dentro de mim o demnio que
habita minha carne e enche de fogo todas as veias do meu corpo! No
deixes que a luxria esverdinhe minha alma com a baba do seu veneno!
Reabilita-me, para que eu me estime e preze como dantes! Lava-me da
cabea aos ps com a luz da tua divina graa; perfuma-me com os teus


                                                                       105
aromas celestiais; sopra teu hlito sobre mim, para que no me fique
vestgio de terra na pele e nos cabelos; beija minha boca, para lhe apagar
o gosto de pecado que a pe amarga e suja; beija meus olhos, para que
eles no enxerguem o que no devem ver; beija meus ouvidos, para que
eles no escutem o que no devem ouvir; beija-me toda, para que toda eu
me purifique e me faa digna do teu amor! Sacode em cima de mim o
orvalho do teu manto e as gotas do teu cabelo, para que eu me acalme e
abrande; traa com a tua mo pura uma cruz sobre a minha testa, para
afastar por uma vez os maus pensamentos, e passeia trs voltas em torno
do meu corpo para que a fera nunca mais se aproxime de mim! Vem, vem!
que ela a torna e comea a uivar de novo! Acode-me, Senhor, acode-me!

Estremeceu toda num arrepio mortal, escondendo o rosto, sacudida pelos
soluos. E, como em resposta s suas splicas, no descia dos cus
nenhum alvio, ela revoltou-se afinal contra Jesus: -- Para que ento
servis? interrogou -- Para que ento sois Deus, se no baixais em meu
socorro, quando eu tanto preciso de amparo e de defesa?! Que  feito
ento do extremoso amigo das mulheres e das crianas, ao qual me
ensinaram a amar desde o bero? que  feito desse ente apaixonado e
casto, que tinha dantes consolaes para toda a desgraa, e um raio de luz
para secar a mais escondida lgrima dos que padeciam? que  feito do
sudrio cor de lrio em que se enxugava o pranto dos desamparados? que
 feito dessas bnos de pai, que apaziguavam a terra e confortavam o
corao dos pobres? para onde se voltaram aqueles olhos misericordiosos,
que dantes enchiam o mundo com o eflvio da sua ternura? como para
sempre se fecharam aquelas entranhas de piedade, aquele peito de amor,
onde a msera humanidade se refugiava, como num templo de ouro e
marfim? Se no vierdes imediatamente em meu socorro, acreditarei no que
dizem os contrrios da vossa igreja, ou que desertastes de vez para os
cus, esquecidos de todo das vossas criaturas! Se no vierdes j e j,
acreditarei que estais outro e que j no sois aquele mesmo Jesus, terno,
humilde, casto, bom, fiel e onipotente! acreditarei que viveis no egosmo e
na indiferena, amarrado ao trono, brio de orgulho e vaidade, como
qualquer miservel monarca da terra!

E interrogou a imagem com um olhar em que havia splica e ameaa. Mal
soltou logo um rugido surdo, apontando para o crucifixo e balbuciando,
cheia de terror: -- No! J no sois vs quem a est crucificado! Quem
est a agora  o outro!  ele!  o demnio!

E caiu do bruos no cho, com um grito. E logo em seguida, sem nimo de
erguer a cabea, transida de medo, sentiu distintamente que o Cristo se
agitava na parede, como forcejando para despregar-se da cruz, e que
afinal descia, pisava no cho, encaminhava-se para ela e tocava-lhe de


                                                                        106
leve com a mo no ombro, aproximando a boca, para lhe falar ao ouvido.
Magd sentiu rescender o cheiro da murta.

-- Levanta-te, amiga minha, formosa minha, e vem! A mangueira comeou
a dar as suas primeiras mangas; as flores do caju lanaram j o seu
cheiro! Vem, pomba minha: nos segredos do teu quarto mostra-me a tua
face; soe a tua voz dentro dos meus ouvidos, porque a tua voz  doce e a
tua face graciosa!

A moa ergueu a cabea.

Ele beijou-a, prosseguindo, com o rosto unido ao dela: -- Sim, Magd,
minha irm, minha esposa, minha amada, teus olhos de to belos se
parecem com os olhos de Maria Santssima; so ternos, so negros,
humildes o majestosos; tuas mos brancas relembram os lrios da Virgem
e os teus dedos distilam a mirra mais preciosa; as faces do teu rosto
rescendem como as rosas do amor divino; os teus cabelos excedem no
cheiro aos aromas excelentes do seu altar; os teus peitos so brancos
como duas ovelhas gmeas e to rijos como os jacintos da sua coroa de
rainha dos cus; a tua carne  to macia como o cetim do seu manto e o
cheiro dos teus vestidos  como o cheiro do incenso; o sorrir da tua boca 
to lindo como o dela, mas eu gosto mais do teu, por menos divino e
etreo e porque mais me enfeitia e me abrasa de amor; o teu hlito,
minha pomba,  melhor que os perfumes do pas de Cedar; tua garganta 
de sndalo; tua voz  um aroma; a luz dos teus olhos  um diamante
lquido; teus dentes so prolas de orvalho entre ptalas de rosa. Tu, entre
as mulheres da terra, s a mais bonita, a mais sedutora e a mais amvel;
entre as mulheres tu s como a palmeira entre as outras rvores: no tens
igual; s majestosa como os cedros do Lbano e delicada e cheirosa como
os eloendros de Jerusalm

Magd deixava-se embalar pela msica sensual e mstica destas palavras e
o cheiro de murta. E, j sem medos nem sobressaltos, quedava-se imvel
e comovida, como se estivesse conversando em xtasis com um Cristo s
dela, um Cristo destronado e sem orgulhos de Deus, um Cristo seu
amante, fraco, de carne, submisso e humano.

E a voz ainda lhe disse, entrando-lhe pelos ouvidos, pela boca, por todos
os poros, com o seu aroma agreste e afrodisaco: -- Levanta-te, minha
amada, e torna comigo ao nosso ninho de amor! Eu te busquei esta noite a
meu lado, busquei-te e no te encontrei! Ergui-me  luz das estrelas e
rodeei como um louco a ilha, e no te achei! busquei-te pelas matas, pelos
vales e pelo monte, e no te descobri! Chamei-te: "Magd! Magd!
Magd!" e no me respondeste! Perguntei s guas do mar, s arvores do


                                                                        107
campo, aos ventos do espao, se tinham visto aquela a quem ama
minh'alma; e todos eles no souberam dar novas tuas; e eu aqui estou; eu
vim buscar-te, e no tornarei sem te levar comigo! Vem! Na tua ausncia
fiz um leito de madeiras aromticas e alcatifei-o todo de flores, para te
receber; colhi os mais saborosos frutos para a tua chegada, e fermentei a
uva mais doce para nos embriagarmos com ela!

-- Sim, sim, respondeu afinal Magd, entregando-se a ele; leva-me! Eu te
acompanho de novo para onde bem quiseres! Carrega-me, querido! Preciso
ir beber do teu vinho, comer dos teus frutos, amor do teu amor e reviver
com o teu sangue! Leva-me! Aqui me tens! Sou tua!

XVI

Esta crise prostrou-a de cama por dois dias, dois dias de febre e delrios,
em que ela no deu acordo de si e falava de coisas inteiramente estranhas
para os mais. Sonhava-se na ilha do Segredo.

- Quando, enfim, se levantou havia j entrado totalmente no terceiro
perodo da molstia. Estava cadavrica; os olhos muito fundos; as faces
cavadas e a pele estalando em pequeninas rugas, como porcelana velha.
Contudo, em nenhum dos seus gestos, como em nenhuma de suas
palavras se lhe notava desarranjo cerebral; aparentemente era a mesma
em orgulho, em virtudes e em fidelidade aos seus princpios religiosos,
apenas sucedia que todas estas qualidades cada vez mais se acentuavam
com certo exagero progressivo. O cheiro de magnlia e o gosto de sangue
ainda a perseguiam com maior ou menor intensidade. De novo o que
Magd apresentava agora de mais notvel eram umas espcies de
alucinaes letrgicas, muito rpidas, que a acometiam de vez em quando
e nas quais reatava quase sempre o seu ltimo sonho; mas no falava
durante essas crises, ficava num estado comatoso, esttica, de olhos bem
abertos, dentes cerrados, um ligeiro rubor nas faces; s vezes sorrindo e
s vezes deixando que as lgrimas lhe corressem surdamente pelo rosto.

O mdico recomendou que no a despertassem dessas letargias.
"Deixassem-na l, que por si mesma havia de recuperar a razo."

Outra novidade era que j no parecia sentir, como dantes, repugnncia
em ouvir falar no futuro cunhado de Justina; agora, ao contrrio, quando
esta se referia ao rapaz, a senhora escutava-a com interesse e at j lhe
fazia perguntas a respeito do pobre diabo. Uma ocasio quis saber que tal
era ele de gnio; quais os seus costumes, se bons ou maus; se estimava
muito a noiva; se pretendia realizar em breve o casamento; se era homem
dado a bebidas, ou ao jogo, ou a outras coisas feias. A criada informou


                                                                        108
muito a favor do Luiz: elogiou-lhe o carter; contou as suas boas aes;
falou na sua economia, no seu amor pela me e pela av, e terminou
declarando que a Rosinha apanhara um homem s direitas. "s direitas,
como no?"

 filha do Conselheiro contrariaram um tanto estes elogios. No sabia
porque, mas intimamente desejava que aquele imbecil fosse mais
desgraado e menos digno de estima; preferia ouvir dizer pelos outros os
horrores que ela tinha vontade e no podia despejar contra o miservel;
preferia saber que ele era um perdido, sem a menor idia de estabelecer
famlia, um bbado devorado pela vil e baixa crpula das vendas e dos
cortios. E Magd ficava revoltada, sentia as mos frias de raiva, quando,
ao chegar por acaso  janela, dava com o cavoqueiro que ia ou vinha do
trabalho, ostentando o ar satisfeito de quem traz a vida direita e anda em
dia com as obrigaes.

-- Ah! o seu desejo era descarregar-lhe um tiro na cabea!

Um domingo, em que ela espairecia  porta da chcara, o Luiz passou na
rua, todo chibante nas suas roupas de ver a Deus, de brao dado  noiva,
e rindo muito e conversando com a me e com a velhinha Custdia:
contentes que metia gosto v-los. Pois a filha do Conselheiro, s por causa
disso, mostrou-se contrariada e ficou pior esse dia. Tanto que, j de noite,
estando a cismar na sala, com os olhos fitos num pequeno grupo de
mrmore que a havia, ergueu-se, tomou-o nas mos e, depois de o
examinar com o rosto muito carregado, arremessou-o de encontro  laje
da janela. O grupo representava em miniatura: "Amor e Desejo", de Miguel
ngelo -- Um casal de quinze anos preso pelos lbios em um beijo ideal e
ardente. -- Quando o Conselheiro, deveras contrariado, perguntou quem
havia quebrado a escultura, ela respondeu sem se alterar:

-- Foi a Justina, papai, mas no lhe diga nada, coitada!

Sim, por ltimo dera para isto: pregar destas pequenas mentiras e, se
acaso queriam provar o contrrio do que afirmava, punha-se furiosa,
acabando sempre por desabafar em soluos a sua contrariedade. Assim,
tendo uma vez matado um casal de rolas que havia na sala de jantar, s
porque o surpreendera em flagrante delito de procriao, no s fugiu 
responsabilidade do ato como ainda afetou grande desgosto pela morte dos
brutinhos, chegado a revolucionar toda a casa para descobrir o suposto
assassino.

Entretanto, os sonhos com Luiz continuavam sem interrupo, e Magd, a
contra gosto, habituava-se com a sua existncia em duplicata, ajeitando-se


                                                                        109
pouco a pouco ao contraste daquelas duas        vidas to diversas e to
inimigas. No podia ser mais feliz do que era   ao lado do seu fantstico
amante; ah! mas bem caro pagava depois           essa felicidade, quando,
acordada, o seu orgulho de mulher honesta        abria em luta contra as
degradantes lubricidades do sono.

Viviam nus desde o fatal momento em que se prenderam na ilha do
Segredo. Luiz construra uma cabana de bamb, coberta de pindoba, e fez
alguns utenslios domsticos; j tinham cama, bancos, um armrio para
guardar frutas, e dois ou trs potes para conservar o mel das abelhas, o
vinho do caj e o leite de uma cabra que apanharam no monte.

Cercaram a choupana com valentes toros de madeira e, quando anoitecia
levantavam uma fogueira defronte da porta.  que j se no sentiam to
seguros como dantes; Luiz temia at qualquer invaso, porque, logo que o
rio se converteu em mar, estava franqueada a ilha.

E, com efeito, um belo dia, passeavam os dois na praia, secando os
cabelos ao sol depois do banho, quando avistaram no horizonte uma vela
que se aproximava. Ficaram ambos transidos de sobressalto; Luiz ordenou
a Magd que se metesse em casa e no sasse sem ser chamada por ele.

A filha do Conselheiro obedeceu, mas ficou espiando l de dentro.

Da a pouco viu chegar num escaler, tripulado por quatro marinheiros, um
magote de seis pessoas que, pela distncia, no podia reconhecer,
distinguindo apenas que havia quatro mulheres no grupo; que um dos
homens trazia farta de oficial de marinha e que o outro estava todo
envolvido numa enorme capa negra, que lhe dava aparncias de espectro.

O oficial saltou a ilha e fez apeiarem-se as mulheres. Estas, logo que se
pilharam em terra, correram de braos abertos sobre Luiz, soltando gritos
de contentamento. E, depois de muitos beijos e abraos, puseram-se todos
a caminhar na direo da palhoa, acompanhados pelos quatro marinheiros
que vinham armados de escopetas e machadinhas de abordagem.

Magd reconheceu ento que o oficial era o Conselheiro, vestido e
remoado como num retrato a leo, que ele tinha no seu gabinete de
trabalho em Botafogo.

Tremeu, quis fugir, mas lembrou-se da ordem de Luiz e deixou-se ficar.
Em uma das mulheres descobriu Justina; em outra Rosinha; nas outras a
me e a av do moo da pedreira. Vinham todas com as roupas do
domingo; as duas velhas traziam lenos de ramagem na cabea, e nos


                                                                      110
ombros xales encarnados de Alcobaa. As raparigas, com os seus
vestidinhos de chita, tinham o ar contrafeito e grosseiramente srio das
moas de cortio; as mangas do casaquinho muito justas, quase
insuficientes, dando difcil sada a punhos grossos, vermelhos e lustrosos,
terminados em mos curtas, socadas, de gordura sangunea.

O outro, o da tnica negra,  que Magd no conseguiu reconhecer, a
despeito dos esforos que empregava para isso; s pde distinguir-lhe as
feies quando ele l se achava a uns quarenta passos da choupana. Era
seu falecido irmo, o Fernando; vinha cor de cadver, muito desfeito;
parecia ter sado naquele instante da sepultura. Ela estremeceu toda e,
com um arranco de anta bravia, pinchou o corpo para fora da toca e abriu
num carreiro pelo mato.

-- No fujas! gritou Luiz. -- No tenhas medo, que ningum aqui te quer
fazer mal

-- Magd! Magd!

-- Espera, minha filha!

Era tudo intil. Magd, completamente una, os cabelos soltos ao vento, l
ia, por trancos e barrancos, internando-se na floresta. Um fugir vertiginoso
de cabrita assustada! Morros e valados desapareciam atrs dela; no havia
encruzamento de cip que lhe tolhesse a marcha, nem espinheiro, por
mais bravio, que lhe quebrasse a fria. E sentia atrs de si uma gritaria
infernal e um tropel confuso de passos rpidos.

-- Magd! Magd! Bradavam-lhe na pista.

E ela corria mais De repente -- parou. Uma voz grossa exclamava-lhe pela
frente:

-- Cerca! Cerca!

Em menos de um minuto fecharam-na por todos os lados gritos de
caadores e passos que se aproximavam com vertigem.

-- Cerca! Cerca!

-- Por aqui!

-- Por ali!




                                                                        111
E de cada ponto surgiu logo uma cabea de marujo, rompendo a
argamassa das folhas.

Magd caiu por terra sem foras, as carnes alanhadas, os ps em sangue,
os cabelos arrebentados. Incontinente os homens a rodearam, sem todavia
nenhum deles lhe tocar com um dedo; a prisioneira, estarrecida no cho,
arquejava, cruzando as pernas e os braos para esconder as suas partes
vergonhosas. Afinal chegaram os outros, entre os quais vinha o Luiz, agora
mais composto por uma capa, que o Conselheiro lhe pusera aos ombros; o
primeiro a aproximar-se dela foi Fernando, que despiu logo a manta e
estendeu-a sobre a nudez da irm.

-- Minha filha! minha filha! disse o Conselheiro, vergando-se para lhe dar
um beijo. -- Em que estado a encontro, meu Deus! E ordenou aos
marinheiros que improvisassem uma padiola de bambs e folhas de
bananeira.

Da a pouco Magd era levada ao ombro daqueles para a cabana.
Arrearam-na sobre o tosco leito fabricado pelo amante; deram-lhe a beber
os confortativos que se foram buscar a bordo com toda a pressa e
lavaram-lhe em arnica as feridas que ainda sangravam.

Quando conseguiu falar, pediu ao pai e ao irmo que no a castigassem.

-- Castigar-te, minha filha...? respondeu o Conselheiro, afagando-a. --
No! Nada tenho que te exprobar, porque agora compreendo que o moo
da pedreira te salvou a vida, trazendo-te para o seu desterro. Se eu te
obrigasse a ficar l em casa, sozinha comigo, a estas horas estarias sem
dvida debaixo da terra; ao passo que aqui -- vives! e ests forte, e bela,
e feliz! No! eu te abeno, como abeno a este rapaz, cujos esforos
foram muito mais proveitosos que os do Dr. Lobo.

E, palavras ditas, o pai de Magd abraou-se a Luiz.

-- No desejo contrariar-te... prosseguiu ele, voltando-se de novo para a
rapariga, com os olhos carregados dgua, se quiseres continuar a viver
aqui, fica; se quiseres voltar para a minha companhia, eu te receberei e
mais ao teu homem; apenas o que lhes peo. quer vo ou fiquem,  que se
casem e quanto antes. Trouxe no meu navio um padre e tenho a bordo o
necessrio para armar o altar.

-- Pois est dito, balbuciou Magd. E chegando os lbios ao ouvido do pai,
disse-lhe um segredo, que a ela prpria fez corar, mas que a ele encheu de
vivo contentamento.


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-- Um neto, exclamou o Conselheiro. -- Oh, que felicidade!

Magd, afogada em pejo. tapou-lhe a boca com a polpa da mo.

-- Ter um neto era o meu sonho dourado! Como vou ser feliz no resto da
minha vida!...

-- Ora, papai!...

Que mal faz que o saibam todos, se vais esposar de teu filho?... Acaso,
desse momento em diante; no ficars reabilitada aos olhos do mundo
inteiro!

-- Cale-se, papai...

-- No! Deixe-me falar! Deixa-me dar expanso  minha alegria! No vs
como estou rindo... . e no sentes, minha filha, estas lgrimas que me
abandonam, porque o corao, de to contente que est, as enxota de
casa, como inteis de hoje em diante? Oh! obrigado, Magd! muito
obrigado!

De junto, Fernando contemplava-a silenciosamente com o seu imvel e
apagado olhar de morto; os braos em cruz sobre o casco do peito; a pele
sem brilho; as barbas ressequidas e cobertas de p. Agora  que ele de
todo se parecia com o Cristo da Mater Dolorosa; a irm teve impulsos de
ajoelhar-se defronte daquela melanclica imagem e rezar. como fazia
dantes nas suas tredas escpulas religiosas.

Ficou resolvido que o casamento se efetuaria da a dois ou trs dias com a
maior solenidade que lhe pudessem dar. Comeou-se logo a construir outra
casa maior, no mais de bambs amarrados com embira e coberta de
folhas de pindoba, mas feita de madeiras escolhidas, forrada de tbuas
pela parte de fora e de lona pela parte de dentro. Mobiliaram-na depois
com muito gosto e sortiram-na com enorme proviso de mantimentos cm
conserva, e pipas de vinho e aguardente e latas de bolacha inglesa E
vieram tambm aparelhos de porcelana e lanternas e candieiros, muitas
caixas de velas, jarros, quadros, um piano, colcho, colchas lavradas e
roupas de toda a espcie, no esquecendo as jias, os livros e mais objetos
de que se privara Magd ao partir com o cavoqueiro.

-- Mas isto  uma mudana completa! Meu pai no deixou nada em
terra...! -- observou ela, notando as coisas que desembarcavam e
reconhecendo-as uma por uma.




                                                                        113
Com efeito, vinha tudo; l estavam as louas da Saxnia, os candelabros
bisantinos, as peles da Sibria. as velhas tapearias do salo de Botafogo,
os caprichosos kakimanos, os espelhos, os damascos bordados a ouro e
prata, e os consolos com mosaicos de Florena.  que o Conselheiro, uma
vez que a filha no estivesse resolvida a acompanh-lo, voltaria  vida
inconstante do mar, para nunca mais se desprender do seu navio.

Pronta e armada a casa, principiou-se a fazer defronte dela um altar ao ar
livre, com uma imensa cruz de cedro tosco entre duas palmeiras e fincada
num grande pedestal de troncos d'rvores, cujos degraus no se viam, era
tal a profuso de flores que os carregava de alto a baixo. Arranjaram-se
faris para iluminar toda a ilha, e a tripulao de bordo saiu, em parte
armada de espingardas, a caar pela floresta, e em parte carregada de
redes para a pescaria. Engendrou-se uma soberba tenda destinada ao
banquete, embandeirou-se tudo e pregaram-se lanternas chinesas em
volta da habitao.

No dia das bodas cinqenta peas de caa e outras tantas de pesca
rechinavam e lourejavam sobre braseiros e fogueiras; grandes tachos de
cobre luziam ao fogo, soprando nuvens de vapor odorante; fabricavam-se
os doces mais estimados; batiam-se as massas mais delicadas. E os
marinheiros, agora de avental branco e carapua de cozinheiro, cruzavam-
se no morro, ora levando largas braadas de frutas, ora carregando
enormes travesses de assado, ou conduzindo para & mesa nforas de
prata cheias de vinho. Havia uma grande atividade; a velha Custdia e a
tia Zefa no descansavam um segundo, iam e vinham azafamadas, a saia
enrodillhada na cintura, os braos arremangados, to depressa a encher
garrafas e cangires, como preparando ramilhetes para os jarros ou
pejando as corbelhas com frutas que lhe traziam os marujos. O
Conselheiro, sempre de farda, dirigia todo o servio tal qual como se
manobrasse um navio; s dava as suas ordens apitando ou ento gritando
por um porta-voz de que se no separava nunca. E ao seu comando
afestoava-se toda a ilha, com uma rapidez de servio de bordo.

A cerimnia religiosa estava marcada para o meio-dia em ponto e devia ser
seguida por uma salva de vinte tiros de canho, toque de caixa e corneta,
repiques de sino e vivas da marinhagem. O capelo havia chegado j,
acompanhado por dois marujos vestidos de batina e sobrepeliz, vendo-se-
lhes por debaixo as botas de couro cru, sentindo-se-lhes ranger o cinturo
e adivinhando-se-lhes a navalha grudada aos largos quadris. Os turbulos e
a caldeirinha pareciam em risco de esfarelar-se entre os seus dedos
grossos como cabos de enxrcia. Aquelas caras marcadas, com a barba
feita de fresco e uma faixa branca no lugar da testa em que o bon no
deixara que o sol as encardisse, no pareciam de gente, e, no entanto,


                                                                        114
coisa singular! ambas lembravam a carranca do Dr. Lobo. Magd, ao v-
las, retraiu-se intimidada e no se animou a dar palavra, nem a mexer-se
do lugar em que estava. Ficou tolhida, a fit-las por muito tempo.

A voz da Justina despertou-a com uma vibrao estranha, que a fez
estremecer toda; uma voz que desafinava do resto.

-- Que , mulher perguntou Magd, arregalando os olhos sobre ela.

Acordara por instantes, mas no chegou a reconhecer o seu quarto da
Tijuca.

-- Ento, minh'ama no se veste?... Fica vosmec desse modo a olhar para
mim?... Vamos, prepare-se...

-- Sim, tens razo; so horas. D-me o banho.

E acrescentou de si para si:

-- Est tudo pronto! J chegou o padre com os seus ajudantes; meu noivo
deve agora parecer lindo como um Deus! Vou perfurmar-me e fazer-me
bela, para que ele mais se abrase de amor assim que me veja...

Era o delrio que prosseguia, mesmo sem a interveno do sono.

A criada trouxe-lhe o banho que lhe servia todos os dias; ela, porm,
supondo~se na sua casa da ilha, tinha que se lavava em guas
perfumadas e que cortava e brunia as unhas, alisava os cabelos com leo
cheiroso, enchia-se de aromas finos, e em seguida que se cobria toda de
rendas e cambraias e punha um vestido de veludo branco bordado de
prata, calava meias de seda finssima, sapatinhos de cetim e guarnecia a
cabea e o pescoo com longos fios de prolas.

Mirou-se no espelho e nunca se achou to bela.

-- Est pronta a noiva! Est pronta a noiva! -- exclamaram de todos os
lados, assim que a viram surgir  porta da habitao, acompanhada pela
Justina.

Os marujos soltaram gritos de entusiasmo.

Magd volveu os olhos em redor de si e notou, sorrindo, que, nem s as
pessoas que ali estavam, como tambm a natureza inteira, pareciam
alegrar-se com a sua felicidade; mas deixando cair a vista para o fundo do



                                                                       115
vale, teve um sobressalto: l em baixo, na fralda do monte, o espectro de
Fernando passeava tristemente por entre as rvores, arremedando Cristo
no Horto das Oliveiras; tinha os passos lentos, a figura alquebrada, uma
doce resignao na fisionomia. Viu depois uma mulher aproximar-se dele,
atirando-se ao cho para lhe beijar os brancos ps descalos e a fmbria da
sua tnica rota pelos espinhos e embranquecida pela areia das estradas;
reconheceu Rosinha. E a dura melancolia daquele canto de paisagem,
mergulhado na sombra, lembrava Jerusalm; e menina do cortio, com as
suas roupas em desalinho, cabelos soltos e cobertos de terra, o rosto
escorrendo de lgrimas, parecia estrangulada por uma aflio profunda e
fascinadora como a de Maria Madalena. A infeliz abraava-se s pernas de
Fernando, desfazendo-se em queixas e lamentos, que Magd no
conseguia ouvir; ele, afinal, ergueu-a carinhosamente, pousou-lhe a mo
aberta sobre a cabea, e, terno e comovido, tornou para o cu os olhos
castos, onde havia splicas de infinita doura.

Rosinha ps-se ento a rezar vergada sobre o peito; enquanto o outro se
afastava, caminhando sutil, que nem uma sombra, por entre as rvores.

Magd desceu de carreira pela encosta da montanha na direo que ele
tomara. O seu vulto de noiva sobressaia errante na azul penumbra dos
caminhos como um lrio levado pelo vento; mas, quando alcanou a
campina, j Fernando ia distante.

-- Atende! Atende! gritou atrs dele.

O espectro no atendeu e l foi por diante, agitando s brisas do mar a sua
tnica solta.

-- Fernando! irmo meu amado de minha alma, no me fujas!

E o lrio precipitava-se pelo vaie, sem conseguir alcanar a sombra dos
seus amores.

Venceram assim toda a floresta; a sombra sempre a fugir e o lrio a
persegui-la; at que chegaram s margens da ilha, e Magd viu estender-
se o oceano defronte de seus olhos. E a sombra, a fugir-lhe sempre,
ganhou as guas, andando por sobre elas, como Jesus sobre o lago de
Genezar.

A sonhadora parou na praia, resignada e triste, e o seu olhar acompanhou
aquela estremecida sombra fugitiva que se fazia ao largo, at v-la
desaparecer de todo no infinito das ondas.



                                                                        116
"Eu como sol a buscar-te... tu como sombra a fugir-me!.. ." pensou,
tornando ento sobre seus passos, e ajoelhando-se de vez em quando,
para beijar em xtases as pegadas que Fernando deixara na areia. Afinal
penetrou de novo na mata e, caminhando distraidamente, chegou  fralda
da montanha sem dar por isso, de to preocupada que ia.

Uns soluos que vinham do fundo do vale despertaram-na do seu enlevo.
Encaminhou-se para l, e descobriu Rosinha, deitada de bruos  sombra
de uma figueira brava, chorando, com o rosto escondido nos braos.

Aproximou-se dela e tocou-lhe no ombro; a outra ps-se de p e teve um
gesto de clera quando reconheceu a rival.

-- Est zangada comigo?... -- perguntou a filha do Conselheiro, fazendo-se
meiga.

-- E a senhora ainda mo pergunta? Rouba-me o noivo e pergunta se estou
zangada! Tem graa!

Magd procurou acalm-la, dizendo-lhe com extrema brandura que o Luiz,
que Rosinha conhecia do cortio, o moo da pedreira, era um ser
fantstico, um mito; e que o nico verdadeiro Luiz, o existente, era o da
ilha, o poderoso monarca, o senhor daqueles domnios, um ente superior,
um ente privilegiado por Deus, que lhe concedera o dom de tomar na terra
a encarnao que lhe aprouvesse. Rosinha que se conformasse com a
sorte, coitada! que se resignasse, que tivesse pacincia; mas o Luiz, o
legtimo, o nico, o rei da ilha, esse lhe pertencia a ela, Magd, e nunca
seria de nenhuma outra mulher.

-- Isso  o que veremos! -- replicou a moa do cortio, lvida de raiva --
No  a mim que a senhora convence de que este Luiz no  aquele
mesmo que me havia prometido casamento! Ah, eu no tenho, bem sei, os
seus segredos para o enfeitiar, mas tambm juro-lhe que o verdadeiro
amor, o amor que ele me inspirou, sincero e ardente,  capaz de tudo e 
mais poderoso do que quantos artifcios possam imaginar as bruxas da sua
espcie! O que lhe afiano pelo menos  que eu, desprezada como sou,
seria mulher para dar por ele a minha vida, ao passo que a senhora, s
com o fim de se fazer bonita, lhe tem roubado todo o sangue!

-- Cala-te, miservel!

-- Ah, pensavas que eu no sabia...? Bem te conheo, vampiro! No  
toa que o pobre rapaz ultimamente anda to fraco, que nem pode subir 
pedreira sem ficar cansado! Ele, o Luiz, dantes mais rijo e mais gil que


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um potro! Ah, mas conto que a tia Zefa h de descobrir que lhes ests
matando o filho! Livre-te Deus de que a velha Custdia suspeite de longe o
que se tem passado com o neto! Aquela velhinha, ali onde a vs,  capaz
de arrancar-te a lngua pela boca, ladra fementida!

E a rapariga do cortio, dando em Magd um empuxo que lhe abalou o
corpo inteiro, exclamou terrvel:

-- Vai! vai! casa-te com o Luiz! farta-te, loba! A~ festas esto prontas! o
altar est armado! a cama est juncada de flores! Vai, deita-te, mais ele, e
logo que o tenhas embebedado com o teu almscar de cobra traioeira,
suga-lhe o resto do sangue, sorve-lhe a ltima gota! Vai, agora s a dona
do homem, como s a rainha desta ilha! Vai; mas eu te juro, sanguessuga,
que te hei de perseguir mesmo depois da tua morte!

-- Ento, Magd! ento! disse o noivo, aparecendo por entre duas moitas
de crotons. H boas horas que te esperamos l em cima para a celebrao
das nossas npcias, e tu aqui a conversares com esta sujeita. Anda,
vamos, meu amor; estou farto de procurar-te!

Ele vinha vestido de veludo carmesim com botes de ouro, calo largo,
blusa apertada na cintura, donde lhe pendia uma espada cintilante de
pedraria; polainas pretas de couro envernizado; chapu cinzento de abas
largas com uma grande pluma branca que lhe ia at ao pescoo,
destacando-se do bano brilhante dos seus cabelos encaracolados, como
um a pena de gara entremetida na asa de um pssaro negro; capa escura
com forro cor de sangue e em volta do colo uma reluzente cadeia de
esmeraldas, safiras e rubis.

Deu-lhe o brao Magd; pousando a cabea sobre o ombro dele. E
puseram-se ambos a subir a montanha, salpicados pelo sol que se
peneirava por entre as folhas e chicoteados por um olhar ameaador de
Rosinha, que resmungava:

-- Vo, vo, mas que a cama de vocs dois se transforme num espinheiro
bravo!

XVII

Depois destes delrios, to complexos, que em parte foram sofridos
durante o sono e parte durante as letargias, agora mais repetidas e
prolongadas, Magd piorou consideravelmente. Ouviam-se-lhe j no meio
da conversa palavras de um sentido estranho, que ningum compreendia;
por exemplo: querendo certa vez dar idia de um grande estampido, disse:


                                                                        118
" Fez tamanho estrondo, que nem um rio quando se transforma em mar".
Os que a escutavam olharam-se entre si disfaradamente. Outra ocasio,
falando de um susto que apanhara, usou desta frase: "Assustei-me ainda
mais do que no dia em que o Fernando me foi visitar  ilha". E, como
estas, fugiam-lhe muitas referncias  sua vida fantstica; coisas que ela
dizia com a maior naturalidade, enchendo no obstante de lgrimas os
olhos do Conselheiro e provocando no Dr. Lobo um desesperanado
sacudir d'ombros. Este ltimo se mostrava mais que nunca empenhado no
tratamento da enferma, a ponto de descuidar-se da prpria casa de sade
-- a menina dos seus olhos. "Porm no era, dizia ele, a filha do amigo o
que tanto o prendia e interessava, mas simplesmente o caso patolgico.
Puro interesse de mdico".

Justina admirava-se de ver a sua ama to desvelada pela famlia do Luiz:
no se passava um s dia sem que Magd lhe fizesse vrias perguntas a
respeito dela, principalmente sobre a noiva do cavoqueiro, a rubicunda
Rosinha. Quando a criada lhe deu parte de que o casamento estava
definitivamente marcado para o seguinte ms, a senhora estremeceu e
encarou-a por tal modo, que a rapariga julgou v-la cair ali mesmo com
um ataque de convulses.

-- E, ento no ms que vem?... interrogou depois. do abalo.

-- Se Deus quiser, minh'ama. E as roupas da cama esto quase prontas,
que era s o que faltava. Ah! eu penso com o Luiz que a gente no deve
casar sem ter arranjado umas tantas coisas, como no  muito feio casar-
se uma pessoa sem enxoval, inda que seja um enxoval pobre, mas
contanto que cheire a novo!

Da em diante a filha do Conselheiro indagava quotidianamente da criada
"se o casamento era sempre no mesmo dia", como se contasse com
qualquer inesperado incidente que o transferisse ou desmanchasse de um
momento para outro. Todavia, a sua existncia quimrica dos sonhos
prosseguia com a mesma regularidade: Uma vez casada com o belo e
encantador prncipe, declarou ao pai que no se achava disposta a
abandonar a ilha, e pediu-lhe que a fosse visitar de quando em quando,
visto que ele agora tencionava ficar para sempre erradio sobre as guas do
mar. O Conselheiro retirou-se triste com os seus companheiros de viagem,
deixando aos desposados tudo o que de suprfluo havia a bordo e a Justina
para os servir. A vida ideal dos dois amantes tornou-se ento muito
humana, muito deliciosa e fcil. Comiam em baixelas de prata e em
porcelanas da ndia; bebiam em taas de cristal da Bomia; vestiam-se
confortavelmente de linho, veludo e seda; tinham leito macio e,  noite,
fechados no doce aconchego do lar, Magd cantava s vezes ao piano e de


                                                                       119
outras lia em voz alta, para entreter o marido, ou jogavam as cartas antes
do ch. Luiz em breve j no era o mesmo selvagem, graas  mulher, que
lhe dava lies de leitura, de escrita, de desenho e de msica, o que ele
aprendia tudo com um talento verdadeiramente sobrenatural.

E assim viveram felizes at ao dia em que a filha do Conselheiro percebeu
que ia ser me. Preparou-se o ninho e ela deu  luz sem a menor
dificuldade, nem o mais ligeiro vislumbre de dor: um parir silencioso e
tranqilo como o dos vegetais.

Era menino. Forte, moreno, de cabelos e olhos pretos; o mais
extraordinrio, porm,  que a criana no se parecia com o pai, nem com
a me; parecia-se com o Fernando. No o Fernando escaveirado e espetral
que lhe apareceu na ilha, mas o dos bons tempos de Botafogo; aquele belo
moo a quem ela tanto amara e tanto desejara possuir. O pequeno tinha a
mesma doura no olhar, o mesmo enternecimento no sorriso; eram as
mesmas feies e a mesma palidez aveludada e fresca. Magd
amamentava-o pensando no irmo.

-- Como havemos de cham-lo? perguntou Luiz.

-- Fernando! Est claro, respondeu ela.

E a partir da, Magd vivia nos seus sonhos exclusivamente para o filho.
Era feliz, muito feliz com essa nova dedicao o que absorvia todas as
outras; mas acordada, uma dolorosa tristeza pungia-lhe a alma  vista dos
seus mesquinhos seios, fanados e emurchecidos antes de tempo, como
fruta perdida que no chegou a sazonar. Vinham-lhe lgrimas aos olhos
quando comparava o seu magro corpo da vida real com a opulenta
carnao que na outra vida possua; chorava contemplando a pobreza das
suas espduas de tsica, considerando os seus quadris sem curvas, a
exiguidade dos seus braos, a misria das suas pernas de esqueleto;
chorava mirando no espelho o seu rosto de mmia, os seus lbios secos e
estalados; chorava observando de perto as suas mos transparentes e
trmulas.

E comeou ento a preferir o sonho  realidade; tomava-se de amares por
ele  proporo que se aborrecia desta Aquela dura repugnncia cheia de
dio, que sentia acordada contra o fiel companheiro dos seus delrios e
contra si prpria, no a experimentava absolutamente contra o filho; ao
contrrio: sempre que se lembrava deste entezinho fantstico, possua-se
de ternura, como se ele com efeito lhe houvera sado das entranhas. Agora
at era a primeira a provocar o sono ou a letargia. Muitas vezes, de
repente, tais saudades lhe acudiam do pequenino, que a infeliz chegava a


                                                                       120
tomar laudamo para dormir mais depressa e por mais tempo; e adormecia
sorrindo de contentamento e pedindo a Deus que lhe fizesse os sonhos
bem longos, interminveis; e acordava amaldioando a vida real,
contrariada e triste sem achar consolaes para a ausncia do seu filhinho
amado.

E este amor de me foi crescendo tanto e enfolhando to depressa, que o
Luiz afinal se resguardava perfeitamente  sombra dele. Magd, quando
acordada, j no o maldizia; j no sentia aquela negra averso, aquele
nojo, que lhe inspirava dantes o moo da pedreira. Oh! dava-se agora
justamente o oposto: quando, da janela do seu quarto, ela via o pobre
diabo passar l em baixo para o trabalho, ficava compungida e
acompanhava-o com um enternecido olhar de bondade; tinha at desejos
de o chamar e dizer-lhe: "Olha, Luiz, deixa aquele estpido servio da
pedreira; sobre ser muito bruto,  muito ingrato! Ali um homem est
sempre com a vida em perigo; a rocha  traidora! no confies na
submisso com que ela consente que lhe retalhem todos os dias o ventre;
l uma bela vez, quando menos o esperares, zanga-se, e ai de ti, meu
amigo, sers devorado! O cavoqueiro  como o domador de feras: acaba
sempre nas garras da que ele explora... Olha, queres saber? vem c para
casa; o que ai no falta so cmodos desocupados, e sobra sempre  mesa
bastante comida!" E, de bom grado, Magd pediria ao Conselheiro para
tomar ao seu servio o pobre rapaz; no porque ela o quisesse perto de si
-- nada disso! -- mas simplesmente para lhe fazer bem, para o tornar um
pouco menos desgraado. "E, como lhe querer mal?... como no o estimar,
coitado, se ele no fim de contas era o cmplice do seu crime e ao mesmo
tempo o da sua felicidade? Se no fosse Luiz, ela no possuiria um filho, e
o filho era para Magd a melhor coisa do mundo!

Sim, no seu esprito alucinado j no protestavam convenincias sociais,
nem tradies de costumes, nem hbitos de donzela; o seu pudor despira-
se; agora s o que lhe dominava o esprito, o que lhe enchia o corao, era
a idia do filho; era a mstica loucura desse amor visionrio por aquela
criana de olhos meigos, que estava sempre a cham-la de longe, l das
misteriosas margens da ilha encantada dos seus sonhos; era a saudade
dessa criaturinha ideal, que ela j no podia deixar de ver, no s todas as
noites durante o sono, mas a todo o instante, na deliciosa insnia dos seus
xtases.

O filho era a sombra de Fernando; ela vivia para esta sombra.




                                                                        121
XVIII

E entanto, na verdadeira casa de Luiz, na casinha do cortio, as coisas
corriam de modo muito diverso.

A  que havia sincero contentamento e legtima felicidade; aproximava-se
o dia do casrio do rapaz e, tanto a noiva como as duas velhas,
resplandeciam de jbilo. Falava-se desde pela manh at  noite no grande
assunto, e discutiam-se j os doces, o carname, o peixe frito e a vinhaa
da pagodeira.

Ah! que eles teriam uma festa para se ver, ningum o punha em dvida.
"Como no? Seriam os primeiros da famlia que se cassassem  capucha,
como a qualquer ovelha sem pastor! No! que para isso, graas a Deus,
ainda havia quatro vintns no fundo da arca!" E a velha Custdia, a tia
Zefa e a Rosinha saracoteavam pela estalagem, mesmo durante o servio,
a responder para a direita e para a esquerda; a falar com este, a dar trela
quele, sem sossegar um instante, a rir, a papaguear, e sempre com o
casamento na boca. Agora cantavam mais durante o trabalho, mas nem
por isso labutavam menos. A pequena, muito rolia e esfogueada pelo ferro
de engomar, mostrava a toda amiga que a visitava o seu vestido de
cambraia branca, o seu vu, a sua grinalda, o seu ramo de cravos
artificiais, como as suas camisas e as suas anguas novas em folha,
algumas at com renda Estava provida de tudo; ningum o podia negar!
"S vestidos de chita, dessa  moda, tinha cinco prontos e fazenda para
outros tantos; meias -- que fazia pena cal-las, de to lindas; e muita
pea de morim para lenis e roupa branca, e belas fronhas bordadas, e
mais uma colcha de l. -- Ah! Ah! -- verde e amarela, com as armas
imperiais no centro, que era uma grandeza!"

A Justina dava de vez em quando uma escapula at l e voltava
entusiasmada, falando pelos cotovelos. No dia em que se esperava a tal
cama prometida pelo padrinho do Luiz, ela no parou cinco minutos em
casa dos amos; to depressa a viam a, como no cortio.

-- J chegou? Pois ainda no veio? Oh, que demora! -- Quem sabe se o
homem no manda,... Ele  to agarrado!

-- No! H de vir! Ainda no deu meio-dia. Com poucas ela a est!

E havia no cortio uma grande impacincia pela chegada da cama. A cama
era o grande acontecimento do dia!

-- Vir.


                                                                        122
-- No vir?

Fizeram-se apostas na estalagem. Rosinha, de instante a instante, largava
o ferro e corria  porta, para dar uma vista d'olhos pela rua; de uma das
vezes voltou saltando, batendo palmas e a gritar como louca:

-- A vem ela! A vem ela!

E, com efeito, na esquina da rua surgiram seis negros descalos e em
mangas de camisa, a cantarem em voz alta, equilibrando na cabea uma
enorme cama do tempo antigo; bastante usada, mas polida de novo. Vinha
armada e trazia j o colcho, os lenis e um par de grandes travesseiros.

Era toda de jacarand com embutidos de madeira amarela, muito larga;
tinha forma de caixo, e o espelho de cabeceira media nunca menos de
dez palmos de altura. Dos quatro cantos erguiam-se colunas oitavadas, de
uns trs metros de comprimento, sustentando uma formidvel cpula de
feitio de um chapu do Chile, a que quadrassem as abas, forrada por
dentro e por fora de cetim azul j desbotado. No alto das colunas, e
sobressaindo dos ngulos do sobrecu, aprumavam-se dois pares de
respeitveis maanetas que pareciam quartinhas da Bahia.

Foi um sucesso em todo o quarteiro a chegada desta velha relquia dos
bons tempos: os vizinhos de Luiz assomaram  janela, atrados pelo
grosseiro canto dos africanos; o cortio inteiro agitou-se; as lavadeiras
abandonaram as tinas e os coradouros e vieram ruidosamente ao porto
da estalagem, com os braos nus, saias arrepolhadas no quadril,
mostrando pernas sem meias e grossos ps metidos em tamancos; a
pequenada descala acompanhava os carregadores numa grande
algazarra; o homem da venda acudiu em camisa de meia, o peito muito
cabeludo aparecendo; pretos e pretas, que andavam nas compras do
jantar, estacionaram em frente ao cortio com a cesta no brao; negras
minas pararam para olhar, monologando em voz alta, o tabuleiro na
cabea, e na mo um banquinho de pau; algumas traziam ainda um filho
escarranchado atrs, nos rins, e encueirado numa toalha, cujas pontas elas
amarravam na cintura. A velha Custdia apareceu, levando enfiada nos
dedos uma meia, que serzia; a tia Zefa e mais a Rosinha, essas no se
puderam conter, e foram logo ao encontro dos carregadores, gritando,
ralhando, afastando com berros a molecagem que no se arredava nem 
mo de Deus Padre; Luiz, l do alto da pedreira, onde estava trabalhando
a essas horas, mal compreendeu pelo movimento da rua que a sua cama
chegava, desgalgou o morro e precipitou-se de carreira para o cortio, nu
da cintura para cima, muito suado e coberto do p branco da pedra.



                                                                       123
Os carregadores chegaram por fim defronte do porto da estalagem,
pararam a um s tempo, e, depois, com uma certa manobra especial,
volveram para o lado da entrada, continuando sempre a cantar; seguiram
enfim, e os curiosos seguiram atrs deles. O cortio foi invadido por muita
gente e ento principiou a verdadeira balbrdia. Destacavam-se os gritos
do Luiz, da tia Zefa e da Rosinha.

-- Olha como a viras. estupor! Queres quebrar-lhe as maanetas?

-- Fora mais para a esquerda, com os diabos!

-- Arriba!

-- Vira!

-- Abaixa!

-- Olha a rvore!

Todos se metiam a ajudar, mas o demonho da cama no entrava, nem
mesmo pelos fundos da casa.

-- Tambm no sei p"ra que um espantalho deste

tamanho!

-- E o que tem voc com isso. Meta-se l com a sua vida!

-- Ali dormem seis casais  larga

-- Podia caber-lhe a famlia toda em riba!

-- Arrea!

-- Livra!

-- Torce!

J a gaiola de um papagaio, que havia na parede, tinha ido pelos ares,
levando o louro preso na corrente, a gritar como se o estivessem matando;
um pequeno, filho de uma lavadeira, berrava com um trompsio que
apanhara sem saber de quem. "Era bem feito, para no ser intrometido!" O
co da casa, junto com os da vizinhana, protestava energicamente contra
a invaso daquele monstro de jacarand que tudo revolucionava. Fazia-se



                                                                        124
um catatau infernal; todos aconselhavam; todos queriam mandar; todos
falavam ao mesmo tempo; mas, por melhor que gritassem: "Arrea! --
Torce! -- Levanta! -- Agasta! -- Agenta! -- Pra!" o monstro no passava
do quintal e, mesmo para chegar l, fora preciso arrancarem-se algumas
estacas da cerca que separava a casa do cortio.

Afinal, um marceneiro do bairro, quieto at a a presenciar a funo com
um superior e mudo desdm, disse, torcendo o cavaignac: "que se
quisessem, ele desmancharia aquela carangueijola e comprometia-se a
arm-la no quarto, tal qual como a entregassem". Surgiram logo mil
opinies; umas contra e outras a favor da proposta, e s depois de
calorosa discusso, em que o marceneiro no deu palavra, resolveram
desarmar o monstro.

-- Ora. que pena! lamentavam.

-- Que lstima no entrar armada!

A cama foi levada para o meio do quintal, e o homem do cavaignac, que
tinha feito vir j a sua ferramenta, meteu mos  obra, cercado de gente
por todos os lados. Rebentaram de novo, ao redor, os comentrios, as
chufas e os ditrios.

Luiz, ao lado da noiva, acotovela-a, sorrindo e piscando o olho para o lado
dos colches.

-- Ali em cima  que eu te quero pilhar!... considerou, dando-lhe uma
pontada no bojo do quadril.

Rosinha conteve o riso e resmungou, abaixando os olhos:

-- Este sem vergonha!...

No obstante, entre todos os curiosos que presenciavam a espetaculosa
chegada do leito nupcial do cavoqueiro, o mais impressionado no estava
ali, nem na rua, estava sim l defronte, na casa de S. Ex., espiando por
detrs das grades de uma das janelas do sobrado.

Era Magd.

Estranho abalo punha-lhe nos sentidos aquela escandalosa exibio de
cama em pleno ar livre. Vendo-a, como a viu, publicamente armada e
feita, patenteando sem o menor escrpulo o seu largo colcho para dois,
com travesseiros duplos, afigurava-se-lhe ter defronte dos olhos um altar


                                                                        125
que se trazia de longe, para a ementa e religiosa cerimonia do
desfloramento de uma virgem. Havia alguma coisa de pago e brbaro em
tudo aquilo; alguma coisa que a levava a pensar na paradisaca impudncia
dos seus sonhados amores; alguma coisa que a levava de rastros, puxada
pelos cabelos, para a vermelha sensualidade dos seus delrios.

A cama, apesar de recolhida ao cortio, no desapareceu para ela, que
continuou a v4a com a imaginao, j muito maior, fantasticamente
grande. Depois, viu surgir, deitado de barriga para o ar sobre o colcho, a
dormir, completamente nu, como nos primeiros dias da ilha, o Luiz -- esse
homem com quem afinal todo o seu ser se habituara, nem se com efeito
houvera passado com ele as melhores noites da sua vida.

Depois, viu surgir um pequenito ao lado do cavoqueiro; reconheceu o filho,
e notou, sobressaltada, que este chorava de susto. Procurou o que metia
medo  criana, e descobriu ento aos ps da cama, que atingira
propores colossais, trs mulheres: uma muito moa, outra de meia idade
e a terceira j bastante velha, e todas desesperadas por lhes no ser
possvel subir at onde estava Luiz. Magd observava isto do alto,
imaginando-se no interior da cpula do leito, cujo cetim azul a pouco e
pouco se estrelava, transformando-se em um cu, onde ela se mantinha
suspensa como se tivesse asas.

E notou que a mais moa das trs mulheres levantava aflitivamente para
ela o olhar afogado em lgrimas, pedindo-lhe por amor de Deus que lhe
restitusse o seu noivo.

-- Ele no serve para a senhora, exclamava a msera entre soluos;  um
pobre-diabo muito  toa; muito grosseiro, s serve mesmo para uma
rapariga de cortio como eu! Restitua-me o Luiz, senhora! No lhe tire
mais sangue! no o mate, no o mate, por tudo o que V. Ex. mais estima
na vida! Se lhe desagrada v-lo comigo, juro-lhe que nunca estarei com
ele; que no nos casaremos; prometo que iremos os dois cada um para
seu lado; prometo o que a senhora quiser; tudo, tudo! mas, por amor de
Deus, no o mate, no o mate, minha rica senhora!

Magd riu-se, e a rapariga, vendo que as suas splicas eram baldadas,
atirou-se ao cho, estrangulada pelo pranto. Ento a velhinha, ameaando
a filha do Conselheiro com o punho fechado, gritou colrica:

-- Malvada, pe j p'ra c o meu neto ou ruim praga te perseguir para
sempre! Larga o homem que no  teu! Entrega o seu a seu dono, ou que
Deus Nosso Senhor te rache a madre com o mal dos lzaros!



                                                                        126
E Luiz continuava a dormir. E Magd sorria, de m.

A outra mulher enxugou os olhos e pegou ento de falar, suplicante:

-- Senhora, minha senhora, tenha d de uma pobre me!... D c o meu
filho, d c o meu querido Luiz! Ah, se vosmec soubesse o que  ser me,
com certeza no mo negaria... D-mo, bem v que o reclamo de joelhos...
Se a sua questo  de beber sangue, aqui estou eu -- sou forte, muito
mais forte do que ele. .. repare para as minhas cores; veja como tenho as
carnes rijas e socadas; comprometo-me a deixar que vosmec me sugue
at  ltima gota; mas, por quem , poupe-me o rapaz, que o pobrezinho
j no pode mais aliment-la... est muito fraco, est quase com a pele
nos ossos!

Magd sorriu ainda e Luiz no acordou; o pequenito  que parecia agora
muito intimidado por aqueles clamores: calara-se de medo, e,
engatinhando, fora at s bordas do colcho, cuja superfcie se havia por
ltimo coberto de relva As mulheres, logo que deram com ele, comearam
a atirar-lhes pedras; estas, porm, no chegavam ao seu destino, porque a
cama, sempre a crescer, era j um grande morro plantado de bambs. E,
como os lados do leito se transformaram em declives de montanha, as trs
puseram-se a subir, chamando por Luiz e correndo em direo ao menino;
este abriu de novo a chorar, fugindo; e Magd, percebendo-o em risco,
precipitou-se do alto e foi cair ao seu lado, tratando logo de resguard-lo
com o corpo e gritando ao mesmo tempo pelo marido.

~ Mas o lugar em que ela agora se julgava j no era um descampado
relvoso; via-se dentro da sua casa fantstica na ilha ao lado do filho e do
marido; perfeitamente abrigada e defendida. L fora roncava uma
tempestade, estralejando no espao, entre uivos de feras assustadas.

-- Que barulho  este? -- perguntou Magd, abraando-se ao esposo,
muito trmula.

-- No tenhas medo, minha flor,  a tempestade.

-- E no ouviste vozes de gente, a gritar?

-- Qual! Era o vento que sibilava nos bambus.

-- No, no! Eu ouvi perfeitamente! Entendi tudo o que diziam!

-- Sonhavas, com certeza...




                                                                        127
-- Sim, Deus queira que tenhas razo, porque no podia ser mais horrvel
o que se passava...

-- Que foi ?

-- Sonhava, imagina tu, que ias casar com a Rosinha...

-- Mas como, se eu sou casado contigo?

-- E chegava a cama para o teu noivado, e depois a cama se transformava
numa montanha e a tua suposta famlia vinha disputar-te contra mim e
queria matar a pedradas o nosso filho.

-- Que loucura! respondeu o esposo com um riso de homem feliz.

-- Sim, foi loucura, foi um sonho que felizmente j passou, e vejo-te a meu
lado, fiel e amoroso como sempre. No  verdade que s a mim amas e ao
nosso filhinho? Fala, meu querido!

-- To verdade quanto  mentira o que sonhavas; mas dorme, sim? dorme
de novo, que precisas muito de repouso.

Magd adormeceu com a cabea no colo do marido imaginrio e acordou a
valer nos braos de Justina.

-- Como se sente, minh'ama?

-- Perfeitamente.

E acrescentou, depois de uma pausa: -- Aquece um pouco de leite para dar
ao Fernandinho, ouviste?

Justina olhou muito sria para a senhora e no se achou com nimo de
dizer nada.

-- Ora esta!... pensou. -- De que Fernandinho falar ela?...

E saiu do quarto benzendo-se toda.

O Conselheiro, a quem a rapariga foi logo comunicar o disparate da ama,
correu a ter com a filha; mas, durante as longas horas cm que
conversaram, no lhe apanhou uma s palavra que levasse a desconfiar da
sua razo. Magd, ao contrrio, parecia muito senhora das suas faculdades
e at menos nervosa que de costume.



                                                                        128
-- Com certeza era tolice da criada.



XIX

Assim chegou a vspera do casamento de Luiz com Rosinha. Haviam
escolhido um domingo e achava-se tudo quase pronto para o grande
regabofe: a casa foi esfregada por dentro e por fora com sabo e areia;
no ficou um tomo de p nas paredes, um sinal de escarro no assoalho,
nem uma teia de aranha no teto. Desde a porta da rua at  cozinha
recamou-se o cho de folhas de mangueira e trevo cheiroso, pregaram-se
arcos de verdura em todas as portas; pediram-se cadeiras, louas, copos e
talheres emprestados a amigos para que nada faltasse na ocasio do
banquete; mandaram-se vir dois garrafes, um de vinho e outro de parati,
o tacho de acar no saiu do fogo e encheram-se compoteiras e tigelas de
doce de coco, de ara, de leite, de ovos, de goiaba, marmelo, bananas,
sem contar com bolos e pudins -- uma orgia de acar! O forno do
padeiro, que lhes fornecia o po, prestou-se a assar um peru, um quarto
de carneiro, um leito e um grande alguidar de arroz, guarnecido de
azeitonas e rodelas de lingia. Trabalhou-se at  meia-noite em preparar
o aposento dos noivos. A formidvel cama l estava, atravancando tudo;
houve grandes discusses na ocasio de coloc-la porque aqueles no
queriam, por coisa nenhuma desta vida, ficar com os ps para o lado da
rua, "que era de mau agouro!" Resolveu-se a dificuldade condenando a
porta da alcova e estabelecendo passagem por uma janela aberta sobre a
salinha de jantar. Era um pouco maante ter de entrar e sair do quarto aos
pulos, l isso era; mas, antes assim do que ficar com os ps para a rua.
"Deus te livre!"

A cama estava imponente: descia-lhe da cpula um enorme cortinado de
labirinto, que a av do Luiz, em quando moa, recebera como presente de
uma senhora. do Porto, a cujo filho amamentara antes de vir para o Brasil;
arrepanhavam-no pelas extremidades,  base das quatro colunas, grandes
ramos de flores naturais, donde pendiam laos de cetim azul, baratinho,
mas muito vistoso. Por cima da famosa colcha auri-verde com armas
brasileiras figurava uma cerimoniosa cobertura de rendas, sobre a qual se
desfolharam rosas e bogaris; e l no alto, por fora do sobrecu,
esparralhado contra o teto, um imenso feixe de tinhores e crotons.

-- Que lindo! diziam comovidos.

Ao lado da cama. A que no se podia subir sem o auxlio de uma cadeira,
estendeu-se um tapete j surrado, mas onde se distinguia ainda o desenho


                                                                       129
de um leo em repouso; a um canto do quarto uma retrete com braos, e
de outro uma pequena mesa de pinho, coberta de chita at aos ps, tendo
em cima uma lamparina de azeite e um econmico oratrio de madeira
pintada, com uma Virgem que desaparecia engolida no seu
desproporcionado resplendor de prata. No se podia ir de uma  outra
banda do aposento sem galgar por cima do leito.

O casrio fez-se no dia marcado, s dez da manh, numa igreja do
Andarai-Grande. Que pagode -- Os noivos foram e voltaram a bonde,
seguidos por uma dzia de convidados de ambos os sexos e mais os
padrinhos e as madrinhas; todos em gala de domingo. Muita roupa de cor,
muita gua flrida, muita jia macia e tosca, e muita pilhria de tirar
couro e cabelo. O tempo ajudava; fazia um belo sol de inverno, alegre e
comunicativo. Rosinha, baixota, bem socada, parecia mais vermelha no
seu vestido de cassa branca, e o enorme vu de cambraia pouco
transparente e dura que a envolvia da cabea aos ps, dava-lhe um feitio
piramidal de po de acar. Ia muito encalistrada sob a vista curiosa dos
passageiros estranhos  festa; no ergueu os olhos durante toda a viagem
e as mos suavam4he com o grande ramo simblico, cuja haste ela
mantinha sobre o peito, como quem segura o cabo de um estandarte. O
Luiz,  sua esquerda, mostrava-se, ao contrrio, muito senhor de si e
quase petulante de ventura; vestia cala e palet de pano preto, novo em
folha; nada de colete; tinha grandes sapatos de bezerro, engraxados,
chapu de lebre e gravata branca de cetim com um alfinete de ouro
atravessando o lao. O casaco fechava-se-lhe sobre o estmago, deixando
ver um peito de camisa, que era a ltima expresso da arte de reduzir o
pano  madeira por meio do polvilho e do ferro de engomar; de to duro e
violento, rompia por entre as golas da roupa e abaulava-se arrogante
numa s curva de alto a baixo; trs botezinhos de osso tingido de
vermelho desfrutavam a suprema honra de guarnecer esta preciosidade.
Levava dobrado ao pescoo, para resguardar o colarinho do suor, um leno
usado pela primeira vez, e no bolso do leno trazia o relgio, com o
trancelim bem  mostra por cima do peito. E todo ele rescendia ao leo e 
brilhantina do barbeiro.

Quando, ultimada a cerimnia religiosa, tornaram para casa, com a idia
no resistente almoo preparado. foram  porta da rua surpreendidos por
um oficleide, um piston, um clarinete e um sax, que os perseguiam desd'a
at  sala de jantar, tocando furiosamente; era uma ovao feita ao
recm-casado pelos seus companheiros de trabalho, que l se achavam
todos, mais ou menos endomingados. A refeio correu de princpio ao fim
muito alegre e animada; no havia cerimnia; era comer e beber 
vontade; fizeram-se os brindes do estilo e trocaram-se entre risadas as
clssicas chalaas, com que essa boa gentinha dos cortios costuma frizar


                                                                       130
brejeiramente a vexada felicidade dos noivos. Rosinha teve de repetir, por
vrias vezes a frase de repreenso: "Este sem vergonha!..." Depois da
mesa engendrou-se um forrobod e foi danar pr'a at o diabo dizer
basta!

Um pagodo! S uma coisa contrariava ao cavoqueiro: era ver entre
aquelas moas, todas elas gente direita, a peste de uma bruaca que
morava l perto, uma tal D. Helena Guimares, a quem a velha Custdia
se lembrara de convidar.

-- Ora pistolas!

-- Mas que mal te fez a pobre de Cristo? - perguntou-lhe a av.

-- No sei! E' mulher de m vida!

-- , no senhor, foi! Hoje no tem o que se lhe diga...

-- Porque est canho! ningum a quer para nada! Aparecesse um tolo... e
veramos!

-- Coitada!

-- Um estupor, que parece estar metendo pela cara dos outros aquele
vestido de seda mais velho que a S! Um raio de uma biraia toda cheia de
no me toques, com uma cara de que tudo lhe fede, e a abanar-se como
no teatro! M peste a lamba!

-- So maneiras, filho!

-- Maneiras! Eu dava-lhas, mas havia de ser com um bom marmelo!
Demnio de um calhamao, que tisna as farripas e pinta os olhos para
parecer bonita? Uma lata toda rebocada, que at faz nojo!

E escarrou de esguelha. -- No! Com certeza seria melhor que ela c no
estivesse!

E tinha razo. Ali, no meio daquela spera gente do trabalho, gente de
honestidade feroz, entre a qual o adultrio do homem  to severamente
punido como o da esposa, a figura da tal I)~. Helena Guimares
destacava-se mais do que uma ndoa de lama no meio de uma camisa de
algodo lavado. Na roda das prostitutas, seria um ornamento alegre, uma
nota cmica -- faria rir; mas ali servia apenas para constranger aos que
queriam folgar em liberdade. Felizmente, porm, o estupor, mal acabou de


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jantar, ergueu-se e retirou-se logo, confessando-se indisposta. Sem dvida
foi para casa vomitar as tripas, que estmagos daqueles j no resistem 
forte comida dos que se levantam antes do sol e trabalham doze horas por
dia.

Pela volta das nove da noite surgiram como por encanto as violas e as
guitarras, e o pagode tomou novo carter. Pegou-se ento de cantar o
Fado Corrido, o Malho, a Caninha Verde e a Espadelada. Comeava a
verdadeira festa.

Justina, que era louca pelo Fado, tratou de esgueirar-se, fugindo 
tentao.

-- Ento j te raspas ? perguntou-lhe a irm.

-- Minh'ama est s... respondeu num tom misterioso e apressado.

-- Mas ainda  cedo... dana ao menos uma roda e vai-te ao depois.

-- No, no! A pobrezinha est muito ruim! No imaginas, est como
nunca; at parece que j no regula bem!...

A outra fez um espanto e quis informaes.

No sei, filha, molstias de famlia. O doutor disse outro dia que a me
tambm acabara mal.

-- E ela ainda pergunta por ns ?

-- Sempre. Inda hoje me perguntou pelo Luiz...

-- Coitada!

-- Mas adeus, adeus, que j l esto gritando por teu nome! Vai, filha, vai!
Se me bispa o Manl das Iscas no me desgarra to cedo!

Ao sair, na carreira que a Justina levava para atravessar a rua, um
capadcio, tresandando a cachaa e cambaleando, deu-lhe uma atracao.
A rapariga desviou o corpo e soltou-lhe tal punhada pelas ventas, que o
borracho rodou sobre os calcanhares e zs -- por terra! Ela seguiu adiante.

-- Diabo dos vagabundos! resmungou; mas, ao transpor o porto da
chcara do Conselheiro, ria-se com a idia do trambolho que pregara ao
tipo. -- Bem feito!  para no se fazer de tolo c p'ra meu lado!



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Encontrou a senhora ainda acordada, a cismar, estendida no div da
alcova.

-- Ento, que tal correu a festa! perguntou Magd com um bocejo.

A criada deu conta de tudo; descreveu o lindo que estava a casa; o rico
que foi o banquete; o muito que se danou durante o dia; a gente que l
se achava, nomeando um por um todos os convidados.

-- Ah, minh'ama, vosmec no faz idia! No me fica bem a mim falar,
mas esteve que se podia ver! Nada faltou! At sorvetes, creia!

E passou aos pormenores: citou os pratos que se exibiram, as garrafas que
se enxugaram. "Uma coisa era ver e outra dizer!"

-- E o quarto?... acrescentou com interrogao de assombro, o quarto dos
noivos?! Ah, que lindo! Todo forradinho de novo, com um papel azul de
ramagens brancas. Metia gosto! E a cama? S lenis de linho -- quatro! e
mais trs de algodo; no contando as colchas!

-- Sete lenis?

E, porque a ama fizesse um certo ar de estranheza: -- Para no manchar o
colcho, como no?

-- Ah .... fez Magd, caindo em si.

-- E o colcho  novo em folha! O homem saiu-se!

-- Que homem?

-- O padrinho do Luiz, o Antnio Pechincho! Pois quem foi que lhe deu a
cama?

-- Sim, sim.

-- E' um traste que mete respeito. Aquilo deita a netos!

E, vendo que a senhora mostrava interesse, continuou a dar  lngua,
particularizando os episdios mais insignificantes da funo, repetindo as
partidas que se deram, narrando pilhrias, contando os namoros, os
cimes, e afinal! -- Ai! a Caninha Verde! "Que pena no poder ficar para
ver!" Depois, sem se conter e rindo envergonhada, confessou a festa que
lhe fez o Manuel das Iscas. "Pois o demnio do homem no lhe tocou em



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casar?... Ora que asneira!... uma viva me de trs filhos pode l pesar
nisso!..." E por ai foi. no calor do entusiasmo, derretendo em palavras o
seu bom humor condimentado com os brindes desse dia.

Magd escutava-a. imvel, sem lhe opor uma palavra; agora assentada; o
queixo enterrado entre as mos, os cotovelos fincados sobre as coxas
magras. L fora, na casa. dos noivos, continuavam a cantar ao desafio, ao
som plangente das guitarras; e aquela msica simples e melanclica,
dissolvida num lamento harmonioso e continuo, ora chorado por voz de
homem, ora soluado por voz de mulher, chegava aos ouvidos dela,
embebida em deliciosas mgoas de amor. Roa como uma saudade; gemia
mais triste que a derradeira esperana quando abre as asas e desfere o
vo, para nunca mais voltar.

-- Olhe, minh'ama! exclamou de sbito Justina.

--  ele que. est cantando agora! E' o Luiz!

Magd ergueu-se com um sobressalto e correu  janela. Era, com efeito, a
voz do seu companheiro da outra vida:

"Tu a amar-me e eu a amar-te,
No sei qual ser mais firme!
Eu como sol a buscar-te;
Tu como sombra a fugir-me!"

E um coro de vozes abafadas respondia:

"Verde no mar
Anda  roda do vapor.
Ainda est para nascer
Quem h de ser
o meu amor."

E os olhos de Magd orvalharam-se de ternura, e o seu corao
enlangueceu dolente, como se aquela voz, to meiga e to sentida, a
estivesse chamando l da misteriosa ilha dos seus amores.

-- Escute, escute, minh'ama! Agora  a Rosinha!

"Se fores domingo  missa,

Fica em lugar que eu te veja,




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No faas andar meus olhos

Em leilo por toda a igreja!"

E vinha logo o lamentoso estribilho, cujas ltimas notas se prolongavam
surdamente e morriam de leve, como oraes feitas no alto mar em noites
de tempestade.

Magd estava num enlevo. Depois de Rosinha Luiz cantou de novo, e
outros e outros os sucederam, e desafio foi se prolongando, e o tempo
correndo, at que veio a madrugada surpreend-la ainda esquecida 
janela, na esperana de reconhecer entre aquelas vozes, e ouvi-la inda
uma vez, a voz do seu fantstico amante.

-- Ele no canta mais?... perguntou, afinal,  criada.

Justina sacudiu os ombros e disse entre dois bocejos que "era natural que
o rapaz j se tivesse ido aninhar junto com a noiva".

-- Ah!

-- Tambm so horas e vosmec devia fazer outro tanto...

-- Outro tanto, como?...

-- Devia deitar-se; descansar o corpo. So mais que horas?

-- Que horas so?

-- Caminha pr'as quatro.

-- J? Creio que eles no cantam mais...

-- No, minha senhora, acabou-se o pagode. Vosmec quer que eu a
adormea no meu colo?

-- No. Voc est caindo de sono.

--  que hoje lidei tanto...

-- Pois recolha-se.

-- E minh'ama, no se deita?




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-- Sim; j vou. Durma...

-- Vosmec sente alguma coisa ?

-- No; suponho que no...

-- Ento, faa-me a vontade, sim? recolha-se tambm; agasalhe-se,
minh'ama.

E Justina foi fechar a janela e conseguiu obrigar a senhora a ir para a
cama.

Mas a filha do Conselheiro no podia dormir; sentia-se inquieta,
sobressaltada, cheia de estranha e dolorosa impacincia; uma impacincia
sem objetivo; um desejar vago, sem contornos; um querer, fosse o que
fosse, que ela no lograva determinar lucidamente, por melhores esforos
que fizesse. Deram cinco horas; seis. Magd ergueu-se de novo, frentica,
atordoada, enfiou o sobretudo de l, agasalhou a cabea e o pescoo num
xale de seda e ps-se a passear no quarto. Agora o que mais lhe apertava
o corao era uma enorme saudade do filho; precisava v-lo, abra-lo,
devor-lo de beijos.

-- Oh! que falta lhe fazia o sonho!... disse ela, torcendo-se de ansiedade.

Foi ter  janela da saleta contgua  sua alcova e ficou a olhar
abstratamente l para fora. O dia acordava, estremunhado, remancho,
preguioso, sem nimo de abrir de todo as plpebras sonolentas, espiando
por entre as cambraias da neblina: no havia linhas de horizonte, no
havia contornos definidos; era tudo uma acumulao de nvoas, onde mal
se pressentiam apagadas sombras. Nem viva alma se destacava; nem um
s trabalhador passava para o servio; a pedreira transparecia apenas,
como se estivesse mergulhada dentro de uma grande opala derretida. E,
aos olhos de Magd, tudo aquilo principiou de afigurar uma natureza em
embrio, um mundo ainda informe, em estado gasoso; alguma coisa que j
existia e que ainda no vivia: um ovo ainda no galado por Deus.

Mas, da a pouco, no fundo desse caos opaco, no mago daquela albumina,
a montanha comeou a bulir, a mexer-se como um corpo em gestao, e
depois a agitar-se como um feto que quer nascer.

A infeliz delirava l.

E ela distinguiu que o imenso feto, sequioso de vida, espedaava a crislida
e, erguendo a cabea, sacudia c fora,  luz do dia, a treva dos seus


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cabelos; e nessa cabea, Magd enxergava olhos que eram ternos e
humanos, e lbios que sorriam de amor. E viu em seguida o gigante erguer
os braos e romper as nuvens de alto a baixo, e ps-se de p, altivo e
risonho, tocando com a fronte nas estrelas que a cingiam e constelavam de
rgio diadema.

E reconheceu logo o seu amante.

-- Oh, enfim! exclamou num brado de contentamento, estendendo-lhe os
braos e pedindo-lhe entre lgrimas de gozo, que sem demora a
arrebatasse l para a outra vida ideal da fantasia. Nessa ocasio, porem,
outro gigante inda maior assomara para alm das bandas do oriente, e
este agora vinha formidvel e terrvel, armado da cabea aos ps,
irradiando fogo; e, s com o dardejar e reluzir do seu escudo, desmaiavam
no cu as densas tmidas e palpitantes, fugia a lua assustada, e a terra
tremia toda como a noiva na primeira noite das bodas.

Ento Magd viu entristecida a ciclpica figura do seu amado abalar-se e
estremecer tambm, depois ir empalidecendo, at volver-se de novo
montanha, agora resfraldada de gazes cor de prola, que se rasgavam e
desteciam aos raios do sol nascente; enquanto ao redor surgiam aqui e
acol pontas de igrejas e ngulos de chalets esmaltados pela aurora, e
repontavam grupos de rvores e saiam no cho manchas verdes que logo
se transformavam em hortas e jardins, e alvejavam curvas tortuosas que
se desfaziam em ruas e caminhos, e pontos negros que eram carro5es de
lixo, e outros menores e ligeiros que eram carrocinhas de po; e pareciam
vacas a tilintar o chocalho  porta das chcaras; e homens de jaqueto 
balega e chapu desabado apregoando perus, frutas ou garrafas vazias; e
lavadeiras com imensas trouxas de roupa na cabea; e pretas e pretos
carregando altos tabuleiros de verdura ou de carne fresca. E ouviam-se
vozes de gente, choro e riso de crianas. latir de ces, cantar de galos,
rodar de seges; um esfalfado zunzum de mundo gasto e enfermo, que
acorda contra a vontade, inalteravelmente, como na vspera, para vegetar
mais um dia de tdio,  espera da morte.

E Magd afastou-se da janela e fechou-a com mpeto, cheia de horror e
cheia de nojo pelo mundo.

-- Oh, que misria! Oh, que misria, meu Deus!

E cerrou os olhos para no ver nada, e tapou os ouvidos para nada ouvir;
mas, apesar disso, sentia, nauseada, que ali estava a sua alcova de
doente, o seu leito impregnado de molstia. a mesinha de cabeceira
coberta de abominveis frascos de remdio; a enfermeira, a Justina,


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ressonando a um canto, sobre um colcho, de papo para o ar, a boca
aberta, o peito almofadado, meio  mostra, e uma perna, brutalmente
gorda, aparecendo estirada por entre os lenis.

E isto era a vida! -- Que horror! que horror! -- Que abjeo! -- Que
porcaria!

E Magd saiu do quarto para no espancar com os ps a criada, para no
esbofetear a sua prpria sombra; furtando-se daquilo, tudo desorientada,
inconsolvel, com nsias de desertar do mundo, de fugir de si mesma, do
seu prprio corpo, da sua prpria alma. E, no entanto -- as saudades do
filho a crescerem, a crescerem-lhe por dentro, cada vez mais, alastrando
como hera florida e viosa por entre runas.

E nada de chegar o sonho ou o delrio! -- Que desespero!

Oh, mas precisava ver o filho no mesmo instante, readquiri-lo; matar
aquele desensofrido desejo que a devorava com exigncia de um vcio
profundo, adquirido na primeira idade; precisava refugiar-se nele -- no seu
Fernando -- no seu amado, que era todo casto, amoroso e lindo, que era
todo ideal e puro, e nada tinha deste mundo e com esta vida, estpidos
ambos, e ambos dessorados por enfermidades e por paixes de toda a
casta, infames, monstruosas e mesquinhas!

Correu  mesa dos medicamentos, rebuscou entre os vidros o de ludano,
apoderou-se dele com avidez e tomou uma grande dose.

No fim de algum tempo, viu, porm, que nem assim lhe acudia o sono ou a
letargia. -- Que suplcio! -- Apenas ficava estonteada, presa de tnue
vertigem, que de quando em quando lhe apagava a luz dos olhos. Entrou
no mesmo estado pelo dia alto, muito abstrata, andando por toda a casa
como uma sonmbula. Ao lanche das duas horas da tarde, o pai quis det-
la no seu lado e obrig-la a conversar; ela escapou-lhe por entre os dedos
e fugiu em silncio para o andar superior, olhando a espaos para trs,
desconfiada.

Agora, neste momento, no sentia nada, absolutamente nada, que a
incomodasse; nem enxaquecas, nem dores na espinha, nem dormncia
nas pernas; j no a perseguiam o gosto de sangue e o cheiro de
magnlia; via-se leve, como se estivesse oca, vaporosa, aeriforme; sentia-
se capaz de voar e de manter-se sobre uma pluma sem a abater. E dava-
se ainda um outro fenmeno bem curioso: a vida real parecia-lhe agora o
sonho, e o sonho afigurava-se-lhe a vida real; os fatos verdadeiros
embaralhavam-se-lhe na mente, confundiam-se uns com os outros,


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fragmentavam-se, difundiam-se, escapavam; ao passo que os mais
insignificantes pormenores da sua vida fantstica lhe permaneciam inteiros
no esprito, claros e seguros  memria, como os cantos de um poema
decorado na infncia.

Queria lembrar-se do que, acordada, fizera na vspera; do que fizera havia
poucos instantes, e no conseguia rememorar coisa alguma; enquanto que
ainda lhe cantavam no ouvido, bem lcidas e sonoras, as mais remotas
palavras de Luiz, e ainda sentia nos lbios a impresso dos ltimos beijos
de seu filho. Recordava-se de toda a sua existncia fictcia, instante por
instante; poderia narr-la inteira, seguida; descrev-la de princpio a fim,
sem lhe esquecer um episdio; e, no entanto, estranhava a sala em que
estava, sem poder determinar que casa era aquela e donde tinham vindo
aqueles objetos que a cercavam.

Volvia surpreendida os olhos em torno de si, alheia ao lugar; nada, de
quanto a sua vista lobrigava, lhe trazia  razo a sombra mais sutil de uma
reminiscncia. Afinal, deu com um dos grandes espelhos que havia
erguidos sobre os consolos, e mirou-se, deixando escapar uma longa
exclamao de pasmo.

Desconhecera-se.

Aproximou-se mais da sua lvida e descarnada imagem, profundamente
abismada de se ver to feia. Virou-se de um para outro lado e voltou-se
para trs, procurando quem era aquela mmia, aquela horrorosa criatura
que se refletia l no espelho.

-- No! no! murmurou, sem se alterar e at sorrindo. -- A que aparece l
no sou eu.  impossvel

E sacudia com a cabea, punha a lngua de fora, arregalava os olhos. O
vidro reproduzia tudo.

-- Mas no, no  possvel que seja eu, insistia a desgraada, fugindo da
sua sombra e gritando, a correr pela sala: -- Eu tenho sangue nos lbios,
brilho nos olhos, frescura na pele! meus peitos so carnudos e suculentos
como duas mangas picadas por passarinho! meu corpo  todo cheio e
torneado como o da novilha que foi coberta e ainda no pariu! Eu sou a
mais formosa entre as mulheres da terra, por isso meu amado me
escolheu entre todas! Quando eu vou ter com ele, ando depressa,
sacudindo as saias, e a barra do meu vestido rescende que nem a baunilha
e a trevo-cheiroso



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Justina acudiu aos lascivos gritos da senhora. O Conselheiro no foi logo,
porque nessa ocasio fazia a sesta no div do seu gabinete.

-- Ento que  isso, minh'ama?...

-- No! no! aquela que ali estava no era eu!... Bem sei que isto no
passa de uma extravagncia de sonho!...

--  porque vosmec est muito fraca... Quer que lhe v buscar o
caldinho?....

Magd no respondeu; olhava fixamente para as suas mos angulosas e
desfeadas. Depois, com uma careta de repugnncia, tenteou-se toda e
ficou a tomar nos dedos a magreza das suas coxas.

Mas riu-se logo, repetindo, a apalpar-se:

-- Que sonho extravagante! Que sonho engraado!

E ia de novo ao espelho e apontava para a sua figura, e ria--se a bandeiras
despregadas, como bria.

-- Que sonho! Que sonho!

-- Ento, minh'ama, posso ir buscar-lhe o caldinho?..

Magd ps-se muito sria e correu para junto da criada, como se s ento
tivesse dado pela sua presena.

-- Heim? Que ?

-- Pergunto se vosmec quer tomar o seu caldo?...

-- Que caldo?

-- Ora essa O seu caldinho das trs horas.

-- Trs horas!

-- Da tarde, minh'ama. Eu lho trago j.

E Justina saiu, resmungando: -- Coitada! Inda ontem to senhora de si e
j hoje d para no dizer coisa com coisa!... Mas isto h de passar, 




                                                                        140
fraqueza talvez!...    ela,   coitadinha,   ainda   no   meteu    nada   p'ra    o
estmago!...

Da a um instante voltava  sala.

-- Prove, minh'ama, para ver como est seu apetite!

E esfriava o caldo com a colher, soprando-lhe em Magd sorvia
automaticamente as colheradas que levava  boca.

-- Voc onde estava?... perguntou a senhora.

-- Na cozinha. Porque, minha'ama?

-- E ontem,  noite?

-- No casamento de minha mana...

-- Sua mana?...

-- A Rosinha, como no?

-- Com quem ela casou?

--  boa! Com o Luiz! Pois minh'ama j se no lembra...

-- Luiz? Quem  o Luiz?...

-- Olhe agora! E' o filho da tia Zefa, o moo ali da pedreira...

-- Ah!... Um de corpo nu, com a cara molhada de suor...

-- Que trouxe vosmec ao colo, quando minh'ama subiu ao morro...
Minh'ama conhece-o, como no?

Justina dizia estas coisas com a pacincia de quem conversa com um
alienado de estimao; e a outra olhava para ela sem pestanejar,
interrompendo a sua imobilidade apenas para sorver as colheradas de
caldo.

-- Um descalo, prosseguiu Magd; um que tem cabelos no peito; a carne
rija como pedra; branca de marfim; a boca cheirando a murta!... Conheo!
oh, se conheo!... Pois, se lhe quero tanto bem!... E por onde anda agora
esse ingrato...



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-- Est em casa, minh'ama... Ele hoje no foi ao servio, porque se casou,
mas...

-- Ah! Ele casou-se...? Que homem!

-- Casou-se ontem, sim senhora, mas amanh est fino para o trabalho!

-- Ah! Ele amanh no fica na cama!...

-- No fica, no senhora.

-- Casou-se! Pois diga-lhe que venha aqui com a noiva; quero dar-lhes um
presente, um bom presente de npcias. Traga-os, no se esquea; ouviu?

-- Sim senhora. E quando?

-- Quando quiserem vir.

-- E a que horas, minh'ama?

-- A qualquer hora, contanto que venham.

Nisto entrou o Conselheiro, e> a um sinal trocado secretamente com a
criada, esta lhe respondeu em voz baixa:

-- Agora... depois do caldo, est melhorzinha, sim senhor.

-- Era debilidade... pensou o velho e, aproximando-se da filha, perguntou,
tomando-lhe as mos:

-- A minha flor como se sente agora?... J est mais disposta a conversar
com o seu papai?...

Ela olhou para ele, estendeu-lhe o rosto e recebeu sorrindo um beijo na
testa.

-- Vamos dar uma volta pela chcara... props o pobre homem, tomando-a
pela cintura e amparando-lhe o corpo sobre seu peito.

Magd deixou-se levar, sem dizer palavra e, enquanto andou l por baixo,
esteve sempre muito entretida, ligando grande interesse a tudo que
encontrava, nem como se houvesse recuperado a vista naquele momento,
depois de uma cegueira de nascena. Correu tudo, revistou todo o jardim e
todo o poro da casa; e cada objeto, que seus olhos topavam, a no serem



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os produtos puramente da natureza, despertava-lhe espantos de criana:
um regador de folha, pintado de encarnado, causou-lhe enorme
curiosidade: deteve-se alguns minutos a contempl-lo, muito admirada,
sem conseguir compreender o que era aquilo; um chapu velho, de copa
alta, atirado ao cho, fez-lhe medo; parecia-lhe um bicho. O Conselheiro
viu-se martirizado por um no acabar de perguntas verdadeiramente
infantis, a que ele respondia com pacincia de santo.

Quando, j ao dobrar da tarde, Justina a recolheu  alcova, ela assentou-
se na cama e deu para fitar o seu crucifixo, indiferentando-se a tudo mais.

Era a letargia que enfim chegou.

Desta Vez a imagem no cresceu, conservou-se do mesmo tamanho,
apenas se despregou da cruz e ficou, posto que suspensa, na posio de
quem se espreguia. O papel da parede foi a pouco e pouco se
convertendo em um fundo de verdura esbranquiada, cujos planos iam
lentamente se formando e acentuando com as precisas gradaes dos
tons3 entretanto, o Cristo continuava sempre do mesmo tamanho, num
desses planos, como por um efeito de perspectiva.. Afinal, destacaram-se
rvores, plantas, uma paisagem inteira e o Cristozinho, deixou de
espreguiar-se e pegou de andar por entre a mata, com a tranqilidade de
quem passeia nos seus quintais.

S ento foi que Magd percebeu que estava observando tudo isto de uma
janela e apressou-se a olhar em torno de si.

Ah! exclamou, reconhecendo a sua adorada habitao da ilha. -- Enfim
Ora, graas a Deus!

L estavam os seus objetos de arte, a sua mesa, o seu piano.

-- Ah! agora sim.. era outra coisa!... prosseguia, considerando o prprio
corpo, afagando-o por v-lo novamente belo e forte; mas, tocada por uma
idia que a fez estremecer, correu ligeira ao fundo do quarto, onde havia
um bero.

-- Ah! ah! C est ele! C est o meu ladrozinho!

Fernando dormia; Magd tomou-o nos braos, ergueu-se no ar o seu lindo
corpinho nu e, vendo que ele agitava as pernas, rabujando zangado,
chamou-o para os lbios e devorou-o de beijos.

O manhoso, assim que se pilhou no colo, ps-se a rir.


                                                                        143
-- Coitadinho... balbuciou ela, rindo tambm, com as lgrimas nos olhos.

E levou-o para a janela. O pequenino, logo que deu com o Cristo que
continuava a passear por entre as rvores, gritou sacudindo os seus
bracinhos feitos de roscas gordas.

-- Pap! Pap!

E, ao que parece, o Cristo lhe ouviu a voz, porque veio ento se
aproximando, aproximando, fazendo-se homem, at chegar  janela.

No era mais o Cristo; era o moo da pedreira.

XX

Passou a noite toda inteira na ilha, muito sossegada, muito feliz ao lado do
marido. L no havia sobressaltos nervosos, nem infundados temores, nem
sbitos esquecimentos do que se fizera pouco antes; l a vida era boa,
corredia, larga e tranqila. Como de costume, fizera o seu bocado de
msica, leram, jogaram e conversaram: ela contou-lhe, rindo e
chasqueando, os seus ltimos sonhos -- o casamento dele com Rosinha --
o desafio  guitarra. Cantou:

"Tu a amar-me e ou a amar-te,

No sei qual ser mais firme!

Eu como sol a buscar-te;

Tu como sombra a fugir-me."

-- Parece que ainda estou te ouvindo, meu amigo.

-- Sonhadora!

-- Ah, mas via-me to magra, to escaveirada, to amarela, que metia
pena!

Ele achava graa, ria.

-- Magra, tu! que tens este corpo!...

E apertava-lhe a polpa do brao com os seus dedos vigorosos.




                                                                        144
-- Mas no imaginas, meu querido, a m impresso que me fazia o
demnio do sonho; era tudo como se fosse verdade: eu sentia e via como
te estou vendo aqui!

-- Estavas ento muito feia...?

-- Horrorosa! Se aquilo no passasse de pura iluso -- matava-me!
acredita que me matava!

-- Que vaidade, Magd!

-- Ora, no fim de contas sou mulher; alm disso, prezo menos por mim a
minha beleza do que por tua causa...

O rapaz agradeceu com uma carcia. E os dois continuaram a palestrar.
Vieram  baila as saudades que Magd sentira do filho e os seus tormentos
por julgar-se longe dele.

-- Estava como louca, disse a visionria; lembra-me bem de que, numa
ocasio em que me fazia a passear pelo brao de meu pai na chcara da
Tijuca, vi um regador de folha pintado de encarnado; pois queres acreditar
que eu no podia atinar com o que aquilo era?...

-- Tem graa!

-- O que mais me admira, porm, de tudo isto,  que eu sonhe com todas
as pessoas da minha convivncia: contigo, com papai, com a nossa criada
Justina, com a famlia desta, e jamais com meu filho... Nunca sonhei com
ele!

-- Como no, se no pensas noutra coisa enquanto dormes? Pelo menos
assim acabas de o afirmar...

-- Sim, mas nunca o vejo a meu lado...

-- Vem a dar na mesma.

E assim cavaqueando, foram at  hora do ch, s dez, depois da qual,
Magd deu de mamar ao seu bebe. Em seguida lavou-se, tomou a sua
roupa de alcova e afinal recolheu-se  cama com o marido, muito
prosaicamente, a cantarolar um estribilho banal, feliz na convico de que
tinha ali mesmo a seu lado, ao mais curto alcance, tudo de quanto
precisava para satisfazer as suas necessidades de mulher moa.




                                                                       145
Foi ento que ela tornou a si, na vida real. Estivera dezesseis horas em
estado letrgico; havia cado em torpor s cinco da tarde e s acordara s
nove da manh do dia seguinte. Tomou a custo uma colherinha de xarope,
que lhe deu a Justina, de um frasco novo que acabava de ser aberto, e
ficou a olhar para a criada, fixamente, sem expresso, como uma figura de
cera.

-- Minh'ama ainda se lembra do que me disse ontem?...

-- Que foi?

-- Que eu falasse  Rosinha para vir c, junto com o marido.

-- Ah! lembro-me perfeitamente...

-- Pois eles esto a fora...

Magd conservou-se esttica; no teve a mais ligeira contrao no
semblante. A criada acrescentou, depois de vesti-la:

-- Quer vosmec que eu os faa entrar para esta saleta a ao p?...

-- Pois bem.

Justina saiu do quarto, nadando em satisfao, e desceu de carreira 
chcara, onde o Luiz a esperava ao lado da mulher.

-- Da a pouco eram estes dois conduzidos  presena da filha do
Conselheiro. O rapaz trazia a sua fatiota nova do casamento conservando a
gravata de cetim; a outra um vestido de fusto branco, sarapintado de
florinhas azuis e cheirando  malva. Era ele agora quem estava muito
vexado, e Rosinha no. Esta, ao contrrio, resplandescia de contentamento
expansivo; abria-lhe as ptalas da boca um sorriso largo de rosa ao
desabrochar. Era a alegria vitoriosa da carne dos vinte anos, o riso da
vontade satisfeita, o canto alegre da pomba depois do primeiro arrulho.

O sorriso do Luiz j era outro; um sorriso de sonso, de felizardo consciente
da largueza da sua fortuna e da escassez do seu prprio merecimento. No
levantava o rosto e no olhava de frente como a esposa; tinha os olhos em
terra e torcia e destorcia entre os dedos calejados o seu chapu novo de
abas largas; todo ele envergonhado de ser to feliz, envergonhado como
um pobre-diabo que  surpreendido a comer s escondidas um manjar
delicadssimo e digno da boca de prncipes.




                                                                        146
Magd ainda mais o confundia, porque no lhe tirava a vista de cima;
considerava-o da cabea aos ps; parecia estudar-lhe os menores traos
da fisionomia, como se intimamente o comparasse com algum.

-- Ento, com que sempre se casaram...? perguntou afinal, mordendo o
lbio inferior e achinezando. os olhos.

Os dois, que at a guardavam um silncio espesso, apressaram-se a
responder juntos, dando um pequeno passo para a frente:

-- Casamos, sim senhora.

-- E desde quando se gostam? H muito tempo j?...

-- Ora h que tempo!... resmungou Luiz, olhando de soslaio para a mulher.

Esta soltou uma risadinha e disse:

-- Eu ainda bem no tinha acabado a muda e j ele andava atrs de mim..

-- E agora... estimam-se deveras?...

Os manganes no responderam, olharam um para o outro, apertando os
beios, e afinal duas gargalhadas espocaram ao mesmo tempo, sem que
ambos pudessem mais trocar um olhar entre si; esfogueados por aquele
riso escandaloso, aquele riso que denunciava o que s eles, os brejeiros, l
sabiam.

Houve um silncio, em que Magd parecia meditar, muito sria; depois --
fez um quase imperceptvel movimento de ombros e ordenou  criada que
fosse l em baixo buscar uma garrafa de vinho: "Vinho bom, heim?"

Justina saiu correndo e de passagem atirou aos noivos um gesto que dizia:
"Vocs agora  que vo ver o que  uma boa pinga!"

A histrica passou ao quarto de dormir e foi buscar o frasco de xarope de
Easton, aberto havia pouco; enquanto Luiz, vendo-se a ss com a mulher,
ferrou-lhe um belisco na cinta.

-- Fica quieto! segredou a mooila, indicando com o polegar a porta por
onde sara a filha do Sr. Conselheiro.

Esta tornou a aparecer e props-lhe, com uma das mos escondida atrs
das costas:



                                                                        147
-- Porque no entram a para essa outra sala!... Sentem-se l... Estejam 
vontade...

Os dois seguiram, um aps outro, para o compartimento contguo, e a
enferma acompanhou-os com estranho olhar, em que havia um duro
ressaibo de clera invejosa. Chispava-lhe na pupila o mesmo rbido fulgor
com que ela vira uma vez matrimoniar-se o casalzinho de rolas da sala de
jantar e com que, de outra, fitara a voluptuosa miniatura do "Amor e
Desejo", que seu pai tanto estimava.

Justina voltou, trazendo uma bandeja com uma garrafa j aberta e trs
copos.

-- Agora vai buscar doces e biscoutos, encomendou-lhe a senhora.

A criada deps a bandeja sobre a mesa do centro e saiu de novo. Ento
Magd, com muita calma, sem lhe tremer nem de leve a mo, encheu um
dos copos de vinho e despejou no restante da garrafa todo o xarope do
frasco; em seguida ia a chamar os noivos, mas deteve se; tomou
novamente a garrafa, mirou-a contra a luz, provou do vinho na ponta da
lngua e, satisfeita com o resultado do seu exame, tornou  alcova, trouxe
outro frasco do xarope ainda intacto, abriu-o e fez deste o mesmo que com
o primeiro.

-- Agora sim, disse baixinho, sacolejando a garrafa., e acrescentou em voz
alta, dirigindo-se para a sala prxima, enquanto enchia tranqilamente o
segundo e o terceiro copo:

-- Ol! Venham da beber  minha sade.

Os desgraados acudiram logo de pronto. Magd apoderou-se do copo que
havia enchido antes e ofereceu-lhes com um gesto amvel os outros.

Luiz e Rosinha deram-se pressa em lanar mo cada um do seu.

-- Ento, v! Para que sejam muito felizes disse a histrica, levando o
vinho  boca. -- Bebam tudo! bebam tudo!

Os dois obedeceram, enxugando de um trago o liquido, com uma pequena
careta, que no puderam reprimir.

-- Que tal? perguntou Magd.




                                                                       148
-- Bom, muito obrigado, respondeu o cavoqueiro; mas, franqueza,
franqueza, achei-o a modo que muito doce e muito azedo ao mesmo
tempo...

--  que a gente no est acostumada... explicou Rosinha com um pigarro.

Nesse momento, Justina reaparecia, trazendo os biscoitos; porm, tanto o
rapaz, como a noiva, pasto se servissem logo, no podiam comer, que lhes
principiavam os queixos a emperrar. E amargava-lhes a boca e ardia-lhes a
garganta de um modo muito esquisito.

Pediram gua.

Justina no se achou com nimo de gracejar e correu em busca do que
eles reclamavam.

-- Sentem alguma coisa? inqueriu Magd tranqilamente.

-- Uma apertura aqui... disse Rosinha com dificuldade, levando a mo s
tmporas e depois  nuca.

-- Tambm a mim di-me a cabea... confirmou o cavoqueiro em voz
alterada.

-- Sentem-se, aconselhou a senhora. -- Fiquem a gosto...

E sorriu.

Fez-se um silncio glido, em que se ouvia pendular na alcova de Magd o
seu pequeno regulador de bronze; mas no fim de alguns instantes os
pobres noivos, que pareciam cada vez mais sobreexcitados, puseram-se a
mexer com a mandbula inferior, contraindo os msculos da face e da a
pouco tinham rpidos estremecimentos convulsivos, que lhe agitavam o
corpo inteiro, de instante a instante, violentamente.

Luiz quis falar e no pde; apenas gorgolejou uns bufidos guturais.

Magd ria-se, olhando as caretas convulsivas que ele e a mulher faziam.
Esta, agoniada, levava simultaneamente as mos  garganta e ao
estmago, sem poder gritar, to contrada tinha j o laringe.

Repetiam-se os espasmos com mais intensidade, acompanhados de feias
agitaes tetaniformes. O cavoqueiro estorcia-se na cadeira, rilhando os
dentes e tomado de uma ereo dolorosssima.



                                                                      149
Quando Justina voltou, encontrou-os por terra, a estrebuchar; roxos, as
pupilas dilatadas os membros hirtos, os queixos cerrados.

A criada soltou um grito, atirou com a bilha de gua e os copos e saiu a
berrar.

Com este barulho, Luiz teve um acesso mais forte e retesou-se todo,
vergando-se para trs, a ponto de encostar a cabea na coluna vertebral.

E roncava, escabujando horrorosamente.

-- Que  isto?! exclamou o Conselheiro, invadindo o aposento, seguido por
Justina, que parecia louca.

-- Stchio!!! fez Magd, pondo o dedo nos lbios e arregalando os olhos. --
No faam espalhafato!... Deixem tudo por minha conta...

-- Jesus! Que aconteceu? gritou o pai, fazendo-se cor de mrmore e
tentando levantar do cho o trabalhador. No pde. Luiz estava duro como
uma esttua.

O pobre velho, a tremer, desorientado, precipitou-se sobre a mesa e
descobriu os frascos de xarope.

-- Ah! explodiu, arrancando os cabelos. -- Meu Deus! meu Deus!
Envenenou-os!

-- Que extravagncia!... dizia Magd com uma             risada.   --   Que
extravagncia!!! Meu marido h de achar graa!...

O Conselheiro corria de um para outro lado, atnito, e, percebendo que os
envenenados iam morrer, pediu socorro em altos brados.

Justina havia fugido para a rua e gritava:

-- Acudam! Acudam!

Entretanto, Rosinha e Luiz agonizavam ao lado um do outro; a boca muito
aberta e as ventas arregaadas  falta de ar.

Em breve, a casa foi assaltada por uma poro de gente. A me e a av do
cavoqueiro entraram na carreira, terrveis, desgrenhadas, estralando com
os tamancos no soalho -- os braos nus, a saia enrodilhada na cintura a
bramirem chorando; ao passo que o Conselheiro deixava-se estrangular



                                                                        150
pelos soluos, atirado ao fundo de uma poltrona, com o rosto escondido
entre as mos.

Havia cm todos os estranhos um lvido assombro de terror. Surgiram
plidas figuras curiosas e assustadas, espiando pelas portas; s bem
distintos se ouviam os noivos e os rugidos da tia Zela e da velha Cust6dia,
que iam, rpido, farejando a casa toda, sala por saia, tontas e assanhadas
como duas leoas rebuscando os filhos que lhes roubaram.

Uma onda feroz e atroadora invadiu os aposentos de Magd; mas de sbito
assomou por entre ela o sobretudo alvadio do Dr. Lobo que,
atropeladamente, abriu caminho com trs murros, e foi colocar-se defronte
da criminosa, quando esta ia j ser alcanada pelas duas feras.

O populacho do cortio e os trabalhadores da pedreira queriam acab-la,
ali mesmo, a unhas e dentes; porm o mdico, muito esbofado, porque
viera da rua l a passo de lobo, o chapu de castor no alto da cabea, o
suor a inundar-lhe o pescoo, os olhos faiscantes, mostrava os punhos e
refilava as prezas, rosnando contra quem se aproximasse da "sua
enferma".

Estava formidvel; metia medo! Nunca homem nenhum defendeu, nem a
prpria amante, com tamanha dedicao.

Ningum ousou tocar em Magd.

Entretanto, outro facultativo cuidava de Luiz e Rosinha, mas sem
resultado; os infelizes expiraram penosamente meia hora depois da
intoxicao.

Afinal, chegaram as autoridades policiais. Fez-se o corpo de delito. Os
cadveres foram carregados para a sala do fundo. Expeliu-se o povo,
fechou-se a casa e postaram-se soldados  porta.

Conduzida Magd  presena de suas vtimas, interrogaram-lhe se ela
conhecia aqueles mortos.

-- Pois no!... perfeitamente, respondeu a alucinada.

E acrescentou, segurando os cabelos do moo da pedreira: -- Este  o meu
querido esposo bem amado, pai de meu filho, senhor poderoso na terra e
descendente de Deus; matei-o e mais a essa outra que a est, porque ele
me traiu com ela!




                                                                        151
XXI

Magd, acompanhada pelo pai e pelo mdico, foi nesse mesmo dia
conduzida  Casa de Deteno.

Delirou por todo o caminho. Afigurava-se-lhe que o carro em que iam era
um barco e a rua um grande rio deslizado entre paredes de verdura.

-- Mais depressa! mais depressa! exclamava a insensata aos dois falsos
tripulantes que tinha ao lado.

-- No deixem dormir os remos!

-- H de ser difcil encontrar semelhante ilha... observou um deles.

-- E eu duvido muito que a encontremos... considerou o outro.

-- Ah! disse a filha do Conselheiro, notando que o rio se alargava. -- Talvez
que aparea agora!...

-- Mas isto j  o mar!... contraps um daqueles.

-- Pois  justamente no mar que ela est... confirmou a desvairada.

-- No mar? Pois a senhora quer viajar em pleno mar com um barquinho to
 toa?...

-- No faz mal! respondeu a senhora. -- No faz mal! Vamos adiante!

--  que  muito arriscado! Podemos levar o diabo!

-- Procuremos! Procuremos!

-- Procurar uma ilha como quem procura uma casa!...

-- No tenham medo! Vamos para a frente!

E o barco, embalanado agora pelas guas do alta mar, proejava errante;
ora batido para a direita, ora para a esquerda; ora avanando, ora
recuando,  procura da ilha encantada. Magd, erguida de p, os cabelos
soltos ao vento, concheava a mo sobre os olhos e procurava descobrir ao




                                                                         152
longe, nos limbos do horizonte, algum ponto negro que lhe desse uma
esperana.

-- Por aqui no h ilha nenhuma!... objurgou um dos mareantes. -- E'
loucura continuarmos a procur-la!...

-- Mas como se chama esse tal demnio de ilha? perguntou o outro.

-- No sei, no sei como se chama, a "Ilha do Segredo" talvez, ou talvez
nem tenha nome; porm juro-lhe que ela existe, porque  l que eu vivo
h muito tempo,  l que moro com minha famlia! Procuremos!
Procuremos! Eu lhes darei todas as minhas jias, eu lhes darei, senhores,
tudo o que possuo, menos meu filho! No parem! no hesitem, por amor
de Deus!

Com estas palavras os remadores pareciam criar novo nimo.

-- Espera! gritou um deles, no fim de algum tempo. -- H terra naquela
direo!

-- E, se me no engano  com efeito uma ilha... acrescentou o
companheiro.

-- Pois vamos l! Vamos l! suplicava a histrica, esfregando as mos com
impacincia.

-- Mas como  longe!.

-- Eu j nem sei por onde andamos!...

-- No desanimem! No desanimem! Agora pouco falta! Vamos! -- Um
pequeno esforo!

Enormes vagalhes erguiam-se de todos os lados; o horizonte aparecia e
desaparecia quase sem intermitncia; o barquinho, to depressa rastejava
pelo fundo de abismos tenebrosos, como se alcantilava deslizando no claro
dorso de espumosas montanhas; entretanto -- seguia, seguia sempre,
agora sem mais auxlio de remos, como se fosse levado por uma
correnteza.

A ilha aumentava rapidamente defronte dos olhos de Magd.

--  ela mesma!  ela! exclamava a louca. -- J daqui enxergo a colina,
toda emplumada de bambus



                                                                      153
E alava os braos para o cu, rindo e chorando de alegria. --  ela! E' a
minha querida priso!  o meu ninho adorado! Vou tornar a v-la! Vou
habit-la de novo! Que ventura, que ventura suprema!

E avanavam, cada vez mais aceleradamente, arrastados pelas guas. Em
menos de um minuto avistavam-se j as palmeiras da campina; via-se
rebrilhar ao sol o areal da praia; destacavam-se caminhos de verdura, e o
teto da habitao surgia por entre massas de arvoredo.

Mas j ningum podia resistir ao mpeto da carreira que levava o barco; o
miservel precipitava-se agora vertiginosamente como se fosse arrebatado
por uma, pororoca.

-- Agenta! Agenta! berravam os catraeiros.

-- Estamos perdidos!

-- Agenta!

-- Proteja-nos Deus!

-- Valha-nos a Virgem!

Os marinheiros tinham a feroz catadura de quem v a morte face a face.
Praguejaram maldies, blasfmias; depois abriram a chorar, como duas
mulheres.

E Magd sorria com a idia de que, se expirasse afogada, o seu cadver
seria levado pelo oceano aos braos do milagroso amante, que a faria
ressuscitar imediatamente.

Os dois homens rezaram, para morrer.

Redobrou a fria da corrente. O barco rodopiava, que nem um tronco que
a voragem sorveu. Magd j no sentia ponto de apoio, j no via ningum
a seu lado, arrebatada por um turbilho de vagas que a sufocavam.

Remoinhou nessa aflio alguns instantes; de sbito, ouviu um estrondo de
onda que espoca e sentiu-se rolar na praia, cuspida numa golfada de
espumas.

Correu at onde nascia a relva e deixou-se cair a, prostrada.




                                                                       154
Assim esteve longo tempo, descansando ofegante sobre a grama fresca e
macia, completamente nua, os olhos fechados; toda ela penetrada por um
capitoso perfume de magnlia. Este aroma, que dantes tanto a
importunava, dava-lhe agora inefveis consolaes; era esse o perfume da
sua ilha querida; esse o aroma do paraso de amor, onde nascera o ente
que ela mais estremecia no mundo.

Todavia a prostrao no a deixava ainda correr ao encontro do filho; e
seus lbios estalavam de sede pelos beijos dele, e toda ela ardia na
impacincia da saudade.

-- Maldito abatimento!

Entardeceu. Um vento fresco agitava agora os carnabais em melanclicos
sussurros; a patativa gemia na mata, chamando o companheiro; e toda a
ilha se apurpurava na flgida congesto do sol poente.

Magd ergueu-se a meio na relva, admirada de que o marido ainda no
tivesse dado por falta dela e no fosse  sua procura: "No era aquela a
hora em que todos os casais se recolhiam ao aconchego dos ninhos?..."

Ficou a cismar.

-- Teria acontecido alguma desgraa?... disse consigo. E ento, a idia do
envenenamento de Luiz e Rosinha veio-lhe  lembrana com o pnico de
um sonho pressago.

Teve um arrepio. Recordou-se de os ter visto mortos, ao lado um do outro,
lvidos e enrijados pela estricnina Seu corao encheu-se com um
pressentimento horrvel. Levantou-se logo e tomou aflita a direo da casa.

A porta estava aberta. Foi entrando.

Achou tudo deserto e silencioso.

Estremeceu aterrada.

-- Luiz! gritou ela.

Ningum respondeu.

-- Luiz!  Luiz!

A sua voz perdia-se nos surdos murmrios da tarde.



                                                                        155
Sem nimo de fazer uma conjetura, correu ao bero do filho.

Encontrou-o vazio.

Apalpou-lhe as roupas, levou-as  face -- nenhum calor as aquecia.

Estremeceu de novo. E, j aturdida. mais plida do que a estrela da
manh, foi a todos os cantos da casa, gritando pelo filho e chamando pelo
esposo.

Nada! nada!

Saiu a correr; entranhou-se na mata, percorreu vales e montanhas; cercou
doidamente a ilha inteira, gritando e chorando.

No encontrou ningum! ningum!

Tornou pelos caminhos andados; bateu de novo todos os recantos da ilha,
e voltou  casa, possessa, estrangulada de soluos.

-- Roubaram meu filho! Roubaram meu filho!

E ps-se a quebrar tudo que pilhava ao primeiro alcance. Arremessou por
terra e de encontro s paredes, as jarras, o tinteiro, estatuetas e faianas;
atirando depois consigo mesma ao cho, estrebuchando, torcendo-se em
arco, encostando a cabea nos calcanhares, a espumar entre dentes e a
espolinhar-se como um hidrfobo. Em seguida comeou a engatinhar,
firmada nas mos e nos joelhos, resbunando prolongadamente, com o
pescoo estendido, a boca virada para o alto:

-- Fernando! Fernando!

Corriam-lhe lgrimas pela face. De repente, ergueu-se e caiu de novo em
fria, a querer dar cabo de tudo; ento sentiu que vigorosos pulsos a
agarravam por detrs e enlaavam-lhe os braos.

-- Fernando! Fernando!

E tentava morder os que a seguravam, arremetendo com a cabea para os
lados.

Mas um homem suspendeu-a pelas costas e outro lhe enfiou pelos ps uma
abominvel mortalha de linho cru, que se lhe estreitava at ao pescoo,
tolhendo-lhe o corpo inteiro.



                                                                         156
E Magd, em vo tentando debater-se na camisola de fora, foi entre
policiais, conduzida para uma clula nos braos do Dr. Lobo, que
praguejava, furioso, por lhe no permitirem as leis carreg-la consigo no
mesmo instante para a sua casa de sade.

Ficou l dentro sozinha, a roncar como uma fera encarcerada. O pai viu
fecharem-lhe a jaula, mais sucumbido do que se aquela porta fosse a lousa
de um tmulo.

-- Est perdida para sempre! soluou o desgraado, resvalando no colo do
mdico,

O esquisito fez que limpava o suor da testa, para disfarar duas lgrimas
rebeldes que lhe saltavam dos olhos escandalosamente.




                      ************




                                                                       157
Sobre o autor e sua obra



                  Alusio Azevedo (Alusio Tancredo Gonalves
                  de Azevedo), caricaturista, jornalista, romancista e
                  diplomata, nasceu em So Lus, MA, em 14 de abril de
                  1857, e faleceu em Buenos Aires, Argentina, em 21 de
                  janeiro de 1913.  o fundador da Cadeira n. 4 da
                  Academia Brasileira de Letras.

                   Era filho do vice-cnsul portugus David Gonalves de
                   Azevedo e de d. Emlia Amlia Pinto de Magalhes e
                   irmo mais moo do comedigrafo Artur Azevedo. Sua
me havia casado, aos 17 anos, com um rico e rspido comerciante
portugus. O temperamento brutal do marido determinou o fim do
casamento. Emlia refugiou-se em casa de amigos, at conhecer o vice-
cnsul de Portugal, o jovem vivo David. Os dois passaram a viver juntos,
sem contrarem segundas npcias, o que  poca foi considerado um
escndalo na sociedade maranhense.

Da infncia  adolescncia, Alusio estudou em So Lus e trabalhou como
caixeiro e guarda-livros. Desde cedo revelou grande interesse pelo desenho
e pela pintura, o que certamente o auxiliou na aquisio da tcnica que
empregar mais tarde ao caracterizar os personagens de seus romances.
Em 1876, embarcou para o Rio de Janeiro, onde j se encontrava o irmo
mais velho, Artur. Matriculou-se na Imperial Academia de Belas Artes, hoje
Escola Nacional de Belas Artes. Para manter-se, fazia caricaturas para os
jornais da poca, como O Figaro, O Mequetrefe, Zig-Zag e A Semana
Ilustrada. A partir desses "bonecos" que conservava sobre a mesa de
trabalho, escrevia cenas de romances.

A morte do pai, em 1878, obrigou-o a voltar a So Lus, para tomar conta
da famlia. Ali comeou a carreira de escritor, com a publicao, em 1879,
do romance Uma lgrima de mulher, tpico dramalho romntico. Ajuda a
lanar e colabora com o jornal anticlerical O Pensador, que defendia a
abolio da escravatura, enquanto os padres mostravam-se contrrios a
ela. Em 1881, Alusio lana O mulato, romance que causou escndalo entre
a sociedade maranhense, no s pela crua linguagem naturalista, mas
sobretudo pelo assunto de que tratava: o preconceito racial. O romance
teve grande sucesso, foi bem recebido na Corte como exemplo de
Naturalismo, e Alusio pde fazer o caminho de volta para o Rio de Janeiro,
embarcando em 7 de setembro de 1881, decidido a ganhar a vida como
escritor.


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Quase todos os jornais da poca tinham folhetins, e foi num deles que
Alusio passou a publicar seus romances. A princpio, eram obras menores,
escritas apenas para garantir a sobrevivncia. Depois, surgiu nova
preocupao no universo de Alusio: a observao e anlise dos
agrupamentos humanos, a degradao das casas de penso e sua
explorao pelo imigrante, principalmente o portugus. Dessa preocupao
resultariam duas de suas melhores obras: Casa de penso (1884) e O
cortio (1890). De 1882 a 1895 escreveu sem interrupo romances,
contos e crnicas, alm de peas de teatro em colaborao com Artur de
Azevedo e Emlio Roude.

Em 1895 encerrou a carreira de romancista e ingressou na diplomacia. O
primeiro posto foi em Vigo, na Espanha. Depois serviu no Japo, na
Argentina, na Inglaterra e na Itlia. Passara a viver em companhia de D.
Pastora Luquez, de nacionalidade argentina, junto com os dois filhos,
Pastor e Zulema, que Alusio adotou. Em 1910, foi nomeado cnsul de 1a
classe, sendo removido para Assuno. Depois foi para Buenos Aires, seu
ltimo posto. Ali faleceu, aos 56 anos. Foi enterrado naquela cidade. Seis
anos depois, por uma iniciativa de Coelho Neto, a urna funerria de Alusio
Azevedo chegou a So Lus, onde o escritor foi sepultado definitivamente.

Obras: Uma lgrima de mulher, romance de estria (1880); O mulato,
romance (1881); Mistrio da Tijuca, romance (1882; reeditado: Girndola
de amores); Memrias de um condenado (1882; reeditado: A condessa
Vsper); Casa de penso, romance (1884); Filomena Borges, romance
(publicado em folhetins na Gazeta de Notcias, 1884); O homem, romance
(1887); O coruja, romance (1890); O cortio, romance (1890); Demnios,
contos (1895); A mortalha de Alzira, romance (1894); Livro de uma sogra,
romance (1895).




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